quinta-feira, 12 de agosto de 2021
O DIA QUE JOÃO CORAGEM CHEGOU LÁ EM CASA
domingo, 8 de agosto de 2021
DEIXA A VIDA ME LEVAR....
Antônio Carlos Garcia (*)
O poeta gaúcho Mário Quintana, que nos deixou em maio de 1994, aos 87 anos, pediu que escrevessem o seguinte epitáfio na sua tumba: “eu não estou aqui”. Essa história foi lembrada pelo professor Mário Sérgio Cortella durante uma palestra e dá margem a várias reflexões. Escolho uma que mais se identifica comigo: a de que nem ele, Mário, e nem os que foram para o outro plano terminaram toda uma história ali, reclusos num jazigo. Naquele lugar sucumbiu um corpo físico. A alma segue aprendendo em algum lugar, afinal, “há muitas moradas na casa do meu Pai”.
Esse preâmbulo é para, neste Dia dos Pais, reverenciar a memória do meu pai, Raimundo Ferreira dos Santos, que durante sua passagem por esta orbe, pegou emprestada a música de Zeca Pagodinho, “Deixa a vida me levar”, para transformá-la em filosofia de vida. Ele, repetidamente, em algum momento de tensão, problemas e preocupações, dizia: “deixa a vida me levar”.
E como ele tinha razão quando dava esse conselho! Afinal, tudo na vida passa: a maior alegria e a tristeza mais profunda são passageiras e ao deixarmos a vida nos levar aprendemos bastante. Na medida do possível devemos levar a vida com leveza, com olhar terno e um sorriso cativante. Encarar os problemas como oportunidades de aprendizado para sermos cada dia melhores.
Raimundo procurou ser um bom aluno nessa escola chamada Terra, onde o nosso mentor maior – Deus, o Grande Arquiteto do Universo – nos dá liberdade para crescermos. Essa liberdade é o livre arbítrio. É uma liberdade tão grande que alguns metem os pés pelas mãos e se atrapalham de vez quando. Outros se atrapalham o tempo todo. Mas como a bondade do Pai é infinita, a todos é dada a oportunidade de voltar aqui quantas vezes forem necessárias para aprender o que significa o livre arbítrio. E ao aprender, todos crescem. Essa é a regra. Por mais que demore milênios, um dia todos seremos prefeitos.
Acredito que Raimundo esteja em uma das “moradas” se aperfeiçoando, crescendo, tornando-se melhor, porque, insisto, esse é o caminho de todos. Quando ele desencarnou, lembro-me de dois momentos marcantes. Um vivido por mim e outro pela amiga Márcia Pitão, que tinha [e tem] adoração por Raimundo.
No início de uma manhã de novembro de 2015, um domingo, ao sair de Aracaju, onde resido, com destino a Feira de Santana para o sepultamento de meu pai, tive a forte impressão dele estar comigo, minha mulher, Rose, e meu filho João Pedro, dentro do carro viajando conosco, nos fazendo companhia. Acredito que ele estava ali.
Passados alguns meses, eu estava no Dispensário de Santana, participando de uma missa festiva com a amiga Márcia Pitão e no final ela me disse: “Galinho estava aqui na missa”. Galo ou Galinho era o apelido de meu pai.
Portanto, o que está num jazigo perpétuo no Cemitério Piedade são os restos mortais de Raimundo. Ele, de fato, não está ali no túmulo como bem escreveu Mário Quintana. E para deixar uma reflexão, recordo-me da mensagem ditada pelo espírito Leocádio José Correia ao médium Maury Rodrigues da Cruz, da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas: “a vida não começa no berço e nem termina no túmulo”.
Feliz Dia dos Pais, Raimundo. Feliz dia aos pais encarnados e desencarnados.
(*) Antonio Carlos Garcia é jornalista feirense radicado em Aracaju.
A foto é de Reginaldo Pereira Tracajá
terça-feira, 3 de agosto de 2021
LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA
Por Socorro Pitombo
Todos os dias eu ia para a escola com as amigas, conversando, contando casos. No pátio, antes das aulas, cantávamos o Hino Nacional, e ai de quem esquecesse uma estrofe! Era palmatória na certa. No retorno era a tagarelice de sempre, uma alegria. As pesquisas escolares eram feitas na Biblioteca Pública, consultando enciclopédias. Não existia o google e outras facilidades.
