sexta-feira, 30 de outubro de 2015

CRÔNICA DOS BURROS

Esta postagem é dedicada a meu amigo Antônio Garcia, jornalista e amante da literatura, como eu. Depois de um almoço regado a romances, contos e crônicas de escritores portugueses, franceses e brasileiros, nada melhor do que algumas bem traçadas linhas machadianas.



Não tendo assistido à inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. Daí o meu silêncio da outra semana. Anteontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar.

Para não mentir, direi que o que me impressionou, antes da eletricidade, foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no meu bond, com um grande ar de superioridade. Posto não fosse feio, não eram as prendas físicas que lhe davam aquele aspecto. Sentia-se nele a convicção de que inventara, não só o bond elétrico, mas a própria eletricidade. Não é meu ofício censurar essas meias glórias, ou glórias de empréstimo, como lhe queiram chamar espíritos vadios. As glórias de empréstimo, se não valem tanto como as de plena propriedade, merecem sempre algumas mostras de simpatia. Para que arrancar um homem a essa agradável sensação? Que tenho para lhe dar em troca?

Em seguida, admirei a marcha serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa invisível e amiga. Mas, como íamos em sentido contrário, não tardou que nos perdêssemos de vista, dobrando ele para o Largo da Lapa e Rua do Passeio, e entrando eu na Rua do Catete. Nem por isso o perdi de memória. A gente do meu bond ia saindo aqui e ali, outra gente entrava adiante e eu pensava no bond elétrico. Assim fomos seguindo; até que, perto do fim da linha e já noite, éramos só três pessoas, o condutor, o cocheiro e eu. Os dois cochilavam, eu pensava.
 
De repente ouvi vozes estranhas, pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente); eram eles mesmos. Como eu conheço um pouco a língua dos Houyhnhnms, pelo que dela conta o famoso Gulliver, não me foi difícil apanhar o diálogo. Bem sei que cavalo não é burro; mas reconheci que a língua era a mesma. O burro fala menos, decerto; é talvez o transita daquela grande divisão animal, mas fala. Fiquei inclinado e escutei: — Tens e não tens razão, respondia o da direita ao da esquerda.

O da esquerda: — Desde que a tração elétrica se estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro.
 
— Claro parece; mas entre parecer e ser, a diferença é grande. Tu não conheces a história da nossa espécie, colega; ignoras a vida dos burros desde o começo do mundo. Tu nem refletes que, tendo o salvador dos homens nascido entre nós, honrando a nossa humildade com a sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria cristã. Quem nos poupa no dia, vinga-se no dia seguinte.
 
— Que tem isso com a liberdade?
 
— Vejo, redarguiu melancolicamente o burro da direita, vejo que há muito de homem nessa cabeça.
 
— Como assim? bradou o burro da esquerda estacando o passo.
O cocheiro, entre dois cochilas, juntou as rédeas e golpeou a parelha.
 
— Sentiste o golpe? perguntou o animal da direita. Fica sabendo que, quando os bonds entraram nesta cidade, vieram com a regra de se não empregar chicote. Espanto universal dos cocheiros: onde é que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros desse tempo entoaram cânticos de alegria e abençoaram a ideia dos trilhos, sobre os quais os carros deslizariam naturalmente. Não conheciam o homem.
 
— Sim, o homem imaginou um chicote, juntando as duas pontas das rédeas. Sei também que, em certos casos, usa um galho de árvore ou uma vara de marmeleiro.
 
— Justamente. Aqui acho razão ao homem. Burro magro não tem força; mas, levando pancada, puxa. Sabes o que a diretoria mandou dizer ao antigo gerente Shannon? Mandou isto: “Engorde os burros, dê-lhes de comer, muito capim, muito feno, traga-os fartos, para que eles se afeiçoem ao serviço; oportunamente mudaremos de política, all right!”
 
