quarta-feira, 1 de abril de 2020

A CULTURA DO LUXO: MODA E BELEZA A SERVIÇO DA HUMANIDADE



A cultura do luxo praticamente parou nos últimos meses. Potências mundiais invadidas pelo coronavírus tiveram suas atividades produtivas e comerciais inteiramente comprometidas, quando a preocupação essencial passou a ser a sobrevivência. Nesse cenário desolador que mobiliza todo o planeta, grandes marcas de luxo, concentradas na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, mudaram suas estratégias e passaram a se concentrar em como empreender medidas de solidariedade.

Dentre as estratégias, destacam-se as empreendidas por marcas como Louis Vuitton, Prada e Bvlgari. O presidente do grupo LVMH, Bernard Arnault, determinou que três das suas fábricas de perfume produzam álcool em gel ao invés dos habituais cosméticos e demais fragrâncias para marcas do conglomerado. O gel hidroalcoólico será doado a hospitais franceses. A empresa também doou US$ 2,2 milhões à Sociedade da Cruz Vermelha da China. A Prada, por sua vez, decidiu doar seis UTIs para três hospitais em Milão, na Itália, um dos países mais afetados pelo coronavírus. Os hospitais beneficiados são o Vittore Buzzi, o Sacco e o San Raffaele. Já a Bvlgari, fez uma doação ao hospital Lazzaro Spallanzani em Roma, que permite a compra de um sistema de aquisição de imagens microscópicas de última geração, uma máquina fundamental para apoiar uma pesquisa que visa o isolamento do vírus, projetando prevenção e tratamento.

Diante deste cenário, vislumbramos o quanto esse mercado do luxo está enraizado na nossa cultura e o quanto qualquer tipo de alteração no curso produtivo e comercial impacta este mesmo mercado, como tantos outros. De certo, ainda que o luxo esteja associado a uma inutilidade, num momento de crise planetária, esse mercado mostra como pode ser útil. Além do mais, sabemos que o luxo está associado à ideia de eternidade e de sonho, vetores cada vez mais intensificados em tempos de incertezas.

Nesse universo, o campo da moda ocupa um espaço extremamente importante. Marcas e conglomerados do setor do vestuário e acessórios constituem esse território singular em que certos modos de ser e de estar no mundo são adotados, estimulados e cobiçados pelos indivíduos. Yves Saint Laurent, Dior, Prada, Burberry, Chanel, Gucci, Hermès e Louis Vuitton são alguns dos ícones desse universo que mobiliza cifras na casa dos milhões... Só para termos uma ideia dos montantes, a marca francesa Louis Vuitton, até meados do ano passado (julho de 2019) era considerada a marca de luxo mais valiosa do mundo (valor de US$ 47,2 bilhões), segundo dados do ranking BrandZ, divulgados pela WPP e pela Kantar. Outras duas marcas também francesas ocupam o segundo e terceiro lugares neste mesmo ranking: a Chanel (valor de US$ 37 bilhões)  e a Hermès (US$ 31 bilhões) .

Vislumbramos, assim, o papel da moda e da beleza no universo do luxo. Para termos uma ideia de como se desenvolve a cadeia produtiva desse setor, é importante assinalar que a indústria têxtil e de vestimentas vem cada vez mais procurando centros em que se encontra uma mão de obra mais acessível e, por isso mesmo, assistimos a um crescimento exponencial da produção asiática e o descenso da hegemonia europeia. De todo modo, os principais grupos responsáveis por bens pessoais de luxo concentram-se, ainda, no ocidente. Há um predomínio das marcas italianas e francesas.

Ainda assim, o que mais chama atenção é o fato de que há uma deslocalização dos produtos impulsionada pela globalização e existe, consequentemente, um hiato entre o lugar de origem dos produtos e a representação simbólica a que nos remetem; “os objetos circulam sem que o peso identitário perturbe o seu movimento”, observa o sociólogo Renato Ortiz. No campo do luxo e da moda isso fica ainda mais evidente, pois, quase sempre, a identidade das marcas não coincide com sua geografia de origem; elas pertencem ao espaço da modernidade-mundo. E por isso mesmo um estilista como Yamamoto vai afirmar que “não há nenhuma nacionalidade em minhas roupas. Elas não são nem japonesas, nem francesas, nem americanas. Minhas roupas não pertencem à nenhuma nação”. Tal aspecto relativiza exponencialmente a questão identitária relacionada ao consumo do luxo, particularmente, e ao consumo de forma mais ampla.

