domingo, 28 de maio de 2023

"ESSE ENTUSIASMO TODO DELE É PORQUE ESTÁ NO INÍCIO..."


Por Raulino Júnior
 

Hoje, faz exatos 20 anos que comecei a dar aula. Alguns poucos meses depois que iniciei, uma colega de trabalho falou isto para mim: "Esse entusiasmo todo dele é porque está no início... Achei tão cruel, mas não me abalei. Muito pelo contrário, fiquei ainda mais entusiasmado e sigo assim, apesar dos perrengues e desafios do cotidiano escolar.

Minha primeira experiência como professor foi no Colégio Estadual de Conceição do Jacuípe (CECJ), em Berimbau, minha cidade de origem. Fui contratado pelo Regime Especial de Direito Administrativo (REDA), na época em que só se conseguia "ser REDA" por indicação política. Caiu no meu colo! A vaga era destinada a outra profissional, que não pôde assumir e passou para mim. Dei aula no noturno, na modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos). Uma experiência e tanto!

As fotos desta publicação são de 4 de março de 2004, um tempo depois do começo, mas são emblemáticas porque estou ao lado de professoras que já eram muito experientes e que me receberam super bem naquele 28 de maio de 2003. Aprendi, melhorei e estou aqui 20 anos depois. Com o mesmo entusiasmo! Obrigado, gente!

Aos 21, eu queria mudar o mundo!

Aos 41, eu quero mudar o mundo ainda mais!  Certa vez, Lilia Rezende, que conheci durante a minha caminhada na educação, disse para mim que "entusiasmo" significava "Deus dentro de nós". Nunca mais esqueci!

A cada dia 28, vou publicar fatos que considero como marcos da minha carreira como professor. Tenho ótimas recordações!   

Escola: Da Vida.

Professor: Raulino.

"E é pra chegar sabendo que a gente tem o sol na mão" (Gonzaguinha)


Raulino Júnior, professor e jornalista

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

E ASSIM SE PASSARAM TRÊS DÉCADAS



Por Claudio Rodrigues*

Quando desembarquei no Terminal Rodoviário de Itabuna, no dia 30 de dezembro de 1992, acompanhado da amiga/irmã e futura comadre Madalena de Jesus, estávamos iniciando uma aventura na “Terra do Sem Fim”, sob o comando do mestre José Carlos Teixeira. 

O desafio era modernizar a Comunicação Social do governo do então prefeito Geraldo Simões. Meu projeto pessoal era ficar seis meses na cidade-mãe de Amado Jorge.

Logo na chegada, descobri que havia uma colônia feirense enraizada em Itabuna composta pelo professor Tustão Andrade, o design Paulo Fumaça e o saudoso gerente-comercial do Correio da Bahia para a região Sul, Robson Nascimento. Descobri que feirense e mato são quase iguais, pois brota em todo canto.

Eis que o tempo foi passando, o ciclo de amigos no governo, nos veículos de comunicação e fora desses meios foram aumentando e a gente se apegando a essa terra. A cada 15 dias pegava a rodovia BR-101 rumo a Feira, a fim de encontrar a então amada namorada.

Depois de fazer algumas contas, chegamos à conclusão de que era melhor juntar as escovas e constituir família. Pensem numa escolha acertada!

Posso assegurar que essa água mágica do Cachoeira (fornecida pela Emasa), o vento que sopra na gente e a areia do chão de Itabuna são como visgo da jaca e a nódoa de caju, colam na gente e não saem de jeito algum. 

Itabuna me possibilitou constituir uma bela família. Mas não foi só isso. Essa terra encantadora também me deu alguns amigos-irmãos, a exemplo de Luiz Conceição e Daniel Thame (hoje meus compadres), Ramiro e Ricardo Aquino, Devinho Samuel, Lula Viana, Jackson Primo, Ricardinho Ribeiro, Reinaldo Jovita, Josiel e Norma Nunes, Fernand Milcent, Heitor Abijaude e César Sena.

Além desses irmãos, vieram uma legião de amigos aos quis amo e prezo. A exemplo do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, que nesse mês completaria 110 anos de nascimento, posso afirmar que sou um catingueiro feliz. 

Se eu nascesse de novo, queria ser o mesmo Cláudio. Se eu nascesse de novo e pudesse escolher, mais do que eu sou não queria ser. Eu queria nascer em Feira de Santana, a Terra de Lucas.  Eu queria ser filho de dona Peu, neto de Adelino e Silvina, marido de Maria Martha, pai de Héctor, Heitor e Antônio Neto, e genro de Inês Borges e Antônio Mendes. 

