quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O DIA QUE JOÃO CORAGEM CHEGOU LÁ EM CASA

 


Por Marcílio Costa (*)

Já fazia um bom tempo que a energia elétrica tinha chegado em Jaguara, mas precisei esperar ainda intermináveis dois a três anos para ter a nossa primeira TV lá em casa, uma Telefunken com uma tela de proteção na frente e que ocupava lugar de destaque na sala. Não era apenas a nossa televisão, era o segundo aparelho que chegava na localidade. Era Jaguara entrando na modernidade, mesmo com um considerável atraso. Somente aos 9 anos de idade poderia dizer que tinha uma televisão para assistir, um sonho de menino que só via TV quando estava em Feira de Santana na casa de minha avó Santinha ou de minha tia Elizabete. Mas ter uma televisão em casa não significava exatamente poder assistir tudo quando bem entendesse como faz a garotada de hoje que tem a tv na palma da mão praticamente 24 horas por dia. Nas regras de meu pai, ver televisão também tinha horário determinado, assim como ele fazia com quase tudo lá em casa. Eu precisava escolher o horário para assistir televisão durante o dia e logo montei o que seria hoje minha playlist.
Como tinha direito a escolher dois horários, eu optei por ver a TV perto do meio-dia e no final da tarde, quando passavam meus programas favoritos. No primeiro horário, eu adorava ver Guerra Sombra e Água Fresca, uma bem-humorada série americana dos anos 60 ambientada num campo de concentração da Segunda Guerra Mundial, onde os prisioneiros aprontavam o que bem queriam e invariavelmente faziam o sargento Schultz de trouxa. Como esquecer do Agente 86, o incrível Maxwell Smart, um agente trapalhão apaixonado pela colega 99 e que tinha truques inesperados como falar num telefone disfarçado de sapato. No final, ele sempre acertava, de uma forma ou de outra, e saía como herói, mesmo depois de tantas trapalhadas.. A comédia americana era uma das minhas preferidas, ao lado de Jeannie é um Gênio, a Feiticeira e Robô Gigante, uma série onde um robô enorme e muito mal forjado aparecia sempre para derrotar o inimigo com o uso da força bruta e armas escondidas no corpo. O segundo tempo da minha jornada televisiva começava às cinco da tarde, hora de ver o cowboy Durango Kid, um faroeste americano que fez tanto sucesso no Brasil que virou até música de Raul Seixas:
Eu não sou besta
Pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
O Durango Kid
Só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra história com vocês
Muita gente que assiste televisão hoje com aparelhos ultramodernos, telas finas e imagens de qualidade impressionantes não faz a menor ideia como eram os aparelhos naquele início dos anos 70. Além de caras, as tvs eram enormes, pesadas, feitas em caixa de madeira e tinham válvulas que mais pareciam funcionar a lenha. Isso significava que era preciso esperar as válvulas esquentarem até começar a aparecer as primeiras imagens, que muitas vezes vinham com chuviscos e todo tipo de interferência, além de ser preto e branco . Em Jaguara a situação era ainda mais complicada. Distrito mais distante de Feira, o sinal chegava lá através da antena repetidora instalada no alto da serra de São José, no vizinho distrito de Maria Quitéria. Quando o sinal era interrompido batia o desespero na gente, porque muitas vezes precisava esperar mais de uma semana para assistir tv novamente até que a prefeitura mandasse consertar o equipamento, uma tarefa difícil por conta do acesso ao local. Outro problema era quando a tv quebrava. Era muito complicado levar aquele trambolho para consertar na cidade por conta do tamanho e da falta de um transporte adequado, afinal a gente andava era de pau de arara no meio de animais, bules e mercadorias.
