quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

BOM SUCESSO: UM BRINDE À LITERATURA E À VIDA



                                                                                               
A relação da telenovela com a literatura é simbiótica desde seu surgimento. A sua origem remonta aos folhetins publicados nos rodapés dos jornais no século XIX. As primeiras tramas exibidas foram adaptações dos clássicos brasileiros (Senhora, A moreninha, A Sucessora dentre outros). Depois passamos para algumas livres inspirações, a exemplo de Fera Ferida, pautada na obra de Lima Barreto ou as muitas tramas ligadas aos romances de Jorge Amado (Tieta, Porto dos milagres, Renascer). Nos últimos anos, algumas obras têm adotado cada vez mais o processo de citação direta ou indireta, trabalhando a intertextualidade (“todo texto é um mosaico de citações” Kristeva, 1974) em todas as suas infinitas possibilidades. Estratégia criativa elevada à máxima potência em Bom Sucesso, que se finda, infelizmente como todo livro, essa semana, mas continuará ecoando em seus leitores.

Os autores, Paulo Halm e Rosane Svartman, e seus roteiristas igualmente talentosos e certamente bons leitores, investiram com força nesse profícuo diálogo entre os textos de todas as cores, gêneros, nacionalidades e épocas. A novela acolheu inúmeros repertórios culturais, do rap a Cyrano de Bergerac, de Vinicius de Moraes a Fernando Pessoa, da Letra Escarlate a Drummond, do Carnaval à Ópera, dando ênfase a algumas obras-chaves que funcionavam como molas propulsoras da trama,
Dom Quixote, Alice no país das maravilhas e Peter Pan, espécies de alter egos dos protagonistas.

A literatura costurou toda a trama, cujo um dos protagonistas, Alberto Prado Monteiro, é um bibliófilo, vivido com toda a maestria por Antônio Fagundes, dono de uma editora em crise financeira, retrato do nosso mercado editorial invadido por celebridades e youtubers. A presença dos textos se corporifica na trama e se enreda na vida das personagens, seja nos devaneios de Paloma a cada nova leitura, seja na tropa de funcionários do Capitão (Captain, my captain) em suas investigações e peripécias a la Sherlock Holmes ou no Satanás Burlesco que se transformou o vilão Diogo.

Nesses últimos capítulos, os diálogos se intensificaram e se tornaram ainda mais sofisticados e belos. O incêndio na editora foi antecipado pela leitura dramática de Farenheit 451 de Ray Bradbury, obra distópica e utópica a um só tempo, que ganhou vida na voz de Fagundes ao passo que as chamas consumiam os livros. Após o fogo, um momento de rara sensibilidade foi encenado sobre as cinzas. Assim como no conto americano, cada personagem escolheu uma obra (com ligação especial com cada papel interpretado) para guardar na memória, espaço no qual estaria protegida para sempre de qualquer tirania, fogo, guerra ou ditadores, e tal como fênix ressurgiram dos escombros. Vale ressaltar nessa sequência, a morte de Gisele e o réquiem cantado para ela por seu amigo William, a emblemática Geni, de Chico Buarque.

A história construída sobre o lastro forte dos livros é também uma ode à vida com suas grandezas e pequenezas, sobretudo, uma acurada reflexão sobre a morte e o tempo através da doença terminal do Seu Alberto. Estamos aguardando o seu grand finale com ansiedade, pois já podemos imaginar a beleza que virá em seu último ato, epílogo de todos nós. A trama revigorou com beleza ímpar o horário das 19, não só pela presença da literatura e do estímulo ao letramento literário dos telespectadores, mas pela vida que pulsa no riso e choro humano, seja nas ruas de Bonsucesso, seja nos corredores das mansões solitárias. Avante, Quixotes de todos os lugares! A novela e a vida nos mostra que a literatura e a arte não cura nossas dores, mas ajuda a suportá-las! Contar e ouvir boas histórias continuará fascinando os homens de todos os tempos, era uma vez, e outra e outra...

Alana de Oliveira Freitas El Fahl é Professora de Literatura Brasileira e Portuguesa 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A FELICIDADE NOSSA DE CADA DIA



No mundo louco em que vivemos, de tanto desamor, guerras e conflitos da impaciência no lidar com o outro, da  intolerância, ou para dizer melhor, do desprezo pela vida humana, nada mais alentador que uma amizade sincera, daquelas que se dispõem a escutar as nossas mágoas  e alegrias, indistintamente, e estão se tornando cada vez mais raras.