Quando eu tivesse com meus vinte e poucos anos, eu queria desembarcar novamente em Itabuna, me apaixonar por essa cidade e sua gente. E, se eu nascesse de novo e pudesse escolher, escolheria viver tudo isso novamente.

*Jornalista, assessor de comunicação da Emasa

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

TUDO EVOCA SACRALIDADE


Por Jailton Batista

Uma das mais singelas capelas do Brasil está incrustada numa gruta em Bom Jesus da Lapa, no meio oeste da Bahia. Quem ali adentra, não há como não ser impactado, pois tudo evoca sacralidade. Do teto, esculpido pela ação silenciosa do tempo, descem pináculos invertidos de estalactites como se fossem candelabros. Em frente ao altar mor, no centro da capela, um deles verte gotas d’água que um crente diria que seriam lágrimas de Cristo que caem ritmadamente como uma nota musical. 

Esse milagre da natureza poderia ser bem aproveitado numa pia batismal ou em outra cerimônia sacramental para purificar tantas almas pecadoras que ali vão beber na fonte de Deus. Fica aí a sugestão. No interior da caverna sacra há pequenos labirintos onde fiéis ou curiosos percorrem diminuídos pela aura transcende  do lugar. 

Lá fora, a missa campal ao pé da montanha e ao lado da embocadura do templo de pedra, um padre conduz a cerimônia principal sob o fervor dos cânticos entoados por jovens de um coral bem afinado, colorindo a liturgia de uma musicalidade que nos faz imaginar que estamos na porta do céu sendo saudados por anjos com seus alaúdes e cítaras numa festa de conversão.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

LIVRO E DESFILE COLOCAM MODA E CRÍTICA EM DEBATE


Como avaliar o campo da moda, seus produtos e fluxos? Esta foi a indagação inicial que deflagrou a reflexão sobre a crítica de moda e a realização do livro Moda e Crítica: Prazer, Julgamento e Avaliação, da jornalista e pesquisadora Renata Pitombo Cidreira. O livro tem o selo da EDUFBA (Editora da Universidade Federal da Bahia) e procura relacionar a paixão pela moda com a exigência de legitimá-la, enquanto campo. O lançamento, em Feira de Santana, acontece, nesta quarta-feira, 16, a partir das 17:30, na Seriguela Petiscaria. 

Na oportunidade, o público também apreciará um pocket desfile, da Dengo Butique, loja de Lara Pitombo de Cristo. Ela retoma a tradição da família no universo do vestuário, procurando atualizar a proposta da loja Dengo Boutique, que foi referência do segmento de loja feminina na cidade de Feira de Santana por muitos anos, sob o comando de seus pais, Socorro Pitombo e Wilson Cristo. Reformulada, a loja procura atingir um público mais jovem e assumir um estilo mais casual. Em parceria, as irmãs procuram oferecer ao público um bom entretenimento e momento de imersão prática e conceitual no campo da moda. 

A autora do livro, Renata Pitombo Cidreira, é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pela UFBA, com pós-doutorados em Sociologia (Universidade de Paris V – Sorbonne) e Comunicacão e Arte, pela Universidade de Beira Interior (Portugal). Professora da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) e autora dos livros Os Sentidos da Moda (Annablume, 2005) e A Sagração da aparência (EDUFBA, 2011), ela tem se dedicado a destacar o papel da moda na constituição de um novo perfil comportamental, no mundo contemporâneo.


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O RACISMO E O SENSO DE JUSTIÇA SELETIVO

 



Por Dandara Barreto
 
Depois da expulsão da aluna de uma faculdade particular de Feira de Santana, que utilizou suas redes sociais para fazer ataques racistas a pessoas pretas que dividiam os corredores e a sala de aula com ela, publiquei em minhas redes sociais o vídeo da reação dos alunos após anúncio da decisão da instituição, acertadíssima, na minha opinião, mas ela não é absoluta, felizmente, já que vivemos num país democrático. Divergir da atitude da faculdade é super “ok”. O que não dá para levar em consideração, é quando se coloca o racismo no lugar de opinião, pois não é.

Determinados argumentos me chamaram atenção por esta razão: “Foi um erro grosseiro, mas isso é linchamento virtual”; “Será essa a atitude mais correta?”; “Como Cristo agiria?”; “Devemos usar a razão e agir com amor”. Disseram.

