quarta-feira, 17 de abril de 2019
PRA SEMPRE LILI BOLERO
O nome social Lili Bolero foi inspirado numa alegre canção infantil. Outros dizem que a música, com este personagem, constava no repertório de Bibi Ferreira. E que a alegria foi a marca de vida do multifacetado Aliomar Simas, ator de grande talento e um dos personagens que marcaram a história da Micareta de Feira de Santana.
Extrovertido, carismático, inteligente, ator excepcional. Lili Bolero era dono de muitos adjetivos. “Ele parecia viver o personagem criado por ele mesmo em tempo integral”, disse a produtora de teatro Luluda Barreto, parceira em várias peças. “Era muito difícil a gente conversar com Aliomar Simas”.
Disse que o amigo era muito extrovertido e talentoso. “Parecia viver fazendo uma performance permanente. Mas era extremamente sério naquilo que fazia, mesmo brincando com todos e com tudo. Por isso ganhou o respeito e formou um grande ciclo de amizade”.
Foi o criador do Baile dos Artistas, destinado ao público gay, evento pré-micaretesco de grande sucesso realizado no Feira Tênis Clube. Lili Bolero também marcou presença no Caju de Ouro, baile realizado pelo Clube de Campo Cajueiro, que tinha a participação especial de atores conhecidos. Ele desfilava belas fantasias durante a festa.
Uma história de coxia: convidada para estrelar o Caju de Ouro, a atriz Consuelo Leandro teria se encantado com Lili Bolero. A admiração pelo ator feirense resultou em homenagem. A atriz interpretou uma personagem na novela “Cambalacho”, em 1986, com o nome de Lili Bolero. Não foi mera coincidência.
E foram muitos musicais e peças de teatro que participou como ator, diretor ou produtor. Uma delas foi “Divinas maravilhosas”, quando dividiu o palco do bar Engenho Velho, que ficava na Santa Mônica, com Edson Baptista e Galdino Neto. Foi sucesso de público numa temporada que durou semanas.
“Era uma pessoa maravilhosa e talentosa”, disse quase soletrando, Edson Baptista, que foi seu amigo durante muitos anos. “Foi um ator de muitos personagens”. Juntos, participaram do primeiro Festival de Teatro Universitário do Nordeste, realizado no Teatro Margarida Ribeiro, que naquela época funcionava no centro de Feira.
Aliomar Simas morreu na década de 80, vitimado por uma isquemia. Estava na praia, com a família, quando sentiu uma forte dor de cabeça. Lili Bolero vive até hoje.
Batista Cruz é jornalista
terça-feira, 9 de abril de 2019
DONA AMÉLIA E SEUS QUATRO FILHOS: UMA HISTÓRIA DE AMOR PELO MAP
Tradição, trabalho e amor no mesmo lugar
Às 8h o cheiro do cuscuz, do aipim manteiga e da carne do sol acebolada é um atrativo em “Nando Sorveteria e Lanches”, no Mercado de Arte Popular (MAP). É ele, Fernando Ribeiro, que vai ao fogão preparar os pratos do café oferecidos no cardápio. A clientela é cativa em todas as manhãs – numa rotina mantida de segunda-feira a sábado – mas há também opções para lanches e almoço. A maioria dos clientes é de vendedores ambulantes do Calçadão da Sales Barbosa, assim como há aqueles que trabalham no comércio ou que estão de passagem. Há 18 anos, Fernando mantém o espaço, mas sua relação com o MAP começou ainda na infância.
“Lembro que saía da escola e vinha direto para cá. Minha mãe nos acomodava no box e aqui mesmo nós fazíamos as lições”, recorda Fernando (foto), hoje aos 37 anos, referindo-se a dona Amélia Ribeiro dos Santos, uma das primeiras permissionárias. Dos cinco filhos da comerciante e artesã de 68 anos, quatro deles mantêm boxes no MAP – outro mora nos Estados Unidos.
“Sempre passei mais tempo aqui do que na minha casa”, diz Fernando orgulhoso ao afirmar que foi do trabalho no MAP que sua mãe criou os filhos, e assim como dona Amélia ele retira o seu sustento familiar. “Esse lugar é o amor da gente”, acrescenta.