— Disso não me queixo eu. Sou de poucos comeres; e quando menos trabalho, quando estou repleto. Mas que tem capim com a nossa liberdade, depois do bond elétrico?
 
— O bond elétrico apenas nos fará mudar de senhor.
 
— De que modo?
 
— Nós somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, não somos já precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente às carroças.
 
— Pela burra de Balaão! exclamou o burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? nenhum prêmio? nenhum sinal de gratificação? Oh! mas onde está a justiça deste mundo?
 
— Passaremos às carroças — continuou o outro pacificamente —onde a nossa vida será um pouco melhor; não que nos falte pancada, mas o dono de um só burro sabe mais o que ele lhe custou. Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer cousa que nos torne incapaz restituir-nos-á a liberdade…
 
— Enfim!
 
— Ficaremos soltos, na rua, por pouco tempo, arrancando alguma erva que aí deixem crescer para recreio da vista. Mas que valem duas dentadas de erva, que nem sempre é viçosa? Enfraqueceremos; a idade ou a lazeira ir-nos-á matando, até que, para usar esta metáfora humana — esticaremos a canela. Então teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de três, a vizinhança começa a notar que o burro cheira mal; conversação e queixumes. No quarto dia, um vizinho, mais atrevido, corre aos jornais, conta o fato e pede uma reclamação. No quinto dia sai a reclamação impressa. No sexto dia, aparece um agente, verifica a exatidão da notícia; no sétimo, chega uma carroça, puxada por outro burro, e leva o cadáver.
Seguiu-se uma pausa.
 
— Tu és lúgubre, disse o burro da esquerda. Não conheces a língua da esperança.
 
— Pode ser, meu colega; mas a esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro distingue-se pela fortaleza sem par. A nossa raça é essencialmente filosófica. Ao homem, que anda sobre dois pés, e provavelmente à águia, que voa alto, cabe a ciência da astronomia. Nós nunca seremos astrônomos. Mas a filosofia é nossa. Todas as tentativas humanas a este respeito são perfeitas quimeras. 

Cada século…
 
O freio cortou a frase ao burro, porque o cocheiro encurtou as rédeas, e travou o carro. Tínhamos chegado ao ponto terminal. Desci e fui mirar os dois interlocutores. Não podia crer que fossem eles mesmos. Entretanto, o cocheiro e o condutor cuidaram de desatrelar a parelha para levá-la ao outro lado do carro; aproveitei a ocasião e murmurei baixinho, entre os dois burros:
 
— Houyhnhnnms!
 
Foi um choque elétrico. Ambos deram um estremeção, levantaram as patas e perguntaram-me cheios de entusiasmo:
 
— Que homem és tu, que sabes a nossa língua?

Mas o cocheiro, dando-lhes de rijo na lambada, bradou para mim, que lhe não espantasse os animais. Parece que a lambada devera ser em mim, se era eu que espantava os animais; mas como dizia o burro da esquerda, ainda agora:

— Onde está a justiça deste mundo?

Machado de Assis
[A Semana, 16 de outubro de 1892]

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

TIA NITA, A ETERNA RAINHA DA FEIJOADA


Durante 31 anos ela varou madrugadas a fio, à espera dos fregueses que chegavam das festas de todas as partes da cidade, para saborear a mais famosa feijoada de todos os tempos, feita ali mesmo, entre frutas e verduras. Anita Alexandrino de Jesus, hoje com 75 anos de idade, continua lá, no Centro de Abastecimento. E dos bons tempos, restam somente as lembranças das noitadas festivas.

Não tem mais a tradicional feijoada, mas o restaurante/lanchonete continua funcionando, mas apenas durante o dia. “À noite aqui ficou muito perigoso, ninguém tem coragem de ficar”, diz Tia Nita, que já não tem mais o vigor de décadas atrás. “Mas se o freguês quiser, eu faço” afirma, retomando o ar de autoridade naquilo que mais sabe fazer: trabalhar com comida.