Inegavelmente, embora desterritorializados, os bens de luxo estão associados a alguns valores simbólicos que lhes confere esse DNA de luxo. Dentre eles, talvez o mais importante seja isso que Ortiz identifica como “(...) transubstanciação simbólica que transfere o valor de assinatura pessoal do criador ao objeto em questão”. É o que comumente no universo da moda identificamos como estilo, uma marca individual, intransferível...

Além da assinatura, do estilo do design-criador, o luxo – cuja origem etimológica vem do termo latim luxus, que significa ostentação - , também estabelece relação com tudo aquilo que está no horizonte do sonho, da eternidade e da raridade. Além disso, invariavelmente, associa-se ao bom gosto, à elegância e à beleza. Todos esses valores estão fortemente enraizados à galáxia da moda, embora a eternidade e a raridade não estejam, necessariamente, vinculados aos modismos e a própria dinâmica de renovação constante tão própria ao sistema da moda, como já bem evidenciou Gilles Lipovetsky.

Ainda assim, cabe reconhecer o fato de que, sobretudo na alta costura e nas grandes marcas da moda, como Chanel, Hermès e Louis Vuitton (só para citar aquelas que movimentam as maiores cifras no mercado), a eternidade e a raridade de suas modelagens, tecidos e texturas têm sido fatores essenciais do sucesso e da perenidade das mesmas. Os casacos de tweed da Chanel, a bolsa Kelly da Hermès e a bolsa Speedy Louis Vuitton se instituem numa espécie de “(...) atemporalidade inscrita no corpo de uma realização única”.

A democratização do luxo na contemporaneidade cresce aos nossos olhos e há aqui um papel fundamental da mídia na propagação desses bens de consumo. Assistimos a uma consagração e mesmo hipermidiatização dos criadores, dos designers. Os ‘belos objetos’ são disseminados em campanhas publicitárias que invadem a televisão e, sobretudo, as redes sociais. Atingidas fortemente pela onda do coronavírus, inúmeras marcas buscam na Internet e suas plataformas, uma alternativa para um consumo - ainda que restrito -, que promova bem-estar e ative nossos desejos em tempos de isolamento social.

Mas o que mais impressiona é perceber que o luxo tem relação, sobretudo, com o espírito de dispêndio, humano, demasiadamente humano, e que, portanto, não é algo característico da cultura ocidental, por exemplo, ou mesmo de um momento histórico específico. O luxo sempre nos acompanhou; é um fenômeno da cultura, “uma atitude mental que se pode tomar por uma característica do humano-social afirmando seu poder de transcendência, sua não-animalidade”. O importante é que os bens de luxo ofereçam a possibilidade de experiências únicas, em que cada um de nós possa se sentir transformado, tendo sido afetado de uma maneira tão íntima e tão intensa que depois daquela experiência, jamais seremos os mesmos.

Assim, resta ao universo da moda e do luxo, agora, uma vez mais nos mostrar como é possível encontrar beleza e solidariedade em tempos de isolamento social.


Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

ESCRITORES E COZINHEIROS



Eu conheci o texto de Rubem Alves ainda como estudante do curso de Letras com Francês na UEFS. Mas o fascínio é exatamente o mesmo ainda hoje. Sua escrita é leve, simples, fácil... Se não me engano, foi o professor Assis Freitas, também escritor e jornalista, quem me apresentou “Escritores e Cozinheiros”. Em julho de 2014, mês e ano em que o escritor mineiro deixou a vida terrena, aos 81anos, publiquei esse texto aqui no Tabuleiro da Maria (ilustrado com a mesma foto do autor). E hoje me veio a lembrança dessa verdadeira aula para quem se propõe a escrever com o único objetivo de dar prazer ao leitor. 


Tenho um sonho que, acho, nunca realizarei: gostaria de ter um restaurante. Mais precisamente: gostaria de ser um cozinheiro. As cozinhas são lugares que me fascinam, mágicos: ali se prepara o prazer. Mas para preparar o prazer, o cozinheiro deve ser psicólogo, um adivinho de desejos, conhecedor dos segredos da alma e do corpo. Mas não sei cozinhar. Acho que é por isso que escrevo. Escrevo como quem cozinha. Minha cabeça é uma cozinha. O cozinheiro cozinha pensando no prazer que sua arte irá causar naquele que come. Eu escrevo pensando no prazer que o meu texto poderá produzir naquele que me lê.