Saber que em algum lugar existe alguém com que podemos contar em qualquer circunstância, nos momentos mais difíceis e naqueles em que compartilhamos vitórias e alegrias é simplesmente gratificante, e nos traz à tona o sentimento de felicidade.

A amizade desempenha papel importante no caminho do ser humano em relação à felicidade, já defendia Aristóteles, um dos mais influentes filósofos gregos do mundo ocidental. O homem vive em comunidade e, por isso mesmo, suas ações têm impacto não apenas sobre si, mas também sobre o outro. É na cidade, no convívio com outras pessoas, que se pode agir e agindo de forma virtuosa se vivencia a felicidade, ensina o filósofo.

Mas afinal, o que é felicidade? Esse questionamento nos acompanha desde sempre.  Ser feliz é ter uma grande fortuna? Estar cercado de poder e honrarias, ter uma bela casa e o carro do ano?  Certamente que não. Esses são prazeres efêmeros, sentimentos passageiros por algo que conquistamos em nossa vida. 

Já para Nietzshe, felicidade é transbordamento. Essa capacidade de sair de si e retornar a si. De todo modo, talvez possamos pensar numa conjunção entre essas duas perspectivas acreditando que a felicidade é fazer aquilo que se gosta. Ter prazer com o que fazemos, buscar um aprimoramento pessoal e neste momento você é mais você e pode compartilhar essa alegria com o outro. Aristóteles falava nessa busca pela excelência, não porque os outros esperam, mas porque há realização de si e esta pode ser compartilhada.

Todos nós queremos ser felizes, esquecendo que a felicidade pode estar naquele domingo ensolarado, quando caminhamos sobre a areia branca da praia. Ou simplesmente acordar, abrir a janela e perceber que no nosso pequeno jardim desabrochou mais uma flor, brotando da terra. Essa é a felicidade genuína. É a aceitação de nós mesmos, com nossas virtudes e defeitos, amores e desamores, erros e acertos, mas sempre na busca de um aperfeiçoamento pessoal, querendo ser uma pessoa melhor.

Entretanto, a ciência moderna propõe dois tipos de felicidade. A condicionada, que surge quando obtemos algum conforto ou ganho, e a felicidade genuína, aquela que flui de nossas mentes e do que oferecemos aos outros e ao mundo. Ou seja, somos felizes quando podemos oferecer coisas boas às pessoas que amamos.

Uma amiga querida me diz que a maior das felicidades é acordar com brilho nos olhos, propósito na vida e boas relações ao redor, sem motivo especial para estar disposto e com bom ânimo. Sábias palavras, porque nos mostram que é possível encontrar felicidade real no cotidiano.

Todas essas reflexões resultam das mensagens que nos chegam via WhatsApp sobre mindfulness, um modelo de meditação que nos ajuda a ter uma vida melhor, dar as mãos aos nossos medos e a realizar os desejos genuínos do nosso coração.

Socorro Pitombo, jornalista

domingo, 5 de janeiro de 2020

SOBRE O TEMPO, O AMOR E A MORTE



De repente me deu uma vontade enorme de escrever cartas. Na verdade, primeiro veio um sentimento de nostalgia. Sabe aquela saudade que vem e ocupa todos os espaços do coração? Pois é exatamente assim. Saudade de pessoas que estão distantes, geograficamente ou não; de situações vividas lá no passado, que parece que estão aqui, agora; de sentimentos reprimidos pela falta de coragem de torná-los públicos. Ou seria compartilhar?

Junte-se a tudo isso o filme Beleza Oculta (originalmente Collateral Beauty), estrelado pelo sempre maravilhoso Will Smith, que vive um publicitário depressivo. Após a morte da filha de seis anos de idade, ele se isola na própria dor e a única forma de comunicação que ainda o mantém vivo é escrever cartas. Os seus destinatários, como era de se esperar, não são pessoas, mas o Tempo, o Amor e a Morte, representações abstratas dos valores da vida.