Lendo-os, me deparei com a seletividade da nossa indignação e senso de justiça. Primeiro, porque racismo não é apenas um erro e é inconcebível que alguém considere que o tratemos como tal. Racismo é crime. Pedir docilidade, cordialidade, amor e compreensão como reação a algo que mata, é uma atitude injusta e igualmente racista. Para mim, soa como se pessoas negras tivessem que retroceder séculos e aceitar as humilhações como tiveram que fazer diante de seus ancestrais escravizados.

Questionar a atitude de Cristo, caso estivesse ali, é bem pertinente nesta pauta. Perceba que se foi amor ao próximo que Ele pregou, precisamos todos concordar que não há nada que fira mais o maior dos seus mandamentos do que desprezar alguém pela cor da sua pele ou condição social. Jesus era pobre. Pregou para os pobres e quando viu homens mercantilizando a fé no templo, aos gritos, segundo os evangelhos, os chamou de hipócritas. Ele reagiu duramente e deixou a passividade de lado. Uma demonstração claríssima de que, sim, a sociedade pode e deve agir energicamente, ainda que tenha amarras cristãs. 

Parece que ainda não está claro para todos e precisarei ser repetitiva aqui: racismo é crime! Quando alguém subtrai um bem nosso, nós clamamos por justiça. Queremos ver quem nos roubou atrás das grades, sem compaixão alguma, afinal, como é possível falar com amor com ou sobre quem arranca de nós aquilo que suamos tanto para conseguir? Eu nem vou mencionar nossa sede de justiça quando há um assassinato na história. Sabemos muito bem que sentimento é este e nem sempre nos orgulhamos deles. 

O racismo subtrai a dignidade e a vida de pessoas pretas há centenas de anos. Não é razoável que a sociedade encare como um mero erro, o fato de alguém estar incomodado em conviver com pretos ao seu lado e se manifestar publicamente sobre isso, sem pudor algum. É crime. Meu senso de justiça não pode ser seletivo, ou então, eu estarei sendo hipócrita, tipo de gente que irrita até Jesus.

Pessoas pretas, as leis, os veículos de comunicação, falam didaticamente, todos os dias sobre o quão letal é o crime de racismo. Se alguém não ouve, é necessário elevar o tom da voz. 

A resposta dada a este fato, em Feira de Santana, é a única resposta possível, se não, a gente continua tendo, todos os dias episódios como este.

Eu, mulher branca, que não coaduno com o pacto narcísico da branquitude, escrevo este texto para os iguais a mim. Quem sabe a cor da minha pele faça ecoar em seus ouvidos o que é dito pela comunidade negra à exaustão e de uma vez por todas se entenda comunidade negra à exaustão e de uma vez por todas se entenda que o racismo é crime. 

*Dandara Barreto é jornalista

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

“POEMA”, SENTIMENTOS EM FORMA DE VERSOS


Impossível ouvir Ney Matogrosso cantar “Poema” uma vez só. E quando descobrimos a autoria da música e toda história que a cerca, tudo fica ainda mais especial. É um poema, que Cazuza, aos 17 anos, escreveu para a sua avó Maria José, por quem tinha verdadeira adoração. Os versos são simples, mas com uma carga de sentimentos impressionante. Musicado por Frejat, o poema que ficou guardado em uma caixinha durante 23 anos é uma declaração de amor.


Eu hoje tive um pesadelo

E levantei atento, a tempo

Eu acordei com medo

E procurei no escuro

Alguém com o seu carinho

E lembrei de um tempo


Porque o passado me traz uma lembrança

Do tempo que eu era criança

E o medo era motivo de choro

Desculpa pra um abraço ou um consolo


Hoje eu acordei com medo

Mas não chorei, nem reclamei abrigo

Do escuro, eu via o infinito                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

Sem presente, passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo

Era uma coisa sua que ficou em mim

E que não tem fim


De repente, a gente vê que perdeu

Ou está perdendo alguma coisa

Morna e ingênua que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado

Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.




segunda-feira, 11 de julho de 2022

QUANDO A DOR VIRA SAUDADE E O AMOR PREVALECE

 
Maíra em momento carinhoso com o pai, Anchieta Nery 

Escrevi esse texto logo após a perda do meu pai e a sensação ao relê-lo foi a mesma, uma mistura de alegria, saudade, tristeza. Porque ter vivido com ele e não poder mais compartilhar da sua presença causa tanta coisa, menos indiferença. Meu pai era pura amizade, pura solidariedade, nunca sucumbiu às vaidades que cegam e corrompem até os melhores. Decidi sempre fazer algo no mês de seu aniversário e esse ano como estamos vivendo uma crise sem tamanho resolvi contar com a ajuda dos amigos e familiares e arrecadar cestas básicas que forem possíveis. Então se alguém puder e quiser doar qualquer quantia segue o pix: nerymaira4@gmail.com  (Maíra Nery)