A relação entre cozinhar e escrever tem sido frequentemente reconhecida pelos escritores. É a própria etimologia que revela a origem comum de cozinheiros e escritores. Nas suas origens, sabor e saber são a mesma coisa. O verbo latino sapare significa, a um tempo, tanto saber quanto ter sabor. Os mais velhos haverão de se lembrar que, num português que não se fala mais, usava-se dizer de uma comida que ela sabia bem. Saber é experimentar o gosto das coisas: comê-las. O sábio é aquele que
conhece não só com os olhos, mas especialmente com a boca. Quem conhece só com os olhos conhece de longe, pois a visão exige distância; muito de perto a gente não vê nada. Quem conhece com a boca conhece de perto, pois só se pode sentir o gosto daquilo que já está dentro do corpo.

Suspeito que Roland Barthes também tivesse uma secreta inveja dos cozinheiros. Se assim não fosse, como explicar a espantosa revelação com que termina um dos seus mais belos textos, a lição? Confessa que havia chegado para ele o momento do esquecimento de todos os saberes sedimentados pela tradição e que agora o que lhe interessava era “o máximo possível de sabor”. Ele queria escrever como quem cozinha — tomava os cozinheiros como seus mestres. Ele queria ler como quem come uma comida deliciosa.

Mário Quintana também diz do seu sonho de produzir, com a escrita, uma coisa que fosse boa de ser comida e trouxesse deleite ao corpo:

Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto...

A ideia de comer me sugere uma associação deliciosa. Pois comer não se aplica só ao que acontece à mesa. Comer se usa também para descrever o que acontece na cama. Comer é fazer amor. O cozinheiro e o amante são movidos pelo mesmo desejo: o prazer do outro. A diferença está em que o amante oferece o seu próprio corpo para ser comido, como objeto de deleite. O escritor, à semelhança dos amantes, também oferece o seu corpo ao outro, como objeto de prazer. Só que sob a forma de palavra. Cada escritura é uma celebração eucarística: Tomai, comei, isto é o meu corpo...

A leitura tem de ser uma experiência de felicidade. Desejo o prazer do meu leitor. E cada leitor, como o sugeriu Barthes, impõe ao escritor uma condição para seu prazer: “O texto que o senhor escreve tem de me dar prova de que ele me deseja”.  É preciso que as palavras façam amor, como o sugeriu André Breton. Por isso que Borges aconselhou aos seus estudantes que eles só deveriam ler os textos que lhes dessem prazer: “Se os textos lhes agradam, ótimo. Caso contrário, não continuem, pois a leitura obrigatória é uma coisa tão absurda quanto a felicidade obrigatória”. Não se pode comer por obrigação. Não se faz amor por obrigação. Não se pode ler por obrigação.

É este o secreto desejo de cada escritor: o prazer do leitor.

Enquanto viajava liguei o rádio do meu carro e ouvi o anúncio de um curso de leitura dinâmica: a leitura sob o domínio da velocidade. Esta é a última coisa que um escritor pode desejar. Pois o prazer exige tempo. Quem está no prazer não deseja que ele chegue ao fim. Comer depressa, para acabar logo? Fazer amor depressa, para acabar logo? O prazer é preguiçoso. Arrasta-se. Demora. Deseja parar para começar de novo. E depois de terminado, espera pela repetição.

Esta é a razão por que eu gostaria de ser cozinheiro. É mais fácil criar felicidade pela comida que pela palavra...  Os pratos de sua especialidade, o cozinheiro os sabe de cor. Já foram testados, provados, gozados. Basta repetir, fazer de novo o que já foi feito. Mas é justamente isto que está proibido ao escritor. O escritor é um cozinheiro que a cada semana tem de inventar um prato novo. Cada semana que começa é uma angústia, representada pelo vazio de três folhas de papel em branco que me comandam: “Escreva aqui uma coisa nova que dê prazer!”. Escrever é um sofrimento. Todo texto prazeroso conta uma mentira. Ele esconde as dores da gestação e do parto. De vez em quando alguém me diz: “Como você escreve fácil!”. Fico feliz. Alguém me confessou o seu prazer no meu texto. Mas sei que esta facilidade só existe para quem lê. O fogo que me queimou ficou na cozinha. Mário Quintana diz que é preciso escrever muitas vezes para que se dê a impressão de que o texto foi escrito pela primeira vez. Sim, para que se dê a impressão...  Porque se o sofrimento do escritor aparece, o seu texto terá o gosto de comida queimada.