Passaria todo o tempo aqui falando do filme, uma história atualíssima e tão bem contada, na qual os seres abstratos são transformados em pessoas, que passam a interagir com o personagem de Smith. Mas volto ao ponto inicial sobre o meu súbito desejo de escrever cartas. No meu caso, os destinatários não seriam abstrações e sim pessoas com as quais eu perdi a conexão física, não a emocional.

Fiquei pensando quem seria o primeiro destinatário. E, por razões óbvias, pelo menos para mim e todos que me conhecem de perto e sabem a importância dele em minha vida. Sim, meu pai. Lembro que certa vez em um curso de redação, a professora Lívia Aragão sugeriu que escrevêssemos uma carta. Eu parecia aquela menina da escola Professora Maria Valongo de Carvalho, no povoado de Picado, em Conceição do Jacuípe. Compenetrada e movida pela emoção.

Além de um generoso 10, grafado no alto da folha de papel arrancada de um caderno qualquer, eu tive uma avaliação ainda mais importante dessa carta: a emoção de meu pai ao ler aquelas palavras, escritas rapidamente, mas que permaneceram em sua memória e na folha de papel que guardou por um bom tempo. Assim como eu ainda guardo cartas da doce e guerreira Elis Regina Machado. Era a nossa forma de comunicação, quando deixamos Feira de Santana. Ela para estudar em Aracaju (SE) e eu para trabalhar em Itabuna, no Sul da Bahia.

Diante de tanta intolerância na redes sociais e de minha própria intolerância para conviver com essa realidade, tenho me afastado cada vez mais dessa ferramenta, que ao mesmo tempo que aproxima, aumenta a distância entre as pessoas. Garanto que não vai faltar assunto para escrever cartas. Todos os dias, se eu quiser – e tiver tempo. E quando falhar a criatividade, posso falar sobre o Tempo, o Amor e a Morte. E eu já tenho uma lista enorme de destinatários. Nesta e em outras dimensões de vida.

Madalena de Jesus, jornalista e professora

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

AVENTURA E MAGIA NA FASCINANTE HISTÓRIA DE LAMPIÃO



Ele é considerado a própria essência do cangaço. Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, já foi tema de inúmeras publicações, novelas, filmes, seriados, músicas e folhetos de cordel. Personagem mítico e controvertido, ele continua vivo no imaginário popular do sertanejo, amado por uns, odiado por outros.

 Um fenômeno do banditismo? herói lendário? Essa já desgastada polêmica dá lugar a um personagem definido como “o mais puro e cruel representante do tosco e desumano liberalismo brasileiro”. É assim que o Rei do Cangaço é apresentado no livro Um repórter do futuro no bando de Lampião, escrito pelo jornalista Marcondes Araújo.

Curiosamente, essa figura fascinante da história brasileira, acusada de roubar políticos e coronéis, atacar fazendas e povoados e sobretudo de encomendar a alma de muita gente, só não foi lembrada na literatura, o que acontece agora, com a publicação de Marcondes Araújo, que foi buscar nas lembranças da sua família, inspiração para compor a obra. 

Com uma escrita fácil e atraente, que prende a atenção do leitor logo nas primeiras páginas, ele utiliza o recurso da intertextualidade como fio condutor da narrativa. Para tanto, vai inserindo no enredo recortes de textos literários, dos mais variados autores, entre os quais Chico Buarque de Holanda, Glauber Rocha, Guimarães Rosa, Sergio Ricardo, Luiz Gonzaga, além de Tom Zé, Torquato Neto, Alceu Valença, Kafka, Nietzsche e Geraldo Vandré.

 Baseada em fatos reais, entremeada com fantasia onírica, a história contada no romance de Marcondes Araújo, surgiu dos casos que ouviu desde criança, contados por sua mãe, Maria Clara. O pai dela, João Gomes da Silva, conhecido como João da Mata, selou o cavalo do bandoleiro. Ela conheceu pessoalmente o Rei do Cangaço, quando tinha 12 anos, no povoado Serra dos Morgados. Ali, o cangaceiro pernoitou, rumando em seguida para Brejão da Caatinga, onde matou seis soldados, na praça do vilarejo.

  O trabalho é resultado de minuciosa pesquisa em livros e documentos, que se estendeu por cerca de três anos, com algumas interrupções, incluindo a produção do texto. Com 265 páginas, o livro é uma auto – publicação pela Amazon. A capa é de João França, com foto assinada por Lauro Cabral de Oliveira.