Na escola a gente costumava colocar apelidos nos colegas, eu era a perna seca, mas tinha o balofo, o palito e por aí vai. Ninguém reclamava de bullyng. Nosso refrigerante era o Sukita ou suco de uva, um saquinho dava uma boa quantidade. De volta da escola, era a hora da merenda; vovó Belinha, mãe do meu pai, era quem nos servia: pão com manteiga e açúcar por cima, com suco de uva.
A gente sabia quando o pão estava saindo do forno por causa do cheirinho que subia da padaria do seu Zé, que fazia esquina com a nossa casa, na rua Direita. Era só botar manteiga que derretia no pão. Hummmm.... e as queijadas eram maravilhosas. Na padaria de seu Zé tinha um pão de sal e uns biscoitos deliciosos, além de sorvete de coco com doce de leite e sorvete de ameixa também. Vendia uma bala de nome café com leite.
A noite caía e era hora da brincadeira. Cabra cega, chicotinho queimado. Também brincávamos de roda, tirando versos e outras brincadeiras com a criançada da vizinhança, até que chegava a hora de nos recolher, o que fazíamos a contragosto. Nos fins de semana, era a vez de brincar de teatro ou de cantoras do rádio. As músicas eram inventadas por nós. Imaginem as letras rsrsrsrs.
Tinha também a brincadeira de panelinha. Eu, minhas irmãs e as amigas fazíamos cozidos de folhas nos frondosos quintais de nossas casas. As panelinhas de barro eram compradas nas barracas da feira livre, que acontecia às segundas-feiras e se estendia desde a praça da Bandeira até as proximidades do Hospital EMEC.
Nossos pais sempre presentes, educação começava em casa. E na rua, se fizéssemos alguma bobagem, era beliscão, cascudo, ou o infalível “a gente conversa em casa”. Tínhamos hora para tudo, chegar em casa, tomar banho e sentar à mesa. E ai de quem dissesse alguma coisa. A hora do jantar era sagrada. Era sopa, café com pão e biscoito, que chamávamos de “enche boca”, porque era um biscoito fofo e bem grande. Essa bolacha, melhor dizendo, ainda hoje rende conversas entre nós, os irmãos.
Essas lembranças da infância me acompanham pela vida a fora e hoje senti vontade de escrever sobre elas. Lembro que uma das minhas irmãs, já adulta, resolveu aprender a andar de bicicleta. Na primeira tentativa levou uma bela queda e esfolou os joelhos. Mas essa é uma outra história...
Socorro Pitombo é jornalista
Feira de Santana, 17 de julho de 2021
terça-feira, 27 de julho de 2021
BALADA DO DESGARRADO PARA ALAÚDE ROUCO
“quando me percebi já era alheio”
ezio déda
te apartaste e te perdeste
[boi na cordilheira,
cavalo no teto de zinco,
gato no fundo do mar]
dos caminhos mais elementares.
quede o orvalho
das madrugadas
quede as vias
de pó e poeira
fumegando a vontades
gerando gerânios ranchos rancharias
encontros e tropas de alegrias
quede o laço do abraço
distendido no vento
aberto na brisa do nada
- no nada que vale um tudo.
de pouco te valeram
óculos novos
enciclopédia universal
os bolsos topados de sonrisal
cartilagem de tubarão
mandingas de fulô preto
mantos de nuvens e manacás
se caducos
são os teus gestos,
caducos e crespos
se te apartaste
de toda a flora
da mínima areia e teogonia
que te remeteriam
ao reconforto
de mãos antigas
[desprovidas de pretensões
de pedras]
e dos cheiros amigos
se te impermeabiliza
em casacos difíceis
em bílis de granito
se te esteriliza
e infundes distâncias
ao que de tão perto
e próximo
clama cócegas
e apalpos
e sal e luz
e poderia estar
aí contigo
mineral latente e seminal
sem jamais torar
na cepa.
no dentro-âmago.