Vida construída no MAP
Bem próximo à lanchonete de Fernando, sua irmã Suzane Ribeiro Santos (foto), 48, se dedica ao comércio de vestidos, calças para capoeiristas e jalecos para profissionais de saúde. Está neste ramo há 31 anos e lembra que a história profissional da família começou no Centro de Abastecimento, onde o pai, artesão já falecido, confeccionava bolsas em couro junto com dona Amélia.
“Nós crescemos vendo a dedicação dos nossos pais desde o ‘Artesanato Sete Flechas’, no Centro de Abastecimento. Eles se mudaram para o MAP, a gente sempre acompanhando o dia a dia deles, e daí foi brotando o gosto pelo ofício. Tornamos adultos e cada qual construiu uma vida estruturada dentro do MAP”.
Amélia: a costureira de “mão cheia”
Dona Amélia (foto) ainda está na ativa. Sentada atrás de um balcão de sandálias de couro, conta com orgulho e gratidão sobre uma história construída há 37 anos. Costureira de “mão cheia”, como são reconhecidas essas profissionais que se estacam no ramo, diz sem modéstia sobre as roupas de hippie e moda praia por ela confeccionadas. Recorda que da sua criatividade surgiram tecidos próprios, e “muito requisitados”, resultado da composição de estampas e cores.
“Aquela época mandava esses vestidos para Porto Seguro, Ilhéus e Itabuna, que estavam no auge entre os roteiros turísticos mais cobiçados no verão, e para comerciantes do Mercado Modelo, em Salvador, assim como mantinha a minha boa clientela no MAP”.
Ainda hoje, dona Amélia costura. A quantidade da produção já não é mais a mesma, mas “como a arte está no sangue” conta que tem se dedicado à pintura em telas e a confecção de bolsas em tecido. Suas produções estão expostas à venda no Box 62.
“Físico que gosta de cortar pano”
É assim que Hernane Ribeiro dos Santos (foto), 45, é carinhosamente intitulado por dona Amélia. Com formação em curso técnico em eletrotécnica e graduação em Física, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o filho da artesã e proprietário da Heyla Roupas optou pela arte aos números.
Das suas ideias já surgiram vestidos de noiva a peças mais simples, como trajes para ciganos, kaftans e peças africanas, que ainda hoje são produzidos por ele e vendidos no MAP.
“Assim como meus irmãos, cresci vendo dois exemplos dentro de casa: meus pais. Eles foram nossos maiores incentivadores para arte e são responsáveis por essa história de amor que hoje nós temos pelo Mercado de Arte Popular”, afirma Hernane explicando que conciliava os estudos com a costura, cujas peças eram colocadas à venda no box da mãe.
Texto: Renata Leite
Foto: Abnner Kaique
Às 8h o cheiro do cuscuz, do aipim manteiga e da carne do sol acebolada é um atrativo em “Nando Sorveteria e Lanches”, no Mercado de Arte Popular (MAP). É ele, Fernando Ribeiro, que vai ao fogão preparar os pratos do café oferecidos no cardápio. A clientela é cativa em todas as manhãs – numa rotina mantida de segunda-feira a sábado – mas há também opções para lanches e almoço. A maioria dos clientes é de vendedores ambulantes do Calçadão da Sales Barbosa, assim como há aqueles que trabalham no comércio ou que estão de passagem. Há 18 anos, Fernando mantém o espaço, mas sua relação com o MAP começou ainda na infância.
“Lembro que saía da escola e vinha direto para cá. Minha mãe nos acomodava no box e aqui mesmo nós fazíamos as lições”, recorda Fernando (foto), hoje aos 37 anos, referindo-se a dona Amélia Ribeiro dos Santos, uma das primeiras permissionárias. Dos cinco filhos da comerciante e artesã de 68 anos, quatro deles mantêm boxes no MAP – outro mora nos Estados Unidos.
“Sempre passei mais tempo aqui do que na minha casa”, diz Fernando orgulhoso ao afirmar que foi do trabalho no MAP que sua mãe criou os filhos, e assim como dona Amélia ele retira o seu sustento familiar. “Esse lugar é o amor da gente”, acrescenta.
Vida construída no MAP
Bem próximo à lanchonete de Fernando, sua irmã Suzane Ribeiro Santos (foto), 48, se dedica ao comércio de vestidos, calças para capoeiristas e jalecos para profissionais de saúde. Está neste ramo há 31 anos e lembra que a história profissional da família começou no Centro de Abastecimento, onde o pai, artesão já falecido, confeccionava bolsas em couro junto com dona Amélia.