Diferente do que se sabe até hoje sobre Lampião, o romance mostra não apenas a figura perversa do todo poderoso chefe do cangaço, que espalhou o terror e o medo em terras da Bahia, Pernambuco e Alagoas e acabou degolado  na Grota do Angico, no sertão de Sergipe; mas também o lado humano de Virgulino, que tinha o hábito de rezar sempre ao cair da tarde, mesmo que estivesse sob o mais renhido combate.

Além disso, trazia sempre consigo uns patuás, que guardava nos embornais, demonstrando uma religiosidade escondida sob a capa da crueldade. Aliás, como é da própria natureza do ser humano, o bem e o mal caminham lado a lado. Tanto é assim que Lampião quase abandona a carreira criminosa, o que não aconteceu porque teria sido traído pelo coronel Petronílio Reis, influente proprietário de terras no Norte da Bahia, em cuja fazenda esteve hospedado durante quatro meses, como revela a narrativa.

Tudo começou quando o suposto jornalista, Aparício Vieira, chegou à vila de Santo Antônio da Glória, situada nas proximidades das divisas com Pernambuco, Alagoas e Sergipe, para um encontro com o coronel Petronílio Alcântara Reis, intendente do lugar e um dos maiores fazendeiros e chefes políticos de todo o Nordeste da Bahia.

Ele se aproximou do coronel com o pretexto de fazer uma entrevista com Lampião para a revista O Cruzeiro, publicação que seria lançada em breve no Rio de Janeiro e da qual era correspondente em Feira de Santana. A partir daí, o personagem do jornalista vive as mais incríveis aventuras que o projetam no tempo: do passado ao futuro, até voltar ao presente no final da narrativa.

Nas suas andanças pelo interior do sertão, o personagem faz uma regressão no tempo, ao reconhecer a própria mãe, ainda menina, escondida por trás de um grupo de mulheres. Ela olha para ele furtivamente entre curiosa e encabulada, mas sem saber que um dia ele seria o seu filho. Esse episódio fantasioso vem juntar-se a um outro não menos intrigante, quando os moradores da vila, juntamente com os cangaceiros varam a madrugada dançando como autômatos, ao som do xaxado, como se estivessem em transe. Ao acordar no dia seguinte, o jornalista não consegue discernir entre sonho e realidade.

Durante a sua permanência na Vila e na fazenda Gangorra, uma das propriedades do coronel, ele acompanha o dia-a-dia do chefe do cangaço, de quem vai se aproximando cada vez mais, com o pretexto da entrevista. Na verdade, queria apenas conhecer de perto aquela figura lendária, cuja fama de perversidade atravessara as fronteiras do país.

Como visitante ilustre, pois não era comum aparecer por ali um jornalista, Aparício Vieira, aproveitou para conhecer de perto outros moradores do lugar, como João Cambaio, um dos seguidores de Antônio Conselheiro, ex-combatente da guerra de Canudos, que agora vivia recluso em seu casebre, remoendo a perda de familiares e o remorso de não ter lutado até o fim para protegê-los.

Ao contar as proezas de Lampião pelas terras nordestinas, o autor nos dá toda uma dimensão histórica, indo buscar não só o relato da guerra de Canudos, como também a luta da Coluna Prestes, mostrando o que seria, através do personagem Viriato Cedraz – o caixeiro-viajante e bem falante -, a revolução dos camponeses contra os grandes latifundiários.

Outro aspecto interessante no livro é a forma como vão se delineando os   personagens secundários. São figuras emblemáticas do cangaço, a exemplo de Ezequiel Ponto Fino, sujeitinho antipático e arrogante, que se prevalecia da condição de irmão do rei do cangaço para arrotar valentia. Volta e meia, se envolvia em confusão, principalmente com as mocinhas da roça, usando a força para conquistá-las.

Havia também o Anacleto, conhecido como Deus-te-guie. Cangaceiro neófito e muito medroso, logo cedo entendeu que não tinha vocação para aquela vida estropiada e cheia de perigos. Mariano, o artista do grupo, querido por todos por ser bom cantor e tocador de sanfona e violão.