Por isso que, a cada semana, sinto uma enorme tentação de parar de escrever. Para sofrer menos. Escrever é um cozinhar em que o cozinheiro se queima sempre.

Mas vale a pena ficar queimado pela alegria no rosto de quem come a comida que se fez.

Rubem Alves

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

SOBRE FUTEBOL E OUTRAS LEMBRANÇAS


Que eu me lembre, nunca estive em um estádio de futebol, nem mesmo para assistir a um daqueles mega shows musicais, quanto mais para ver a bola rolar no gramado. Quando menina não fui estimulada a praticar esportes. Ir ao estádio muito menos, era coisa pra homem, o preconceito falava mais alto. E assim foi pela vida afora.

Herança, com certeza, de um tempo não muito distante em que as mulheres eram proibidas de jogar futebol, ou melhor, de praticar qualquer esporte que fosse contra sua natureza. Acreditava-se então que, ao proibir a sua participação em esportes mais violentos – e o futebol era considerado um deles – estava se preservando o corpo da mulher e até mesmo a sua fertilidade.

Já adulta, atuando como repórter da Sucursal do Jornal da Bahia em Feira de Santana, tinha a obrigação de fazer a cobertura esportiva. Aí entrei em pânico, o que fazer se eu não entendia nada de futebol?  Foi então que os colegas entraram em campo. Os homens, é claro! Eles me ajudavam a compor as matérias. Tudo isso sem pisar no Joia da Princesa.

Lembro como hoje que Zadir Porto me ajudou muitas vezes. Trazia as informações completas sobre o jogo da equipe local contra o time da capital ou de outras cidades vizinhas.  Tinha o jogo de ida e o jogo de volta, e eu sem entender nada.

No jornal, em Salvador, a editoria de esportes não poupava elogios, longe de saber que as matérias perfeitas, usando convenientemente o jargão esportivo, eram feitas contando, como sempre, com o apoio dos colegas que, solidários, poupavam a minha ida ao estádio.

No país do futebol como o nosso, impensável tanta ignorância sobre o tema.  Mas a verdade é que, naquela época, uma mulher no campo de futebol ainda mais como profissional, era uma novidade, principalmente se levarmos em conta que eu era a única a fazer incursões no jornalismo profissional na nossa cidade.

Curiosamente, me sobressaía na cobertura policial, muito mais barra pesada e até então restrita aos homens, mas não conseguia me adaptar à cobertura esportiva. Nem eu mesma entendo.

Hoje, sou flamenguista para seguir o meu filho que é um torcedor apaixonado do Flamengo. Aprendi com ele a tomar gosto pelo time. Afora os jogos do Mengão só assisto a Seleção Brasileira em dias de competições decisivas. Mas estou aprendendo e gostando de futebol. Uma vitória.

Dia desses, assisti na televisão uma longa reportagem em que um grupo de mulheres reivindicava o direito de ir ao estádio em segurança. Muitas delas afirmaram que amam futebol, mas ultimamente evitavam frequentar estádios, com receio de assédio e da violência em campo, sobretudo entre as torcidas. Mas essa é uma outra conversa. Vai ficar para outra oportunidade.

Socorro Pitombo é jornalista

Texto publicado originalmente no Blog da Feira

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

BOM SUCESSO: UM BRINDE À LITERATURA E À VIDA



                                                                                               
A relação da telenovela com a literatura é simbiótica desde seu surgimento. A sua origem remonta aos folhetins publicados nos rodapés dos jornais no século XIX. As primeiras tramas exibidas foram adaptações dos clássicos brasileiros (Senhora, A moreninha, A Sucessora dentre outros). Depois passamos para algumas livres inspirações, a exemplo de Fera Ferida, pautada na obra de Lima Barreto ou as muitas tramas ligadas aos romances de Jorge Amado (Tieta, Porto dos milagres, Renascer). Nos últimos anos, algumas obras têm adotado cada vez mais o processo de citação direta ou indireta, trabalhando a intertextualidade (“todo texto é um mosaico de citações” Kristeva, 1974) em todas as suas infinitas possibilidades. Estratégia criativa elevada à máxima potência em Bom Sucesso, que se finda, infelizmente como todo livro, essa semana, mas continuará ecoando em seus leitores.