“Nós crescemos vendo a dedicação dos nossos pais desde o ‘Artesanato Sete Flechas’, no Centro de Abastecimento. Eles se mudaram para o MAP, a gente sempre acompanhando o dia a dia deles, e daí foi brotando o gosto pelo ofício. Tornamos adultos e cada qual construiu uma vida estruturada dentro do MAP”.
Amélia: a costureira de “mão cheia”
Dona Amélia (foto) ainda está na ativa. Sentada atrás de um balcão de sandálias de couro, conta com orgulho e gratidão sobre uma história construída há 37 anos. Costureira de “mão cheia”, como são reconhecidas essas profissionais que se estacam no ramo, diz sem modéstia sobre as roupas de hippie e moda praia por ela confeccionadas. Recorda que da sua criatividade surgiram tecidos próprios, e “muito requisitados”, resultado da composição de estampas e cores.
“Aquela época mandava esses vestidos para Porto Seguro, Ilhéus e Itabuna, que estavam no auge entre os roteiros turísticos mais cobiçados no verão, e para comerciantes do Mercado Modelo, em Salvador, assim como mantinha a minha boa clientela no MAP”.
Ainda hoje, dona Amélia costura. A quantidade da produção já não é mais a mesma, mas “como a arte está no sangue” conta que tem se dedicado à pintura em telas e a confecção de bolsas em tecido. Suas produções estão expostas à venda no Box 62.
“Físico que gosta de cortar pano”
É assim que Hernane Ribeiro dos Santos (foto), 45, é carinhosamente intitulado por dona Amélia. Com formação em curso técnico em eletrotécnica e graduação em Física, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o filho da artesã e proprietário da Heyla Roupas optou pela arte aos números.
Das suas ideias já surgiram vestidos de noiva a peças mais simples, como trajes para ciganos, kaftans e peças africanas, que ainda hoje são produzidos por ele e vendidos no MAP.
“Assim como meus irmãos, cresci vendo dois exemplos dentro de casa: meus pais. Eles foram nossos maiores incentivadores para arte e são responsáveis por essa história de amor que hoje nós temos pelo Mercado de Arte Popular”, afirma Hernane explicando que conciliava os estudos com a costura, cujas peças eram colocadas à venda no box da mãe.
Texto: Renata Leite
Foto: Abnner Kaique
domingo, 31 de março de 2019
MULHERES: ENTRE PODEROSAS E AGREDIDAS
Que as mulheres são poderosas, não há a menor dúvida, tanto que as questões que envolvem o feminino são cada vez mais recorrentes e discutidas nos dias atuais. Só o fato de gerar a vida, dar à luz, já nos torna seres excepcionais desde sempre. E, sobretudo por isso, por essa condição especial, deveríamos ser mais respeitadas.
O que nos causa espanto é que, quanto mais se alardeia o poder da mulher, o chamado “empoderamento”, termo tão em voga atualmente, mais ela se torna vulnerável quando se trata das relações amorosas e familiares. Diariamente, somos informados pela grande mídia, sobre agressões sofridas pelas mulheres, muitas fatais, perpetradas pelos próprios companheiros (maridos, namorados, amantes, ficantes o que sejam).
Sim, porque é no seio familiar, nas relações que deveriam ser afetivas, que elas encontram os seus mais cruéis algozes. O feminicídio, como é denominado o homicídio contra as mulheres, está se tornando cada vez mais corriqueiro, invariavelmente por motivos banais. O ciúme é quase sempre o fator desencadeador.
O grande índice de assassinatos de mulheres não se trata de um problema isolado. Representa, na verdade, sintoma de um padrão de violência de gênero contra elas em todo o país. Do ponto de vista histórico brasileiro, a violência contra a mulher é herdeira de uma cultura com raízes em uma sociedade escravocrata, construída a partir do modelo colonizador que aqui se instalou, segundo Marcondes Filho (2001).
Também contribuem para o aumento da violência contra a mulher valores machistas profundamente arraigados na sociedade brasileira, conforme documento publicado pela Comissão Interamericana de Direitos humanos (CIDH). Ainda segundo a organização, somente no início deste ano, 126 mulheres foram assassinadas no Brasil em razão do seu gênero. A situação exige do Estado medidas mais severas, tais como investigações sérias e punição aos culpados.