 Afora os cangaceiros, se impõe a figura de Madalena, a filha esquisita do coronel, que diziam virava mula-sem-cabeça, nas noites de lua cheia. Zeca Mendonça, o dono da venda em Itumirim, em cuja porta permanece inscrita como patrimônio histórico do lugar, a frase “Capitão Virgulino mira bem”, feita pelo próprio Lampião, para lembrar que era bom atirador.

Entrevista conseguida estava na hora de voltar para o outro mundo. Esporeando o cavalo, ele gritou para Anacleto, “é agora”. E os dois saltaram para a janela tremeluzente, ali desaparecendo por entre uma enorme instalação, feita de mantas de couro de boi enroladas em varas retas e compridas enfiadas no chão e apontadas para o céu em diversas direções. Era a arte de Juraci Dórea, e foi por dentro dela que os dois desapareceram.

Marcondes Araújo é jornalista, com vários livros publicados, entre contos e microcontos. Além desse romance, ele nos acena com outra publicação do gênero, ainda inédita, Memórias de um possível vencedor e de mais dois livros de contos também ainda inéditos, Histórias cruéis da infância e Contos Fantásticos.

Socorro Pitombo é jornalista

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

EMOÇÃO MARCA ENTREGA DO MÉRITO EDUCACIONAL A PROFESSORES










O professor de 100 anos que ainda lembra os cálculos matemáticos; a mestra que, aos 96 anos, consegue dar uma verdadeira aula de ética e cidadania; a professora que andava mais de seis quilômetros a pé para chegar à escola onde ensinava; a orientadora de catequese que se orgulha de ter entre os ex-alunos um bispo e um vereador. Histórias de vida marcantes de 20 educadores que atuaram em Feira de Santana foram mostradas na noite de entrega do Mérito Educacional FTC.

Quem foi ao Auditório Professora Terezinha Mamona, no Campus da UniFTC Feira de Santana, quinta-feira (17), compartilhou com os homenageados momentos de grande emoção. O evento foi uma comemoração dupla: O Dia do professor e o 20º aniversário de fundação da Instituição. Esta foi a segunda edição do Mérito Educacional na cidade, sendo que na primeira foram contemplados 10 professores que participaram da história inicial da unidade de ensino.

“Educar é crescer. E crescer é viver. Educação é, assim, vida no sentido mais autêntico da palavra”. Com esta citação de Anísio Teixeira, o professor Cristiano Lôbo, reitor do Centro Universitário UniFTC, iniciou a saudação aos homenageados e convidados que lotaram o auditório para a cerimônia. “A Rede FTC reconhece, publicamente, a inquestionável contribuição destes homens e mulheres que fizeram da Educação seu ideal de vida”, afirmou, destacando a importância de preservar a memória da cidade.

Idealizador do projeto, que já acontece na FTC Itabuna desde 2011, Cristiano Lôbo ressaltou que a missão da Instituição, que é referência no ensino superior de qualidade, é “promover a formação de cidadãos colaborativos, inovadores e empreendedores”. Sobre a escolha dos homenageados, ele enfatizou o trabalho da comissão permanente criada para organizar o evento, e reafirmou o mérito de cada um dos homenageados.

“A maior recompensa para o professor é visualizar um pouco dele mesmo em cada aluno”. A afirmação é da professora Elza Santos Silva, que falou em nome de todos os contemplados com o Mérito Educacional. Com um discurso permeado por declarações de gratidão, a mestra deu uma verdadeira aula sobre o exercício profissional. “Educação é uma obra de amor, sobretudo”, disse, contando que enveredou no Magistério com o intuito de aprender e acabou descobrindo que “quanto mais ensinamos, aprendemos”. 

A oradora da noite disse ainda que, às vezes, “o silêncio fala por nós quando a palavra não se expressa”, para definir a emoção diante da homenagem feita pela UniFTC e pontuou: “O professor é um servidor”. Para ela, nada é capaz de comprometer os entrelaçamentos emocionais construídos entre professor e aluno. Exatamente por isso, Todos os contemplados indicaram um ex-aluno que teve passagem marcante em sua trajetória na Educação para fazer a entrega do prêmio.