Os autores, Paulo Halm e Rosane Svartman, e seus roteiristas igualmente talentosos e certamente bons leitores, investiram com força nesse profícuo diálogo entre os textos de todas as cores, gêneros, nacionalidades e épocas. A novela acolheu inúmeros repertórios culturais, do rap a Cyrano de Bergerac, de Vinicius de Moraes a Fernando Pessoa, da Letra Escarlate a Drummond, do Carnaval à Ópera, dando ênfase a algumas obras-chaves que funcionavam como molas propulsoras da trama,
Dom Quixote, Alice no país das maravilhas e Peter Pan, espécies de alter egos dos protagonistas.

A literatura costurou toda a trama, cujo um dos protagonistas, Alberto Prado Monteiro, é um bibliófilo, vivido com toda a maestria por Antônio Fagundes, dono de uma editora em crise financeira, retrato do nosso mercado editorial invadido por celebridades e youtubers. A presença dos textos se corporifica na trama e se enreda na vida das personagens, seja nos devaneios de Paloma a cada nova leitura, seja na tropa de funcionários do Capitão (Captain, my captain) em suas investigações e peripécias a la Sherlock Holmes ou no Satanás Burlesco que se transformou o vilão Diogo.

Nesses últimos capítulos, os diálogos se intensificaram e se tornaram ainda mais sofisticados e belos. O incêndio na editora foi antecipado pela leitura dramática de Farenheit 451 de Ray Bradbury, obra distópica e utópica a um só tempo, que ganhou vida na voz de Fagundes ao passo que as chamas consumiam os livros. Após o fogo, um momento de rara sensibilidade foi encenado sobre as cinzas. Assim como no conto americano, cada personagem escolheu uma obra (com ligação especial com cada papel interpretado) para guardar na memória, espaço no qual estaria protegida para sempre de qualquer tirania, fogo, guerra ou ditadores, e tal como fênix ressurgiram dos escombros. Vale ressaltar nessa sequência, a morte de Gisele e o réquiem cantado para ela por seu amigo William, a emblemática Geni, de Chico Buarque.

A história construída sobre o lastro forte dos livros é também uma ode à vida com suas grandezas e pequenezas, sobretudo, uma acurada reflexão sobre a morte e o tempo através da doença terminal do Seu Alberto. Estamos aguardando o seu grand finale com ansiedade, pois já podemos imaginar a beleza que virá em seu último ato, epílogo de todos nós. A trama revigorou com beleza ímpar o horário das 19, não só pela presença da literatura e do estímulo ao letramento literário dos telespectadores, mas pela vida que pulsa no riso e choro humano, seja nas ruas de Bonsucesso, seja nos corredores das mansões solitárias. Avante, Quixotes de todos os lugares! A novela e a vida nos mostra que a literatura e a arte não cura nossas dores, mas ajuda a suportá-las! Contar e ouvir boas histórias continuará fascinando os homens de todos os tempos, era uma vez, e outra e outra...

Alana de Oliveira Freitas El Fahl é Professora de Literatura Brasileira e Portuguesa 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A FELICIDADE NOSSA DE CADA DIA



No mundo louco em que vivemos, de tanto desamor, guerras e conflitos da impaciência no lidar com o outro, da  intolerância, ou para dizer melhor, do desprezo pela vida humana, nada mais alentador que uma amizade sincera, daquelas que se dispõem a escutar as nossas mágoas  e alegrias, indistintamente, e estão se tornando cada vez mais raras.

Saber que em algum lugar existe alguém com que podemos contar em qualquer circunstância, nos momentos mais difíceis e naqueles em que compartilhamos vitórias e alegrias é simplesmente gratificante, e nos traz à tona o sentimento de felicidade.

A amizade desempenha papel importante no caminho do ser humano em relação à felicidade, já defendia Aristóteles, um dos mais influentes filósofos gregos do mundo ocidental. O homem vive em comunidade e, por isso mesmo, suas ações têm impacto não apenas sobre si, mas também sobre o outro. É na cidade, no convívio com outras pessoas, que se pode agir e agindo de forma virtuosa se vivencia a felicidade, ensina o filósofo.