[tanto que teu pai
e aqueles passarinhos roucos,
óputo,
te pediam pra prestares
a atenção na direção das brisas
e no bailado lutrido das samambaias]
apartado de tudo,
bezerro sem teta
nem consolo de úbere postiço,
nu, desamparado de solo e útero,
não escalas mais montanhas,
não trepas mais os topos altos
e básicos de ti mesmo.
te descolaste da terra
dos galhos dos ramos
das flores das sementes
da palharia que se fazem húmus
e voltam em copa grande
de arvoredos imprescindíveis
- em lutrido bailado de samambaias.
boi na cordilheira
gato no fundo do mar,
foste ali com teus pés
de zinco - sem o auxílio
do teu burro preto –
acessar ninguém
e não sabes quando voltarás.
possivelmente não voltarás,
de tão apartado
dos caminhos em que estás.
Jozailto Lima nasceu em Várzea do Poço em 11.11.1960, morou 11 anos em Feira, começou no jornalismo pelo Feira Hoje em 1983, fez Letras na UFS e desde 1990 mora em Aracaju, Sergipe, onde fez Comunicação Social e vive 100% do jornalismo, hoje comandando o Portal JLPolítica. É autor de cinco livros de poemas, entre eles "Viagem na Argila", de 2012, onde está este poema, e "Ainda os lobos", de 2016. Tem três consideráveis prêmios de poesia.
Ilustração de Ronaldson, designer e grande poeta sergipano, autor dos livros "Questão de Íris" e "Litorâneos"
terça-feira, 20 de julho de 2021
MESSIAS GONZAGA: EXCELENTE VEREADOR E UM ÓTIMO CONTADOR DE HISTÓRIAS
quinta-feira, 15 de julho de 2021
O CORAÇÃO NOTURNO DE RAUL SEIXAS
Pode parecer lugar comum. Que seja, não importa. Mas dizer que a música de Raul Seixas é imortal nunca é demais. Um misto de poeta e profeta (um de seus álbuns tem o sugestivo título Profecias), ele conseguia falar do passado, do presente e do futuro com a mesma naturalidade. Nesta quinta-feira (15) recebi o áudio com uma dessas pérolas de Raul, enviado direto de Itabuna, minha terceira pátria, pela jornalista Vera Rabelo. E vamos combinar que nesses tempos de pandemia e isolamento social, amanhecer com toda a natureza nos desejando um bom dia e, ainda, com um leve toque de poesia, é tudo que precisamos. (Madalena de Jesus)
Amanhece, amanhece, amanhece
Amanhece, amanhece o dia
Um leve toque de poesia
Com a certeza que a luz
Que se derrama
Nos traga um pouco
Um pouco
Um pouco de alegria
A frieza do relógio
Não compete com a quentura do meu coração
Coração que bate 4 por 4
Sem lógica
E sem
E sem nenhuma razão
Bom dia Sol
Bom dia, dia
Olha a fonte
Olha os montes
O horizonte
Olha a luz que enxovalha e guia
A Lua se oferece ao dia
E eu
E eu guardo cada pedacinho de mim
Prá mim mesmo
Rindo louco
Louco
Mais louco
Louco de euforia
Bom dia Sol
Bom dia, dia
Eu e o coração
Companheiros de absurdos no noturno
No soturno
No entanto, entretanto
E portanto...
Bom dia Sol
Bom dia Sol
Bom dia Sol
quinta-feira, 8 de julho de 2021
TESTEMUNHO DE FÉ: A FORÇA DOS PEQUENOS GRANDES MILAGRES
Poucas pessoas sabem, com detalhes, o histórico de minha filha, Bárbara, com a maternidade. Em maio, o mês das mães e de Maria, passamos pela barreira da pandemia para atender um convite do Padre Pedro para que ela compartilhasse, durante a missa, os pequenos grandes milagres vividos ao dar à luz os meus dois netos. Foi um testemunho de fé que emocionou todos que se encontravam na Igreja de Senhor do Bonfim, no Cruzeiro. Inclusive eu, que naquele momento, ao lado de meu genro Bruno, dividia o colo com Lucas e Bruna, imensamente agradecida a Nossa Senhora Aparecida pelas bênçãos em nossas vidas. Hoje minha filha e mais duas mães atípicas mantêm a Rede de Apoio Pequenos Grandes Milagres. (Madalena e Jesus)
Há 8 anos engravidei do meu primeiro filho. Foi quando me tornei devota de Nossa Senhora Aparecida. Tive um pós-parto bem complicado, pois desenvolvi atonia uterina, uma hemorragia que só foi detectada quando eu já estava no quarto, o que aumentou ainda mais o meu risco de morte. Sim, eu corri esse risco e sequer sabia o que estava acontecendo! Dentro do quarto, eu estava com a minha mãe, gritando de dor, com a barriga distendendo em questão de segundos, enquanto a equipe de Enfermagem tentava localizar a obstetra que havia feito meu parto.