OS HOMENAGEADOS

Foram homenageados nesta edição do Mérito Educacional FTC os seguintes professores: Alice Pereira Fiúsa de Castro, que recebeu a placa das mãos do ex-aluno Álvaro Luís Xavier Leite, Ana Angélica Vergne de Morais (Carlos Magno Vítor da Silva), Antônio Araújo das Virgens (Vicente Gualberto Reis Duarte), Armando Ramos de Santana (Celi Mendes Rios), Áurea dos Santos Moraes (Maria Josenilda Pedreira Ribeiro), Aurora Magalhães de Matos (Roderick Vitor Fernandes de Oliveira), Edésia Machado Sampaio (Dejanete Gonçalves Brandão), Elza Santos Silva (Célia Christina Silva Carvalho), Fabíola Portugal Farias (José Raimundo Pereira de Azevêdo).

Também foram contemplados Iany Brasileiro (Noêmia Requião), Joselito Falcão de Amorim (Lélia Vitor Fernandes de Oliveira), Leny Madalena de Souza Silva (Coriolano Ferreira dos Santos), Margarida Maria Ferreira de Almeida (Marcly Amorim Pizzani), Maria Christina de Oliveira Menezes (Marilene Carneiro Barreto), Maria Messias Oliveira Silva (Sueli Oliveira Carmo Bastos), Maria Santana Marques (Lenise Mirian Andrade Santana), Nilza Silva Ribeiro (Antônio César Chaves Assis), Olga Noêmia de Freitas Guimarães (Ana Maria Santos Silva), Valdenice de Oliveira Lima (Roberto Luís da Silva Tourinho) e Vanda Oliveira Passos (Pedro Levi Passos Miranda).

A mesa da solenidade foi composta pelo professor Cristiano Lôbo; professora Marcly Amorim Pizzani, diretora da UniFTC de Feira de Santana; Denilton Brito, diretor da Agência Reguladora do Município, representando o prefeito Colbert Martins; professor José Raimundo Pereira de Azevêdo, representando a Academia de Educação de Feira de Santana; professora Lélia Vítor Fernandes, presidente da Academia de Letras e Artes; Djalma Giomes, presidente da Academia de Ciências e Artes e da Academia Regional de Letras Jurídicas; Liacélia Pires Leal, presidente do Instituto Histórico e Geográfico; e ex-prefeito José Ronaldo de Carvalho.

Madalena de Jesus/Assessoria de Comunicação UniFTC

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

CEO BRASILEIRA É CANONIZADA




Irmã Dulce, a primeira santa brasileira.

No próximo domingo, na praça do Vaticano, vou assistir à canonização de Irmã Dulce. Irmã Dulce não é apenas a primeira santa brasileira, ela é a primeira CEO brasileira a ser canonizada.

A Organização Social Irmã Dulce é o seu primeiro milagre. Franzina, saúde frágil, ela não tinha a rigor condições físicas de fazer nada nem de segurar um copo de água.

Mas seu hospital de mil leitos construído sabe Deus como é obra do seu empreendedorismo. O hospital começou num galinheiro nos fundos do convento e hoje tem 40 mil m².

Conheço bem a história da santa porque Irmã Dulce, que tinha sérios problemas pulmonares, era paciente do meu pai, médico pneumologista. Meu irmão André Guanaes, quando residente, também foi seu médico.

Ele conta algo que é típico da situação de tantos CEOs no Brasil: os problemas respiratórios de Irmã Dulce pioravam todo fim de mês. E ele sempre a escutava dizer: dia tal eu tenho 3 milhões para pagar, isso é problema de Santo Antônio, isso não é meu problema, isso é um problema dele.
O problema era de Santo Antônio, mas era ela quem ia pedir a Antônio Carlos Magalhães, a Ângelo Calmon e a outros poderosos da Bahia e do Brasil.

Ela era santa com os pobres, mas não era santa com os ricos. Com esses, ela era pragmática. Como uma boa CEO, conversava com todo o mundo. Com a direita, com a esquerda, com o que está entre as duas e além. Sua relação com o grande líder espírita da Bahia, o igualmente santo Divaldo Franco, é maravilhosa. Foi, assim, maior que a igreja que agora a canoniza.

Escrevo este artigo emocionado porque conheço a história de perto —de seu início no bairro pobre de Alagados até os atuais 2 milhões de atendimentos ambulatoriais, 18 mil internamentos e 12 mil cirurgias por ano. Como uma pessoa que dormia sentada por causa dos problemas pulmonares pode tocar uma obra desse tamanho? Milagre.