Mas afinal, o que é felicidade? Esse questionamento nos acompanha desde sempre.  Ser feliz é ter uma grande fortuna? Estar cercado de poder e honrarias, ter uma bela casa e o carro do ano?  Certamente que não. Esses são prazeres efêmeros, sentimentos passageiros por algo que conquistamos em nossa vida. 

Já para Nietzshe, felicidade é transbordamento. Essa capacidade de sair de si e retornar a si. De todo modo, talvez possamos pensar numa conjunção entre essas duas perspectivas acreditando que a felicidade é fazer aquilo que se gosta. Ter prazer com o que fazemos, buscar um aprimoramento pessoal e neste momento você é mais você e pode compartilhar essa alegria com o outro. Aristóteles falava nessa busca pela excelência, não porque os outros esperam, mas porque há realização de si e esta pode ser compartilhada.

Todos nós queremos ser felizes, esquecendo que a felicidade pode estar naquele domingo ensolarado, quando caminhamos sobre a areia branca da praia. Ou simplesmente acordar, abrir a janela e perceber que no nosso pequeno jardim desabrochou mais uma flor, brotando da terra. Essa é a felicidade genuína. É a aceitação de nós mesmos, com nossas virtudes e defeitos, amores e desamores, erros e acertos, mas sempre na busca de um aperfeiçoamento pessoal, querendo ser uma pessoa melhor.

Entretanto, a ciência moderna propõe dois tipos de felicidade. A condicionada, que surge quando obtemos algum conforto ou ganho, e a felicidade genuína, aquela que flui de nossas mentes e do que oferecemos aos outros e ao mundo. Ou seja, somos felizes quando podemos oferecer coisas boas às pessoas que amamos.

Uma amiga querida me diz que a maior das felicidades é acordar com brilho nos olhos, propósito na vida e boas relações ao redor, sem motivo especial para estar disposto e com bom ânimo. Sábias palavras, porque nos mostram que é possível encontrar felicidade real no cotidiano.

Todas essas reflexões resultam das mensagens que nos chegam via WhatsApp sobre mindfulness, um modelo de meditação que nos ajuda a ter uma vida melhor, dar as mãos aos nossos medos e a realizar os desejos genuínos do nosso coração.

Socorro Pitombo, jornalista

domingo, 5 de janeiro de 2020

SOBRE O TEMPO, O AMOR E A MORTE



De repente me deu uma vontade enorme de escrever cartas. Na verdade, primeiro veio um sentimento de nostalgia. Sabe aquela saudade que vem e ocupa todos os espaços do coração? Pois é exatamente assim. Saudade de pessoas que estão distantes, geograficamente ou não; de situações vividas lá no passado, que parece que estão aqui, agora; de sentimentos reprimidos pela falta de coragem de torná-los públicos. Ou seria compartilhar?

Junte-se a tudo isso o filme Beleza Oculta (originalmente Collateral Beauty), estrelado pelo sempre maravilhoso Will Smith, que vive um publicitário depressivo. Após a morte da filha de seis anos de idade, ele se isola na própria dor e a única forma de comunicação que ainda o mantém vivo é escrever cartas. Os seus destinatários, como era de se esperar, não são pessoas, mas o Tempo, o Amor e a Morte, representações abstratas dos valores da vida.

Passaria todo o tempo aqui falando do filme, uma história atualíssima e tão bem contada, na qual os seres abstratos são transformados em pessoas, que passam a interagir com o personagem de Smith. Mas volto ao ponto inicial sobre o meu súbito desejo de escrever cartas. No meu caso, os destinatários não seriam abstrações e sim pessoas com as quais eu perdi a conexão física, não a emocional.

Fiquei pensando quem seria o primeiro destinatário. E, por razões óbvias, pelo menos para mim e todos que me conhecem de perto e sabem a importância dele em minha vida. Sim, meu pai. Lembro que certa vez em um curso de redação, a professora Lívia Aragão sugeriu que escrevêssemos uma carta. Eu parecia aquela menina da escola Professora Maria Valongo de Carvalho, no povoado de Picado, em Conceição do Jacuípe. Compenetrada e movida pela emoção.