A barraca já frequentada por artistas como Paulinho Boca de Cantor e integrantes da Banda Chiclete com Banana, e políticos como José Falcão – Foi ele quem me colocou aqui – lembra, com entusiasmo, Colbert Martins (o pai) e mais recentemente Zé Neto, não tem mais os mesmos atrativos. Aliás, a falta deles é que faziam da mesma um lugar especial para os frequentadores. Mas Tia Nita não fala isso com tristeza. 

Ao lado dos filhos Jurandir, 60 anos, e a filha Isonete, 34, que a acompanham desde o início, ela só demonstra descontentamento com a falta de cuidado com o Centro. “Estou abandonada”, resume. Atualmente, o funcionamento de sua barraca é de segunda-feira a sábado, das 5h às 16h. “Mas às vezes abrimos mais tarde”, admite Tia Nita, que em alguns momentos fraqueja, sim, mas nem pensa em se aposentar.

Natural da cidade de Ruy Barbosa a dona da feijoada mais saboreada por muitos anos chegou a Feira de Santana aos 10 anos de idade e ainda hoje mora no bairro jardim Acácia. Mesmo ainda tendo muita disposição para o trabalho – ela mostra as panelas cheias, não de feijão, mas de outros tipos de comida – tem plena consciência de que a crise veio para ficar. E nem as folhas de arruda penduradas na parede darão jeito.

Madalena de Jesus

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O SOBRENOME DELE É SHOW



Silvério Silva: No ar há 50 anos, com a mesma sintonia

É isso mesmo. O nome do programa que o consagrou no rádio feirense era exatamente assim: Silvério Silva Show. E só poderia ser mesmo, para manter um homem de 74 anos de idade com todo o viço da mocidade e ainda fazendo sucesso pelas ondas sonoras do rádio, exatamente como há 50 anos. Tudo isso começou em 1968. Como não tirar o chapéu para a maior referência dos radialistas de Feira de Santana e da imprensa de modo geral?

Se promovendo as extrovertidas corridas de jegues, que atraíam multidões pelo inusitado da promoção e também pelos nomes criativos dos animais, lá pelos ídolos de 1973, ou cantando a hilária “Pancada certa no pé do umbigo” ele não conseguiu ir muito longe, pelo menos foram situações que serviram para estimular ainda mais a carreira de radialista. Não ficou rico durante todo esse tempo e agora... Bom não dá mais tempo.

Há muito tempo Silvério deixou de ser único, pois o herdeiro é Silvério Segundo, também radialista. Talvez por influência paterna. Será? O pai sorri diante da brincadeira, aliás, um sorriso que é sua marca registrada, sem comprometer a seriedade. Tudo na medida certa e com verdade. O apresentador do quadro “Pra quem você tira o chapéu” nunca escondeu que se inspirou na ideia de José Messias, que se tornou sucesso com Ayrton e Lolita Rodrigues.

E se era sucesso na televisão, virou sucesso no rádio. Apresentado aos domingos, pela Rádio Subaé AM, ainda hoje é temido por muitos, especialmente políticos, as maiores vítimas dos convidados. Já passaram pelo programa artistas de todos os segmentos musicais, a exemplo de Diana e Daniel; políticos como Roberto Freire, senador pernambucano; Antônio Imbassahy; deputados, prefeitos. Fora do quadro já entrevistou grandes personalidades e artistas, como Roberto Carlos, Jerry Adriane, Agnaldo Tímóteo.

Se o quadro é político? “Claro, totalmente”, admite o apresentador, que hoje só faz o programa aos domingos, depois de uma pesquisa que indicou a audiência desse dia maior do que a da semana inteira. A maior polêmica que ele lembra foi a que envolveu o professor Josué Mello, então candidato a vice de José Ronaldo. Ele tirou o chapéu para Colbert Martins e Valdir Pires e perdeu a vaga. O fato abalou a cidade e no dia seguinte a fita já estava em Salvador. Foi em 2000 e por conta disso Josué foi substituído por Antônio Carlos Borges Júnior.