O que nos deixa extremamente chocados é que esse tipo de crime já se tornou banalizado. É como se a vida, esse bem maior que nos foi concedido, não valesse mais nada. Hoje, se matam mulheres como se fossem insetos, e o que é mais lamentável, muitas vezes na presença dos próprios filhos. E não venham me dizer que isso só acontece nas camadas mais baixas da população, na periferia. Não mesmo, acontece também nos condomínios de luxo, entre pessoas bem sucedidas financeiramente e com bom nível de instrução.
É certo que a mulher vem contabilizando muitas conquistas, tanto no plano pessoal como no profissional. Alcançou a tão sonhada liberdade, conquistada palmo a palmo, para se tornar uma pessoa produtiva, independente, não mais aquela senhora do lar – não que isso seja demérito para quem faz essa opção, até porque o direito de escolher faz parte da pauta contínua da luta feminina . Talvez isso incomode os homens em geral, não todos, obviamente. Numa sociedade patriarcal como a nossa, deve ser difícil para muitos conviver com essa nova mulher.
Se voltarmos os olhos para tempos mais distantes podemos observar que a mulher não sofria tantas agressões, ou pelos menos não se tinha conhecimento. Os dias corriam entre os afazeres domésticos, o cuidar das crianças e a atenção para o marido, o provedor da família. Mas os tempos mudaram, a mulher se profissionalizou e vem disputando com muita garra o seu lugar na sociedade. É bem verdade que ainda há um longo caminho a percorrer nessa caminhada pela igualdade de condições entre os dois sexos, sobretudo no que se refere a hierarquia e funções.
O mais assombroso e ao mesmo tempo alentador “é comprovar que sempre houve mulheres capazes de sobrepor-se às mais penosas circunstâncias, mulheres guerreiras, aventureiras, criadoras, políticas, cientistas, que tiveram a coragem e a habilidade de escapar a destinos tão estreitos como um túmulo”, no dizer da escritora espanhola Rosa Montero. São essas incontáveis facetas do universo feminino que nos trazem a esperança em dias melhores. Esperamos que sejam.
Socorro Pitombo é jornalista
sexta-feira, 29 de março de 2019
OLHA O TABULEIRO AÍ, GENTE!
Eu sempre gostei de mudar. De casa, de cidade, de visual… Mudar, para mim, tem o significado de melhorar. E mesmo que isso não aconteça, eu dou um jeito de encontrar algo nesse momento para dizer – ou pensar – que valeu a pena investir em um projeto. Sim, porque mudança é projeto e só o fato de projetar já demonstra que estamos ativos nesse jogo maravilhoso e inesperado que é a vida.
Não há nada mais marcante para definir a necessidade de mudança do que a passagem de um ano para outro. Por isso o retorno do Tabuleiro da Maria não poderia ocorrer em melhor hora. Parafraseando Carlos Drumond de Andrade, considero fenomenal quem decidiu dividir o tempo em períodos de 12 meses. E os últimos, convenhamos, não foram nada fáceis. E os próximos também certamente não serão. Que venham as mudanças!
E a primeira delas é a volta do Tabuleiro da Maria. Há alguns meses o blog encontrava-se bloqueado, sabe-se Deus porquê. Mas graças ao adjuntório de meu pupilo Alan – cronista dos melhores que já li – voltei, com um novo endereço. Agora, outra mudança. Por intervenção do amigo Charles, aqui estou de volta com o bom e velho Tabuleiro. Com as antigas postagens e muitas novidades, assinadas por mim e pelos amigos que, assim como eu, gostam das letras e das artes.
Madalena de Jesus
Não há nada mais marcante para definir a necessidade de mudança do que a passagem de um ano para outro. Por isso o retorno do Tabuleiro da Maria não poderia ocorrer em melhor hora. Parafraseando Carlos Drumond de Andrade, considero fenomenal quem decidiu dividir o tempo em períodos de 12 meses. E os últimos, convenhamos, não foram nada fáceis. E os próximos também certamente não serão. Que venham as mudanças!
E a primeira delas é a volta do Tabuleiro da Maria. Há alguns meses o blog encontrava-se bloqueado, sabe-se Deus porquê. Mas graças ao adjuntório de meu pupilo Alan – cronista dos melhores que já li – voltei, com um novo endereço. Agora, outra mudança. Por intervenção do amigo Charles, aqui estou de volta com o bom e velho Tabuleiro. Com as antigas postagens e muitas novidades, assinadas por mim e pelos amigos que, assim como eu, gostam das letras e das artes.