Além de um generoso 10, grafado no alto da folha de papel arrancada de um caderno qualquer, eu tive uma avaliação ainda mais importante dessa carta: a emoção de meu pai ao ler aquelas palavras, escritas rapidamente, mas que permaneceram em sua memória e na folha de papel que guardou por um bom tempo. Assim como eu ainda guardo cartas da doce e guerreira Elis Regina Machado. Era a nossa forma de comunicação, quando deixamos Feira de Santana. Ela para estudar em Aracaju (SE) e eu para trabalhar em Itabuna, no Sul da Bahia.

Diante de tanta intolerância na redes sociais e de minha própria intolerância para conviver com essa realidade, tenho me afastado cada vez mais dessa ferramenta, que ao mesmo tempo que aproxima, aumenta a distância entre as pessoas. Garanto que não vai faltar assunto para escrever cartas. Todos os dias, se eu quiser – e tiver tempo. E quando falhar a criatividade, posso falar sobre o Tempo, o Amor e a Morte. E eu já tenho uma lista enorme de destinatários. Nesta e em outras dimensões de vida.

Madalena de Jesus, jornalista e professora

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

AVENTURA E MAGIA NA FASCINANTE HISTÓRIA DE LAMPIÃO



Ele é considerado a própria essência do cangaço. Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, já foi tema de inúmeras publicações, novelas, filmes, seriados, músicas e folhetos de cordel. Personagem mítico e controvertido, ele continua vivo no imaginário popular do sertanejo, amado por uns, odiado por outros.

 Um fenômeno do banditismo? herói lendário? Essa já desgastada polêmica dá lugar a um personagem definido como “o mais puro e cruel representante do tosco e desumano liberalismo brasileiro”. É assim que o Rei do Cangaço é apresentado no livro Um repórter do futuro no bando de Lampião, escrito pelo jornalista Marcondes Araújo.

Curiosamente, essa figura fascinante da história brasileira, acusada de roubar políticos e coronéis, atacar fazendas e povoados e sobretudo de encomendar a alma de muita gente, só não foi lembrada na literatura, o que acontece agora, com a publicação de Marcondes Araújo, que foi buscar nas lembranças da sua família, inspiração para compor a obra. 

Com uma escrita fácil e atraente, que prende a atenção do leitor logo nas primeiras páginas, ele utiliza o recurso da intertextualidade como fio condutor da narrativa. Para tanto, vai inserindo no enredo recortes de textos literários, dos mais variados autores, entre os quais Chico Buarque de Holanda, Glauber Rocha, Guimarães Rosa, Sergio Ricardo, Luiz Gonzaga, além de Tom Zé, Torquato Neto, Alceu Valença, Kafka, Nietzsche e Geraldo Vandré.

 Baseada em fatos reais, entremeada com fantasia onírica, a história contada no romance de Marcondes Araújo, surgiu dos casos que ouviu desde criança, contados por sua mãe, Maria Clara. O pai dela, João Gomes da Silva, conhecido como João da Mata, selou o cavalo do bandoleiro. Ela conheceu pessoalmente o Rei do Cangaço, quando tinha 12 anos, no povoado Serra dos Morgados. Ali, o cangaceiro pernoitou, rumando em seguida para Brejão da Caatinga, onde matou seis soldados, na praça do vilarejo.

  O trabalho é resultado de minuciosa pesquisa em livros e documentos, que se estendeu por cerca de três anos, com algumas interrupções, incluindo a produção do texto. Com 265 páginas, o livro é uma auto – publicação pela Amazon. A capa é de João França, com foto assinada por Lauro Cabral de Oliveira.

Diferente do que se sabe até hoje sobre Lampião, o romance mostra não apenas a figura perversa do todo poderoso chefe do cangaço, que espalhou o terror e o medo em terras da Bahia, Pernambuco e Alagoas e acabou degolado  na Grota do Angico, no sertão de Sergipe; mas também o lado humano de Virgulino, que tinha o hábito de rezar sempre ao cair da tarde, mesmo que estivesse sob o mais renhido combate.

Além disso, trazia sempre consigo uns patuás, que guardava nos embornais, demonstrando uma religiosidade escondida sob a capa da crueldade. Aliás, como é da própria natureza do ser humano, o bem e o mal caminham lado a lado. Tanto é assim que Lampião quase abandona a carreira criminosa, o que não aconteceu porque teria sido traído pelo coronel Petronílio Reis, influente proprietário de terras no Norte da Bahia, em cuja fazenda esteve hospedado durante quatro meses, como revela a narrativa.