Há um ano e nove meses meu pai partiu - rumo ao mistério. Fiquei tentando juntar o que restava e sobreviver em meio ao caos que restou. Parecia que não tinha mais como piorar, perdi o pai, o meu amigo para sempre. Ele não fora viajar, nem ido ao bar da esquina. De repente e aos poucos, como quem pega no sono, ele tinha morrido, palavra que mais parece um palavrão. Eu não sabia como lidar com a Maíra que tinha ficado. Meus instintos me pediam para não desistir, sobretudo em honra à memória de meu pai, que sempre me ensinou a continuar, a ir, mesmo quando não me restasse mais força. Aprendi com ele a ter fé na vida, a atravessá-la com coragem, determinação e dignidade, mesmo em face do maior obstáculo.    

Lembro como se fosse hoje nosso último diálogo, quando não sabíamos que não travaríamos mais nenhum outro, dentre outras coisas, ele me pediu que cortasse o cordão umbilical com ele, dito isso na véspera da sua partida fez até parecer uma despedida amorosa de um pai sabendo que tem que partir e então pede à filha amada que continue, que seja firme e forte e no final com a voz mais doce possível, quase como música diz em voz firme e tenra - Eu te amo, minha filha.  

Os dias que se sucederam à sua morte foram quase a minha própria morte. Comia o mínimo possível, emagreci muito, fiquei frágil, egoísta e passava o dia migrando da tela do celular para o computador. A dor de enfrentar a morte de alguém muito amado é a dor mais doída que pode existir. Nós não lidamos bem com a finitude. 

Nesse processo de luto aprendi também que não posso controlar tudo, as coisas acontecerão alheias às minhas próprias vontades  e nem sempre me sentirei justiçada e tudo bem. A vida vai continuar, as contas precisam ser pagas, os filhos precisam ser cuidados. E dia a dia vamos também descobrindo novas formas de nos relacionar com aqueles que se foram. Meu pai vive em mim, o amor que cultivamos, os diálogos que travamos, os conselhos que ele me deu, as cervejadas compartilhadas não deixaram de existir só porque não poderão serem mais vividas. Viver na memória de alguém também é viver e uma belíssima forma de viver. Hoje seu olhar doce, sua altivez, sua força, sua compaixão, sua solidariedade estarão em mim, nos meus filhos e nos filhos dos meus filhos e assim ele, um pouco dele, sempre estará vivo. 

Quando menos esperei meu coração foi se acalmando, a dor foi cessando. Aquele passarinho teimoso cantarola, eu volto aos poucos a sorrir. O amigo aparece, o filho faz um afago, e eu novamente relembro seus conselhos - Minha filha se conforme, dói menos. Eu fui aceitando, fui seguindo, florindo novamente.   

Muitas coisas mudaram, eu mudei, a vida mudou para mim, obviamente a saudade não, ela hoje é minha companheira, minha camarada e já sabemos lidar uma com a outra, mesmo naqueles dias que parece que ela resolve me espancar. Bem, hoje parece que dobrei de tamanho, mesmo mutilada, carrego meu pai em mim e poucas coisas me assustam. Se o dia é ruim, se perco algo valioso relembro do meu pai, o vejo sorrindo, lembrando-me que é só um dia ruim mesmo, talvez um amor desleal, um amigo injusto, um chefe ruim, um bug do sistema e vai passar, eu vou levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Tudo sempre passa. 

Eu desejo sinceramente que todos possam viver a plenitude de um amor e amizade tão sinceros quanto o que compartilhei com o meu pai e que esse amor exploda em luzes e seja capaz de iluminar qualquer vida, como iluminou a minha, e que tenham belas memórias, que vivam fartamente como ele viveu. E sobretudo que sejam imensamente felizes, mesmo com a dureza da vida, como eu tenho sido, que tenham filhos sorridentes, amigos leais, amores intensos, dias bonitos, sucos gostosos, chocolates quentes.  

Anchieta Nery 

Presente! 

 Maíra Nery é estudante de Letras e filha do jornalista e professor Anchieta Nery