No tempo que a novela das oito começava às oito horas mesmo, a nossa TV chegou quando Irmãos Coragem era o maior sucesso no país todo. A trama de Janete Clair contava a estória dos irmãos João, Duda e Jerônimo Coragem, garimpeiros que enfrentavam o todo-poderoso Pedro Barros, um malvado que perseguia a todos, especialmente aquela família que tinha a liderança de João Coragem, o personagem vivido por Tarcísio Meira no auge de seu esplendor de galã que reinou por muito tempo nas novelas da Globo ao lado de sua mulher Glória Menezes, que fez par romântico com ele naquela trama no papel de Lara, que se multiplicava por mais dois personagens, Diana e Marcia. João Coragem junto com os irmãos chegou lá em casa no início dos anos 70 e fazia o maior sucesso pelo seu rompante de heroi montado em seu cavalo ao melhor estilo dos faroestes americanos.
Mas a nossa família não assistia televisão sozinha. Com apenas dois aparelhos em Jaguara, logo os outros moradores foram em busca da nova diversão do lugar e a gente passou a ter a companhia de muitos outros moradores do distrito que todas as noites enchiam a sala lá de casa para ver o abobado Juca Cipó, a índia Potira, o jogador de futebol Duda, sua namorada Ritinha ou o vereador Jerônimo, personagens interpretados por artistas como Emiliano Queiroz, Lúcia Alves, Cláudio Marzo, Regina Duarte e Cláudio Cavalcanti, figuras que se tornaram conhecidas no Brasil afora. Afinal, eles ficaram mais de um ano no ar, no auge da audiência da Rede Globo que era uma unanimidade nacional com suas novelas de sucesso.
Televisão era um assunto tão importante naquela época e objeto longe do alcance da maioria da população da zona rural de Feira de Santana que logo virou política de governo do então prefeito José Falcão, que espertamente descobriu o quanto o povo gostava de assistir filmes e novelas. Ele mandou colocar aparelhos de TV na sede de todos os sete distritos de Feira, incluindo - é claro - Jaguara, que ganhou um equipamento instalado dentro de uma caixa de ferro trancada a cadeado em praça pública ao lado do mercado municipal, onde a turma passou a se reunir todas as noites para ver novelas como Selva de Pedra, Carinhoso, Bandeira 2, Cavalo de Aço e tantas outras, principalmente as novelas de época, que faziam especialmente a alegria de meu pai, que já conhecia as histórias através dos livros de autores nacionais como Machado de Assis,
Eu já tinha motivos de sobra para ter a TV num lugar especial em minha vida até que quase 20 anos depois da sua chegada em Jaguara quis o destino que eu fizesse parte da equipe de implantação da primeira emissora Globo no interior da Bahia, a TV Subaé, que faz parte da minha história há mais de 30 anos. Quem diria, o menino de Jaguara chegou na Globo que tanto admirava.
Plim plim!!!