Tudo começou quando o suposto jornalista, Aparício Vieira, chegou à vila de Santo Antônio da Glória, situada nas proximidades das divisas com Pernambuco, Alagoas e Sergipe, para um encontro com o coronel Petronílio Alcântara Reis, intendente do lugar e um dos maiores fazendeiros e chefes políticos de todo o Nordeste da Bahia.

Ele se aproximou do coronel com o pretexto de fazer uma entrevista com Lampião para a revista O Cruzeiro, publicação que seria lançada em breve no Rio de Janeiro e da qual era correspondente em Feira de Santana. A partir daí, o personagem do jornalista vive as mais incríveis aventuras que o projetam no tempo: do passado ao futuro, até voltar ao presente no final da narrativa.

Nas suas andanças pelo interior do sertão, o personagem faz uma regressão no tempo, ao reconhecer a própria mãe, ainda menina, escondida por trás de um grupo de mulheres. Ela olha para ele furtivamente entre curiosa e encabulada, mas sem saber que um dia ele seria o seu filho. Esse episódio fantasioso vem juntar-se a um outro não menos intrigante, quando os moradores da vila, juntamente com os cangaceiros varam a madrugada dançando como autômatos, ao som do xaxado, como se estivessem em transe. Ao acordar no dia seguinte, o jornalista não consegue discernir entre sonho e realidade.

Durante a sua permanência na Vila e na fazenda Gangorra, uma das propriedades do coronel, ele acompanha o dia-a-dia do chefe do cangaço, de quem vai se aproximando cada vez mais, com o pretexto da entrevista. Na verdade, queria apenas conhecer de perto aquela figura lendária, cuja fama de perversidade atravessara as fronteiras do país.

Como visitante ilustre, pois não era comum aparecer por ali um jornalista, Aparício Vieira, aproveitou para conhecer de perto outros moradores do lugar, como João Cambaio, um dos seguidores de Antônio Conselheiro, ex-combatente da guerra de Canudos, que agora vivia recluso em seu casebre, remoendo a perda de familiares e o remorso de não ter lutado até o fim para protegê-los.

Ao contar as proezas de Lampião pelas terras nordestinas, o autor nos dá toda uma dimensão histórica, indo buscar não só o relato da guerra de Canudos, como também a luta da Coluna Prestes, mostrando o que seria, através do personagem Viriato Cedraz – o caixeiro-viajante e bem falante -, a revolução dos camponeses contra os grandes latifundiários.

Outro aspecto interessante no livro é a forma como vão se delineando os   personagens secundários. São figuras emblemáticas do cangaço, a exemplo de Ezequiel Ponto Fino, sujeitinho antipático e arrogante, que se prevalecia da condição de irmão do rei do cangaço para arrotar valentia. Volta e meia, se envolvia em confusão, principalmente com as mocinhas da roça, usando a força para conquistá-las.

Havia também o Anacleto, conhecido como Deus-te-guie. Cangaceiro neófito e muito medroso, logo cedo entendeu que não tinha vocação para aquela vida estropiada e cheia de perigos. Mariano, o artista do grupo, querido por todos por ser bom cantor e tocador de sanfona e violão.

 Afora os cangaceiros, se impõe a figura de Madalena, a filha esquisita do coronel, que diziam virava mula-sem-cabeça, nas noites de lua cheia. Zeca Mendonça, o dono da venda em Itumirim, em cuja porta permanece inscrita como patrimônio histórico do lugar, a frase “Capitão Virgulino mira bem”, feita pelo próprio Lampião, para lembrar que era bom atirador.

Entrevista conseguida estava na hora de voltar para o outro mundo. Esporeando o cavalo, ele gritou para Anacleto, “é agora”. E os dois saltaram para a janela tremeluzente, ali desaparecendo por entre uma enorme instalação, feita de mantas de couro de boi enroladas em varas retas e compridas enfiadas no chão e apontadas para o céu em diversas direções. Era a arte de Juraci Dórea, e foi por dentro dela que os dois desapareceram.

Marcondes Araújo é jornalista, com vários livros publicados, entre contos e microcontos. Além desse romance, ele nos acena com outra publicação do gênero, ainda inédita, Memórias de um possível vencedor e de mais dois livros de contos também ainda inéditos, Histórias cruéis da infância e Contos Fantásticos.

Socorro Pitombo é jornalista