No auge da dor, a porta do quarto se abriu e entrou uma jovem mulher negra, que se apresentou como Ana, vestida com um jaleco do hospital. No mesmo instante segurou a mão da minha mãe e perguntou se ela acreditava em Nossa Senhora; a minha mãe, que já não conseguia mais segurar as lágrimas, respondeu com um sinal indicando que sim e pediu àquela moça que me ajudasse. Ela colocou a mão sobre minha cicatriz e eu consegui senti sair coágulos de sangue que já estavam se acumulando dentro da minha barriga. Eu poderia, naquele momento, ter uma infecção generalizada. Ela me olhou, deu um sorriso e disse: vai ficar tudo bem!
Nós nunca mais encontramos Ana. Quando a procuramos, ela não estava mais no plantão; minha mãe procurou em todos os setores daquele hospital e aquela mulher simplesmente não foi localizada!
Passados os anos eu engravidei novamente, dessa vez uma menina. Eu estava realizada, afinal de contas teria um casal de filhos como sempre sonhei. No segundo trimestre de gestação nós descobrimos, da pior maneira possível, que nossa filha tinha uma má formação cerebral. Inicialmente nos foi dito que ela não sobreviveria; se sobrevivesse, teria inúmeras sequelas e que além dela eu também corria risco de vida, e então nos foi dado o poder de escolha, caso quiséssemos interromper a gravidez. Assim, de forma fria e desumana, foi um verdadeiro balde de gelo para um casal que tinha acabado de fazer o enxoval da princesa da família. Nós não sabíamos absolutamente nada além do pior, então não conseguíamos esperar algo de bom de tudo isso, nossa única opção era sofrer.
Nós viemos conversar com Padre Pedro, ele abençoou nossa menina e mesmo não sendo médico, me mostrou que a medicina é feita pelo homem, que o homem é feito por Deus e para Deus nada é impossível! Depois da nossa conversa, eu consegui enxugar minhas lágrimas e ir atrás do conhecimento. Foi então que os milagres começaram a acontecer... Sim, vivi muitos milagres, não me considero uma privilegiada por isso, Deus não me escolheu, eu é que escolhi entender e aceitar os milagres da maneira em que Ele estava apresentando a mim!
Nessa caminhada, pude sentir a presença de Nossa Senhora ao meu lado em diversos momentos. Um deles, talvez o mais marcante, foi quando eu estava em outro estado, para fazer uma cirurgia intrauterina, e em meio a tantos médicos homens dentro do centro cirúrgico fechei meus olhos e pedi em silêncio que Ela passasse à frente e intercedesse por mim. Foi quando a única médica mulher, que estava distante de mim, se aproximou e me acolheu dizendo: eu estou aqui!
Eu não poderia ter mais filhos... lembram da atonia uterina que mencionei anteriormente? Então, isso seria um impedimento para eu parir novamente, e eu dei a vida.
Minha filha não sobreviveria, e sobreviveu!
Ela teria inúmeras sequelas e TEM, mas isso não a torna inferior a ninguém, ela nos faz feliz do jeitinho que é!
Hoje tenho uma fé inabalável e estou aqui para dizer a vocês que milagres acontecem todos os dias e a todo momento, não espere algo grandioso, veja o poder de Deus nas pequenas coisas e seja grato SEMPRE.
Minha filha foi consagrada a Nossa Senhora Aparecida, porque Ana, aquela que me visitou no quarto do hospital no dia 19/07/2013 não precisava ser localizada pois ela me disse naquele momento que tudo ficaria bem! E sim, está tudo bem!
Lucas está prestes a completar 8 anos e é o melhor irmão que Bruna Aparecida, já com 2 anos e 2 meses poderia ter!
Hana Bárbara de Jesus Gomes é Arquiteta, Engenheira de Segurança do Trabalho e Professora