Marcílio Costa é jornalista.

domingo, 8 de agosto de 2021

DEIXA A VIDA ME LEVAR....



Antônio Carlos Garcia (*)

O poeta gaúcho Mário Quintana, que nos deixou em maio de 1994, aos 87 anos, pediu que escrevessem o seguinte epitáfio na sua tumba: “eu não estou aqui”. Essa história foi lembrada pelo professor Mário Sérgio Cortella durante uma palestra e dá margem a várias reflexões. Escolho uma que mais se identifica comigo: a de que nem ele, Mário, e nem os que foram para o outro plano terminaram toda uma história ali, reclusos num jazigo. Naquele lugar sucumbiu um corpo físico.  A alma segue aprendendo em algum lugar, afinal, “há muitas moradas na casa do meu Pai”.

Esse preâmbulo é para, neste Dia dos Pais, reverenciar a memória do meu pai, Raimundo Ferreira dos Santos, que durante sua passagem por esta orbe, pegou emprestada a música de Zeca Pagodinho, “Deixa a vida me levar”, para transformá-la em filosofia de vida. Ele, repetidamente, em algum momento de tensão, problemas e preocupações, dizia: “deixa a vida me levar”.

E como ele tinha razão quando dava esse conselho! Afinal, tudo na vida passa: a maior alegria e a tristeza mais profunda são passageiras e ao deixarmos a vida nos levar aprendemos bastante. Na medida do possível devemos levar a vida com leveza, com olhar terno e um sorriso cativante. Encarar os problemas como oportunidades de aprendizado para sermos cada dia melhores.

Raimundo procurou ser um bom aluno nessa escola chamada Terra, onde o nosso mentor maior – Deus, o Grande Arquiteto do Universo – nos dá liberdade para crescermos. Essa liberdade é o livre arbítrio.  É uma liberdade tão grande que alguns metem os pés pelas mãos e se atrapalham de vez quando. Outros se atrapalham o tempo todo. Mas como a bondade do Pai é infinita, a todos é dada a oportunidade de voltar aqui quantas vezes forem necessárias para aprender o que significa o livre arbítrio. E ao aprender, todos crescem. Essa é a regra. Por mais que demore milênios, um dia todos seremos prefeitos.

Acredito que Raimundo esteja em uma das “moradas” se aperfeiçoando, crescendo, tornando-se melhor, porque, insisto, esse é o caminho de todos. Quando ele desencarnou, lembro-me de dois momentos marcantes. Um vivido por mim e outro pela amiga Márcia Pitão, que tinha [e tem] adoração por Raimundo. 

No início de uma manhã de novembro de 2015, um domingo, ao sair de Aracaju, onde resido, com destino a Feira de Santana para o sepultamento de meu pai, tive a forte impressão dele estar comigo, minha mulher, Rose, e meu filho João Pedro, dentro do carro viajando conosco, nos fazendo companhia. Acredito que ele estava ali.

Passados alguns meses, eu estava no Dispensário de Santana, participando de uma missa festiva com a amiga Márcia Pitão e no final ela me disse: “Galinho estava aqui na missa”.  Galo ou Galinho era o apelido de meu pai.

Portanto, o que está num jazigo perpétuo no Cemitério Piedade são os restos mortais de Raimundo. Ele, de fato, não está ali no túmulo como bem escreveu Mário Quintana. E para deixar uma reflexão, recordo-me da mensagem ditada pelo espírito Leocádio José Correia ao médium Maury Rodrigues da Cruz, da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas: “a vida não começa no berço e nem termina no túmulo”.

Feliz Dia dos Pais, Raimundo. Feliz dia aos pais encarnados e desencarnados.


(*) Antonio Carlos Garcia é jornalista feirense radicado em Aracaju.

A foto é de Reginaldo Pereira Tracajá

terça-feira, 3 de agosto de 2021

LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA


Por Socorro Pitombo

Todos os dias eu ia para a escola com as amigas, conversando, contando casos. No pátio, antes das aulas, cantávamos o Hino Nacional, e ai de quem esquecesse uma estrofe! Era palmatória na certa.  No retorno era a tagarelice de sempre, uma alegria.  As pesquisas escolares eram feitas na Biblioteca Pública, consultando enciclopédias. Não existia o google e outras facilidades.

Na escola a gente costumava colocar apelidos nos colegas, eu era a perna seca, mas tinha o balofo, o palito e por aí vai. Ninguém reclamava de bullyng. Nosso refrigerante era o Sukita ou suco de uva, um saquinho dava uma boa quantidade. De volta da escola, era a hora da merenda; vovó Belinha, mãe do meu pai, era quem nos servia: pão com manteiga e açúcar por cima, com suco de uva.

A gente sabia quando o pão estava saindo do forno por causa do cheirinho que subia da padaria do seu Zé, que fazia esquina com a nossa casa, na rua Direita. Era só botar manteiga que derretia no pão. Hummmm.... e as queijadas eram maravilhosas. Na padaria de seu Zé tinha um pão de sal e uns biscoitos deliciosos, além de sorvete de coco com doce de leite e sorvete de ameixa também. Vendia uma bala de nome café com leite.