Nada disso envaidece Silvério Silva. Nem os elogios sobre a jovialidade da pele e a sugestão, em tom de brincadeira, sobre uma possível intervenção. “Eu sou mulher pra colocar botox?”, diz, garantindo que não tem vaidade. O que é negado pelo modo elegante de se vestir, de falar e tratar as pessoas. Um homem muito distinto, isso é o que ele é. No rádio e na vida. Um show de profissional.

Madalena de Jesus

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

E ENTÃO, VAMOS AO TEATRO?




Foi lançado sexta-feira (25), no Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), o livro "O teatro em Feira de Santana", do jornalista Geraldo Lima. E eu, com muito orgulho, assino a apresentação da obra, que resgata momentos marcantes da história cultural da cidade. O meu texto, como o próprio texto sugere, é apenas um preâmbulo.



O texto de abertura desta deliciosa obra, por si só, já vale a publicação de “O Teatro em Feira de Santana”, que acaba sendo também um pouco da vida da cidade, vista pelos olhos talentosos, criativos e, sobretudo, ousados daqueles que ao longo do tempo mantiveram acesa a chama dessa emoção compartilhada a cada encenação, entre quem está no palco e quem está na plateia. Percorremos caminhos trilhados outrora e ainda hoje, por meio dos recortes de momentos dessa manifestação cultural de forma intensa e citações de nomes que desafiaram a suposta aridez cultural do povo feirense e, literalmente, fizeram história.

O que Geraldo Lima propõe, com uma escrita firme e posições idem, é ver claramente o entusiasmo que emanava daqueles que se aventuravam no mundo mágico – e muitas vezes perigoso – do teatro. Perigoso, sim, porque a arte era uma “arma” poderosa contra as injustiças sociais, os desmandos políticos e até as mazelas da ditadura. Mas sem perder a sutileza das mensagens e a beleza da estética. Porque o teatro sempre foi, é e continuará sendo, para todo o sempre e em qualquer lugar, a mais pura manifestação artística e cultural.

Ao viajar pelas bem traçadas linhas do escritor, jornalista e homem de teatro, sem qualquer sentimento prévio de avaliação crítico-literária, até pela falta de competência para tanto, não nos é dado o direito de duvidar da importância desse segmento para formação da identidade cultural do feirense e de tantos quantos habitam a terra de Senhora Santana, vindos de qualquer lugar. O teatro, na visão do autor e certamente de todos que construíram essa vivência coletiva, é vida. Simples assim. Provavavelmente muito mais simples do que subir ao palco, com aquele frio na barriga experimentado a cada espetáculo.

Um aprendizado fundamental: o teatro não tem idade, bandeira partidária, preferência de cor ou credo, porque a sua linguagem é universal, a emoção. E é exatamente isso que o torna único, eterno – por que não? – e indispensável à formação para o pleno exercício da cidadania. Afinal, o teatro já existia mesmo antes do Brasil ser descoberto e chegou por aqui lá pelos idos de 1530. Isso mesmo, está lá, nos arquivos cuidadosamente recortados que compõem este livro. Para se ter uma ideia, já em 1800 era experimentado um significativo progresso das artes cênicas brasileiras.

Dados mostrados por meio de reportagens jornalísticas, entrevistas, artigos e poemas, escolhidos com inegável esmero, remetem não somente às manifestações culturais, como também a situações políticas e sociais vividas pela população feirense, como a visita de Ruy Barbosa à cidade, as inundações e a interdição do Teatro Margarida Ribeiro, os grandes espetáculos vistos nos palcos locais, a luta dos artistas por um teatro “de verdade” para dar visibilidade a seus projetos...