Madalena de Jesus
A PRIMEIRA "CHORONA" DO BRASIL
Por Madalena de Jesus*
Quando eu ganhei Histórias de Mulheres (obrigada meu amigo Jair Onofre) já tinha informações sobre a autora, através de outra obra, A Louca da Casa. Fui “apresentada” à escritora espanhola Rosa Montero pela jornalista Socorro Pitombo e conhecendo o seu faro refinado para detectar bons textos, não tive dúvidas da qualidade do presente. O livro é realmente uma obra de arte, que impressiona não somente pela riqueza das histórias contadas, mas sobretudo pela capacidade da escritora de contextualizar situações tão distantes – assim como as próprias vidas biografadas – e trazê-las para a atualidade.
As marcas da temporalidade, ao mesmo tempo em que servem de pano de fundo para as tramas que se desenrolam, desaparecem na reflexão dos conflitos humanos. São 15 mulheres biografadas. Poderiam ser em número infinitamente maior, ou mesmo menor. A quantidade, nesse caso, é o que menos importa. Não farei análise de nenhuma das histórias, lidas com uma sensação de inquietação, às vezes beirando a angústia. Certamente me perderia em elogios às estratégias narrativas da autora. Minha intenção é apenas fazer um registro, fruto da curiosidade típica dos leitores insaciáveis, aliada ao bairrismo comum a todos nós: por que não há uma brasileira entre as escolhidas?
Diante de tal questionamento, imediatamente me veio à cabeça uma extensa relação de mulheres que, a seu tempo e modo, construíram histórias merecedoras de biografias Brasil afora. E assim os nomes surgiam, atropeladamente, até que um deles se fixou na minha mente: Chiquinha Gonzaga. É certo que sua vida e obra já serviram de tema para filme e minisérie, mas convenhamos que a literatura ainda deve muito a Francisca Edwiges Neves Gonzaga. Não somente pelos méritos musicais, mas pela ousadia e a vontade de ir sempre além do óbvio, do planejado, do esperado.
Longe de mim a pretensão de biografar Chiquinha Gonzaga, a primeira pianista de choro, autora da primeira marcha carnavalesca (Ô Abre Alas, 1899) e também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. No Passeio Público, há uma herma em sua homenagem, obra do escultor Honório Peçanha. Mas que dá vontade de conhecer um pouco mais de sua vida, ah! Isso dá. Então eu saí em busca de informações sobre sua vida e sua obra e depois de alguns sustos, tento recontá-las aqui.
Filha de um general do Exército Imperial – é difícil de crer, mas é verdade – e de uma mãe humilde e mulata, Chiquinha Gonzaga cresceu em um meio aristocrático. Um dos sustos: seu padrinho era o Duque de Caxias. Teve dois grandes mestres. Nos estudos normais, o Cônego Trindade; nos estudos musicais, o Maestro Lobo. Com apenas 11 anos de idade compôs “Canção dos Pastores”, uma música natalina. Outro susto: apesar da rigidez da educação familiar, sempre deu um jeititinho de frequentar as rodas de lundu, umbigada e outras músicas populares típicas dos escravos.
Fato comum no século XIX, Chiquinha casou ainda menina, aos 16 anos, por imposição da família. O casamento com o oficial da Marinha Imperial Jacinto Ribeiro do Amaral não resistiu à exigência absolutamente impossível de ser cumprida por ela: não se envolver com a música. Do enlace nasceu João Gualberto, o filho mais velho que sustentou dando aulas de piano. Tornou-se compositora de polcas, valsas, tangos e cançonetas. Era, então, uma musicista independente e uniu-se a um grupo de músicos de choro, que incluía o compositor Joaquim Antônio da Silva Calado.
Aos 52 anos de idade viveu uma nova e grande paixão: João Batista Fernandes Lage, de apenas 16 anos. Para viver esse amor, adotou o jovem como filho, o que foi contestado posteriormente por suas filhas, Maria do Patrocínio e Alice Maria. Elas chegaram a entrar na justiça para provar que João não era filho legítimo, mas não levaram a causa adiante. Chiquinha, nascida em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro, morreu ao lado de João Batista, aos 88 anos, em pleno carnaval.