Tudo na Bahia que eu nasci e cresci era destinado a ajudar as obras assistenciais de Irmã Dulce: bingo, quermesse, show. Era tudo para ela pagar o seu fim de mês.

Nesse mesmo espírito, estou participando de uma iniciativa artística na Bahia para celebrar a nossa santa. 77 artistas da música baiana foram a estúdio gravar a música de Irmã Dulce. Ivete Sangalo, Luís Caldas (que criou a música axé), Margareth Menezes (que vai cantar no Vaticano) e dezenas de músicos talentosos gravaram com dedicação e disponibilidade que nunca vi.

Decidi me dedicar cada vez mais a causas sociais. Sou orgulhoso e odeio pedir, mas isso não combina com obra social. Dou do meu e dou de mim e fico imaginando o que a frágil Irmã Dulce passou para ampliar, modernizar e manter a cada fim de mês seu hospital de mil leitos.

Uma obra dessa não se faz só com bondade, mas com determinação, com disciplina, com empreendedorismo.

Ela era focada, cercou-se dos melhores, aplicava orçamento base zero (era uma Beto Sicupira de hábito) e tinha um modo peculiar de levantar fundos: ficava na sala de espera do futuro doador e só saía de lá quando o próprio se dignava a recebê-la. O povo da Bahia é testemunha.

Por isso, 15 mil baianos vão a Roma no dia 13 assistir à canonização. E, no dia 20, Salvador vai parar para ver a missa de sua canonização no Estádio da Fonte Nova.

Irmã Dulce não é uma santa católica. Ela é uma santa baiana. São devotos dela a mãe de santo, o ateu, o pastor e até o padre. Desafio a Harvard Business School a escrever o estudo de caso de Irmã Dulce, a primeira CEO brasileira a ser canonizada pelo Vaticano.

Nizan Guanaes

domingo, 22 de setembro de 2019

FEIRA DE SANTANA:186 ANOS DE HISTÓRIAS PARA RECORDAR




Feira de Santana me encanta. Às vezes me emudece e ainda me traz uma sensação de irrealidade. Nascida e criada nesta cidade, acompanho com atenção o seu desenvolvimento. Mesmo assim, às vezes eu a desconheço. E me pergunto: que cidade é essa? O burburinho, a movimentação do comércio, o trânsito congestionado, as sinaleiras, os viadutos. A cidade fervilha no seu cotidiano.

A primeira sinaleira colocada na cidade foi um acontecimento, motivo de muito entusiasmo para os moradores. Uma novidade! Significava o primeiro passo para o desenvolvimento. Lembro, de ouvir contar, um fato interessante, envolvendo um fazendeiro muito conhecido. Reza o “folclore” que o senhor em questão, ao se deparar com o sinal vermelho explodiu:

– Quero ver quem vai me impedir de atravessar a rua. Esse sinalzinho?

Bradou enraivecido e invadiu o sinal, felizmente sem causar danos!  Essa sinaleira, a despeito da indignação do fazendeiro, se constituiu, sem dúvida, num dos marcos importantes do crescimento da Princesa do Sertão, assim denominada pelo jurista Ruy Barbosa.

A Feira de Santana de hoje, nem sequer lembra a pacata cidade dos anos de outrora. Já pertenceu a Cachoeira que, por muito tempo foi considerada a capital do Recôncavo baiano e da qual foi desmembrada. Tornou-se a segunda maior e mais importante cidade do Estado da Bahia, embora o progresso desordenado tenha contribuído para desfigurar a paisagem, com a transformação da vida urbana.

Uma promessa que se fez cumprir, o comércio trouxe para essas bandas, as gentes do Ceará, de Pernambuco, das Alagoas, e de tantos outros estados, à procura de melhores dias. Aqui se instalaram. No começo era uma bodega, depois um armazém, o Mercado Municipal onde as pessoas iam às compras semanalmente. A farinha colocada numa mala de couro e a recomendação do meu pai:

– Só me traga a farinha da mala de Joaquim. É a melhor do mercado!

Pouco a pouco, no entorno do Mercado foi surgindo uma feirinha com os produtos colhidos nas hortas das chácaras, muitas situadas na atual avenida Presidente Dutra, quando ali ainda havia residências. No início eram apenas pequenos feirantes com a mercadoria estendida sobre forros de sacos de açúcar do velho calhamaço, que impedia o contato direto com o chão. Tudo muito improvisado. Com o passar do tempo esse comércio cresceu, dando origem à famosa feira livre, que acontecia sempre às segundas-feiras.