Ao descortinar tão importantes informações, sugestivamente divididas em atos (e não em capítulos), a maioria até restrita aos profisisonais diretamente ligados ao teatro, Geraldo Lima foi bem além da sua capacidade como ator/diretor. Ele foi essencialmente jornalista e amante de uma arte que atravessa os tempos com a mesma elegância, o mesmo dom de atrair pessoas de todas as matizes para um só lugar.  E, como ele bem diz, teatro deveria ser matéria obrigatória no currículo escolar. Mas enquanto essa ideia não se concretiza, vai aqui um convite para uma leitura mais que especial.

E então, vamos ao teatro?


Madalena de Jesus
Jornalista e Professora

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

PORQUE É PRIMAVERA!



Quando o inverno chegar
Eu quero estar junto a ti
Pode o outono voltar
Eu quero estar junto a ti

Porque (é primavera)
Te amo (é primavera)
Te amo, meu amor

Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)

Meu amor
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)

Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)

Tim Maia

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

ANTIPETISMO É UMA DROGA E, COMO TAL, O "BARATO" QUE DÁ É FUGAZ





Excetuando-se aproveitadores e oportunistas como os artistas decadentes aos quais o antipetismo em moda proporcionou chance de reaparecer, essa maioria tonitruante que se formou contra o PT e seus próceres decorre da ingestão de uma droga – ideológica, mas, ainda assim, uma droga como qualquer outra.

Sob os efeitos devastadores do antipetismo, o sujeito mostra a bunda, a moçoila mostra os peitos, alguns têm acessos de raiva, outros de euforia e outros tantos caem em prostração. E muitos cometem atos dos quais não há volta…

A ideologia, levada ao paroxismo, leva o indivíduo a desatinos como o de sair à rua quebrando tudo ou simplesmente dizendo coisas que jamais diria em estado normal, bloqueando seu estado de consciência e sua racionalidade a um ponto em que fica impossível argumentar consigo logicamente.

E, como toda droga, o antipetismo é distribuído por traficantes ideológicos que fizeram fortuna aliciando as vítimas potencialmente mais indefesas, os jovens.

A droga ideológica também se assemelha a drogas químicas como cocaína, crack ou álcool no sentido de que, para produzir seus efeitos devastadores, requer doses cada vez maiores, daí excessos como os do advogado intoxicado que, enquanto sua batata estava assando na Justiça, mergulhou em uma escalada de ameaças criminosas que deve lhe render uma ressaca daquelas…

Como as drogas químicas, porém, a droga ideológica afeta as pessoas a um ponto que, ao ser atingido, a desintoxicação acaba se impondo.

A desintoxicação, portanto, virá. Claro que quando as vítimas do porre ideológico se recobrarem, como todo aquele que abusa das drogas essas pessoas poderão ter destruído as próprias vidas. O bêbado sai dirigindo por aí e mata ou se mata – ou ambos. Pode estuprar, roubar, cometer qualquer desatino, mas, em algum momento, recobrará a consciência e se dará conta do que fez.

A ressaca desse porre ideológico virá quando os usuários do antipetismo se derem conta de que tomaram uma overdose que lhes causou a alucinação de que problemas econômicos que o mundo inteiro atravessa serão resolvidos com a defenestração do grupo político que ocupa o poder.

Ao longo dos últimos 12 anos – período que viu uma geração de embriagados com antipetismo se tornar adulta –, a sociedade se acostumou a cada ano ganhar salários maiores e encontrar mais oferta de empregos. Intoxicadas, as pessoas acham que para recobrar o que sentem que lhes foi tirado bastará romper a normalidade democrática derrubando o governo.

A ressaca vai ser brava. Muitos descobrirão que, durante os efeitos do antipetismo, jogaram fora seus empregos, tocaram fogo em suas casas, enfim, cometeram os atos que cometem os que se intoxicam com substâncias perigosas – no caso, uma ideia.