*Madalena de Jesus é jornalista e professora de Literatura e Língua Portuguesa.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
MINHA MÃE TEM UMA BARRACA NA SALES BARBOSA
Minha mãe tem uma barraca na Sales Barbosa. Na verdade é um box, mas eu chamo de barraca. De quinze anos que moro aqui, 11 são dela com um comércio no centro. A gente é das antigas, ali. Da época que tínhamos que chegar 6:30 pra tirar os fardos do depósito de Dona Creuza, num bequinho da Conselheiro Franco, depois da Le Biscuit. Era uma hora só de arrumação.
Mesmo algumas pessoas já sabendo desse fato, eu sempre gosto de lembrar. São onze anos de Sales Barbosa. Onze no centro da cidade. Tenho 23 anos, então passei minha adolescência lá. Minha percepção de Feira de Santana vem do comércio. A comunicação, a forma de lidar com as laranjadas. Mapeei o centro a partir dali. Todos os caminhos levam à Sales Barbosa.
E, dentro desse tempo, percebi uma coisa: o comércio de Feira segue tendências. A primeira que vi foi o “boom” das óticas. Era ótica pra tudo quanto é lado. Uma cidade de cegos, quase. Mas parece que essa moda não deu tão certo. Se o tivesse, não teria tanta gente fazendo barbeiragem nas ruas daqui. Na trincheira da João Durval com a Presidente Dutra é até entendível, porque aquilo é confuso mesmo. Mas entrar duas vezes seguida na contramão da Fernando São Paulo? Isso é coisa de quem não usa óculos.
Depois foram as lojas de 10 reais. As POCs do comércio feirense. Era loja de 10 reais pra tudo quanto é lado. O Feiraguay já vendia roupa barata, mas por uma arara? 10 golpinhos? Isso só na Sales. Nem a Marechal entrou na onda tanto quanto a rua que é o coração dessa cidade.
As galerias até voltaram a ser moda, durante um tempo. O que eu, particularmente, curti. Nunca compro nada nelas, mas são ótimos atalhos. Na Senhor dos Passos tem uma mesmo com saída na Carlos Gomes. Sequer sei o nome. É perfeita pra quem quer ir até o Feira Tênis Clube. Sai quase de frente à Griffe do Atleta. Tem uma lotérica ali colada, também. Muito bem posicionada. Galeria top.
A moda, agora, são as farmácias. Já reparou na quantidade de farmácias? É uma pra cada pessoa residente do Tomba. Só ali, depois do A Mukeka, são 3: uma Silva, uma Pague Menos e uma FTB. Coladas. Cada esquina tem uma. Deve ter muita gente doente aqui, não é possível.
O Habbib’s fechou. Virou uma farmácia. Mais uma Drogasil. O povo dessa cidade deve ser burro de trocar aquela esfirra apimentada deliciosa por Dorflex. As pizzas eram ruins, mas aí é defeito da rede Habbib’s. Uma vez entrei lá com 10 reais. Pedi uma Coca de 600 ml e o resto de esfirra de carne. Pensei que eram 50 centavos por cada uma. No dia era promoção, 20 centavinhos cada uma. Fiquei ali no antigo espaço Marcus Moraes, de frente para a Lucidata, comendo esfirra e bebendo Coca. Parecia um pinto no lixo.
Perto da Pão Center, do outro lado da Frei Aureliano, havia uma Mr. Polo, ao lado de uma loja de produtos naturais. O cúmulo da gourmetização. Eu nem gostava de passar ali em frente, mesmo quando trabalhava na Nutrimar. Só o ar já queria me fazer comprar uma moto de 30 mil e uma calça de 800 reais. Aí as duas fecharam. Pensei que seria um boteco. Mas não, virou uma Extrafarma. Pelo menos a Mr. Polo sairia dali. Mas não, foi para o lado. Quem saiu dali foi a Fufs. Só derrota.
Mas nenhum lugar me deixou tão indignado quanto o Cine Íris. O Cine Íris! Fecharam aquele marco feirense para abrir uma Pague Menos. Me sinto um merda por ter nascido tarde demais para frequentar o cine antes de virar um cinema pornô. E o Cine Íris pornô meio que já funcionava como uma farmácia. A quantidade de Dipiroca e Parabucetamol que já passaram por ali não se escreve nem em uma folha de papel do tamanho da José Falcão. A recomendação máxima pra quem fosse ver um Brasileirinhas ou Panteras no melhor lugar que essa cidade já teve era não sentar nas cadeiras. Nem no chão. A probabilidade de um caco de xota voar na sua cara era de 300%. Nunca cheguei a entrar, o segurança era caro demais pra um pivete subornar. Isso não quer dizer que nunca tentei.