Os carregadores de feira com o balaio na cabeça eram contratados para acompanhar principalmente as senhoras em suas compras. Não existia outro meio de transporte para as mercadorias. Mais tarde foram surgindo os carrinhos de mão. Já os carros de praça ficavam estacionados na praça da Bandeira. E só eram usados por pessoas abastadas.

Com beijinhos?

 Durante as compras, ao encontrar com as amigas trocávamos beijinhos e ficávamos conversando sobre os últimos acontecimentos, os namoricos, e outras tagarelices, esquecendo completamente o carregador com o pesado balaio na cabeça. Desse modo, com beijinhos e conversa, o carregador exigia preço diferenciado.

As varandas eram raras nas residências da rua Direita. Creio que a nossa casa era a única da rua em estilo moderno, um bangalô, como se chamava na época. Era comum ficarmos na varanda depois do jantar. Nosso local preferido para as brincadeiras. Eu, ainda uma pirralha, junto com minhas irmãs e as amigas cantávamos, dançávamos, o que chamava a atenção pela nossa alegria.

Foi durante uma Micareta que, pela primeira vez, conhecemos o Trio Elétrico de Dodô e Osmar. Ficamos literalmente fascinadas, arrepiadas com aquela música estridente e irresistível! Diante da nossa animação, o trio estacionou bem em frente à nossa casa, onde ficou por um bom tempo executando as marchinhas carnavalescas de então. Não é preciso dizer que foi a glória! 

A Micareta de Feira, a primeira do Brasil, começou nas imediações da Loja Pires, na praça da Bandeira, mas aos poucos foi tomando vulto e se estendendo pela rua Direita. Moças e rapazes munidos dos saquinhos de confetes e serpentinas, lançavam e recebiam jatos de lança-perfume, o que representava o máximo da paquera.

Enfim, era na rua Direita onde tudo acontecia. Não só a Micareta como a Festa de Santana.  Dois meses antes da festa realizava-se o Bando Anunciador, com mascarados, blocos e outras atrações, dando início à festa profana. O zabumba do Distrito de Bonfim de Feira ou de Riachão do Jacuípe animava o cortejo.

A lavagem da igreja precedia o novenário, que atraia grande número de fiéis. Havia também a Levagem da Lenha, um desfile que remontava a uma época em que a cidade não possuía luz elétrica e era iluminada por grandes fogueiras. Na praça, depois da novena, a movimentação em torno das quermesses, o parque de diversões e as tocatas, pelas Filarmônicas 25 de Março e Vitória, como também a Euterpe Feirense que, no Coreto, executavam dobrados.

As mocinhas com seus vestidos de festa rodeavam o coreto, não só para exibir a elegância dos trajes confeccionados especialmente para o evento, como também para serem cortejadas. As famílias a tudo assistiam atentamente, instaladas em cadeiras, que traziam de casa, a fim de apreciar os festejos de modo mais confortável. Cada uma delimitando seu espaço.

O auge da Festa de Santana era, como ainda hoje, a procissão com as charolas ricamente ornamentadas, destacando-se a de Senhora Santana, a nossa santa padroeira. O cortejo no final da tarde, acompanhado por milhares de fiéis muito contritos, seguia até a igreja da Matriz, onde era celebrada a missa campal. A bênção do SS Sacramento encerrava os festejos religiosos.

Bons tempos aqueles que agora recordamos. De repente, a cidade se transforma. E aparecem a S.A João Marinho Falcão, a Loja Pires, em cuja marquise aconteciam os shows de Luiz Gonzaga, Ângela Maria e outros artistas consagrados. Também o Centro Comercial Mandacaru – o chique daquela época – foi transformando a rua Direita na rua Conselheiro Franco, totalmente invadida pelo comércio, expulsando gradativamente as casas residenciais, para dar espaço ao avanço progressivo do desenvolvimento.

Parabéns Feira de Santana pelos seus 186 anos de emancipação política. Continue crescendo para orgulho dos seus filhos e daqueles que para aqui vieram em busca de melhores oportunidades.

Socorro Pitombo, jornalista

P.S. Texto inspirado nas lembranças da minha irmã, Therezinha Pitombo