O acesso de raiva provocado pela droga, então, mudará de foco.
Em franco processo de desintoxicação social, haverá uma revolta dos usuários de antipetismo contra os traficantes.

Mas como o antipetismo é uma droga legal como o álcool e, assim, tem propaganda na televisão, no rádio, nos jornais, nas revistas semanais, além de belas embalagens e uma imensa rede de distribuição – além de custar caro –, não será possível proibi-lo.

Porém, o antipetismo será visto como o álcool e o cigarro. Seus usuários irrecuperáveis se tornarão párias sociais. Será proibido em ambientes sadios, mas restritos. Continuará sendo usado nas ruas, em privado, mas a publicidade acabará se inviabilizando.

O tratamento do antipetismo crônico, porém, não será apologia ao PT ou a qualquer grupo político ou ideológico; consistirá em mostrar às pessoas que não se pode responsabilizar grupos políticos ou ideológicos por tudo de bom ou tudo de mau.

O preço do uso indiscriminado dessa droga será alto, mas, como todo desatino que sociedades cometem, deixará lições que, infelizmente, como em outros momentos de embriaguez coletiva poderão ser esquecidas pelas gerações futuras se os que permaneceram sóbrios não tomarem cuidado ao tratar os viciados.


Eduardo Guimarães

domingo, 6 de setembro de 2015

PORQUE SOMOS UMA GRANDE FAMÍLIA






As minhas manifestações sobre os encontros de um grupo de jornalistas, e “achegados”, como diria Barretinho – sem ele não tem a menor graça – que acontecem desde janeiro de 2013, nunca passaram de algumas fotos postadas no facebook e comentários em outras páginas da rede. Porém hoje, inexplicavelmente, senti uma vontade incontida de falar/escrever sobre a experiência, que causa estranheza em uns, inveja em outros e puro prazer em nós.

Nesse período, estreitamos os laços de amizade, nos tornamos confidentes sobre a labuta diária de fazer jornalismo, compartilhamos ideias, nos divertimos e, sobretudo, nos mantivemos juntos. Nem sempre é possível reunir todos aqueles que, no final de 2012, decidiram que a partir de então teríamos o compromisso de nos encontrar uma vez por mês. Mas a maioria sempre está lá. E é muito bom! De verdade.

Às vezes na casa de um de nós – dezembro é sempre na minha, claro, por causa do caruru de Santa Bárbara, dia 4 – outras em um restaurante ou barzinho da cidade. Meio dia ou à noite. Sábado ou domingo e às vezes sexta-feira, por que não? Comemorar aniversário passou a fazer parte de nossa agenda e, com ou sem bolo, a festa é certa. Não é mesmo Dani? Enfim, há sempre uma boa razão para celebrar e não desperdiçamos nenhuma oportunidade.

E assim fomos construindo uma rede de relacionamento saudável e duradoura. As redes sociais são nossas aliadas para marcar datas, definir local, horário e demais providências necessárias para que tudo dê certo – no final sempre dá. Beth se orgulha de nunca ter faltado; Ivana nem se dá ao trabalho de confirmar a presença, mas dificilmente não vai; Kenna geralmente é a mais esperada; Orisa vai, nem que seja por alguns minutos; e Bernardo, apesar da ausência permanente, faz contato nem que seja para dizer que tem outro compromisso; E Lorena só falta quando não tem jeito mesmo!

Um detalhe curioso é que a família passou a fazer parte de nossa programação. Diego, Barnabé, Tito, Mila e por algum tempo minha filha Bárbara, agora mais envolvida com as tarefas da maternidade. Acho que é porque no fundo é isso que nós somos: Uma grande família onde todos se querem bem, se respeitam e fazem questão da companhia do outro. Um grupo onde ninguém é obrigado a nada, mas há quem resista até às viroses da moda para não perder o clima. Também, se não fosse assim, não teria sentido algum.  

A propósito, nosso próximo encontro será no dia 26.

Madalena de Jesus