Com a porrada de clínicas na Maria Quitéria e de farmácias em Feira, a análise que faço é de que, sim, Feira está doente. E não tem nada que cure melhor a doença de uma cidade do que bregas. Puteiros mesmo. A demanda é sempre grande, só falta a oferta. Puteiro cura tudo. Substitui cada farmácia por um brega. Depois é só a CDL criar uma planilha de organização baseada na Câmara de Vereadores daqui. Pronto, aí é só sucesso. A putaria vai comer solta.
Alan de Sá é estudante de Jornalismo na FAT
quarta-feira, 25 de julho de 2018
SOBRE SOTAQUE, MÚSICA E IMAGENS NA NOVELA SEGUNDO SOL
Os intelectuais que me perdoem, mas gosto de novela. Verdade. Sou chegada a uma narrativa. Séries, documentários, filmes, nada escapa à minha condição de espectadora. Atualmente, assisto com muita atenção a novela Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, exibida às 21h, pela Rede Globo de TV.
E assisto com atenção porque é ambientada em Salvador, a nossa capital, dona de cenários de rara beleza, cantada por músicos como Dorival Caymmi e o poetinha Vinícius de Morais, para citar apenas dois expoentes da música que se faz na Bahia.
Sem dúvida um dos destaques da novela é a trilha sonora, que tem a cara de nosso estado: alegre, diversificada e cheia de ginga. Só para dar um exemplo, a regravação de Beleza Pura, do baianíssimo Caetano Veloso, com o tempero carioca da banda Dream Team do Passinho – leia-se Lellêzinha e seu time dos sonhos.
Como baiana que sou, filha dessa terra abençoada pelo Senhor do Bonfim, confesso que ando um tanto desencantada com os rumos do folhetim, que, em algumas situações não retrata nem de longe os costumes da Bahia de hoje.
Vou começar pela prosódia. Alguns personagens estão forçando a barra um pouco demais. Porque não falam normalmente, como o ator Vladimir Brictha, por exemplo? Exatamente porque ele é baiano e não precisa imitar o nosso linguajar.
Quem vem lá do Sul Maravilha acha que tem de falar cantando, arrastado, para parecer baiano. Ledo engano. O que pega mesmo é a entonação, que chega aos nossos ouvidos tão forçada! É certo que cada estado tem o seu sotaque. Imagine um baiano falando como carioca! Ridículo, não?
Mas faço algumas ressalvas. O ator Emílio Dantas, que encarna o cantor e compositor Beto Falcão, tem uma interpretação excelente, bem natural. Esse é também o caso do personagem de Chay Suede, Ícaro, que pegou o fio da meada. Usa os termos e gírias próprios da juventude baiana com muita propriedade, como meu brother, massa, tá ligado véi?, passe logo a resenha e as clássicas oxe, vixe e ó paí ó. Muito bom! Eu me divirto muito com termos que nós usamos, como por exemplo, essa desgraça! e diga aí? As expressões são bem próprias da Bahia.
Os cenários, no meu entendimento, deixam muito a desejar. Cadê as nossas praias paradisíacas? O pôr do sol visto do MAM – de arrepiar – que embeleza os fins de tarde da cidade do Salvador, ao som de belas canções, já que a novela gira em torno da música? É o caso de perguntar-se. Também sinto falta do Dique do Tororó. Da Lagoa do Abaeté e de muitas outras paisagens tão características de Salvador.
A corrupção, disseminada por todo o país, não poderia deixar a Bahia de fora. Concordo. A novela toma de empréstimo o caso dos 51 milhões encontrados em caixas e malas abarrotadas em um apartamento do bairro nobre da Graça, em Salvador. E não deu outra: gaiola para o personagem do empresário Severo Athayde, muito bem interpretado pelo ator Odilon Wagner. Exatamente como aconteceu na vida real.
Por fim, a abertura da novela, salvo a música que dá nome ao folhetim, do cantor e compositor Nando Reis e imortalizada na voz inconfundível de Cassia Eller, agora na versão do grupo musical Baiana System, não prima pelo bom gosto. Com tanta coisa bonita para mostrar, o que aparece na tela não condiz com a vida baiana. É caricato. Posso até estar equivocada, mas essa Salvador da novela não me representa.
Socorro Pitombo é jornalista.
Feira, 20 de julho de 2018
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