A noite caía e era hora da brincadeira. Cabra cega, chicotinho queimado. Também brincávamos de roda, tirando versos e outras brincadeiras com a criançada da vizinhança, até que chegava a hora de nos recolher, o que fazíamos a contragosto. Nos fins de semana, era a vez de brincar de teatro ou de cantoras do rádio. As músicas eram inventadas por nós. Imaginem as letras rsrsrsrs.

Tinha também a brincadeira de panelinha. Eu, minhas irmãs e as amigas fazíamos cozidos de folhas nos frondosos quintais de nossas casas. As panelinhas de barro eram compradas nas barracas da feira livre, que acontecia às segundas-feiras e se estendia desde a praça da Bandeira até as proximidades do Hospital EMEC.

Nossos pais sempre presentes, educação começava em casa. E na rua, se fizéssemos alguma bobagem, era beliscão, cascudo, ou o infalível “a gente conversa em casa”. Tínhamos hora para tudo, chegar em casa, tomar banho e sentar à mesa. E ai de quem dissesse alguma coisa. A hora do jantar era sagrada. Era sopa, café com pão e biscoito, que chamávamos de “enche boca”, porque era um biscoito fofo e bem grande. Essa bolacha, melhor dizendo, ainda hoje rende conversas entre nós, os irmãos.

Essas lembranças da infância me acompanham pela vida a fora e hoje senti vontade de escrever sobre elas. Lembro que uma das minhas irmãs, já adulta, resolveu aprender a andar de bicicleta. Na primeira tentativa levou uma bela queda e esfolou os joelhos. Mas essa é uma outra história...

Socorro Pitombo é jornalista

Feira de Santana, 17 de julho de 2021

terça-feira, 27 de julho de 2021

BALADA DO DESGARRADO PARA ALAÚDE ROUCO

 

Jozailto Lima

                                                                        Ronaldson 


“quando me percebi já era alheio”

ezio déda


te apartaste e te perdeste

[boi na cordilheira,

cavalo no teto de zinco,

gato no fundo do mar]

dos caminhos mais elementares.

 

quede o orvalho

das madrugadas

 

quede as vias

de pó e poeira

fumegando a vontades

gerando gerânios ranchos rancharias

encontros e tropas de alegrias


quede o laço do abraço

distendido no vento

aberto na brisa do nada

- no nada que vale um tudo.

 

de pouco te valeram

óculos novos

enciclopédia universal

os bolsos topados de sonrisal

cartilagem de tubarão

mandingas de fulô preto

mantos de nuvens e manacás

se caducos

são os teus gestos,

                    caducos e crespos

 

se te apartaste

de toda a flora

da mínima areia e teogonia

que te remeteriam

ao reconforto

de mãos antigas          

[desprovidas de pretensões

de pedras]

e dos cheiros amigos

 

se te impermeabiliza

em casacos difíceis

em bílis de granito

 

se te esteriliza

e infundes distâncias

ao que de tão perto

e próximo

clama cócegas

                  e apalpos

e sal e luz

e poderia estar

aí contigo

mineral latente e seminal

sem jamais torar

na cepa.

no dentro-âmago.

[tanto que teu pai

e aqueles passarinhos roucos,

óputo,

te pediam pra prestares

a atenção na direção das brisas

e no bailado lutrido das samambaias]

 

apartado de tudo,

bezerro sem teta

nem consolo de úbere postiço,

nu, desamparado de solo e útero,

não escalas mais montanhas,

não trepas mais os topos altos

e básicos de ti mesmo.

 

te descolaste da terra

dos galhos dos ramos

das flores das sementes

da palharia que se fazem húmus

e voltam em copa grande

de arvoredos imprescindíveis

- em lutrido bailado de samambaias.


boi na cordilheira

gato no fundo do mar,

foste ali com teus pés

de zinco - sem o auxílio

do teu burro preto –

acessar ninguém

e não sabes quando voltarás.

 

possivelmente não voltarás,

de tão apartado

dos caminhos em que estás.


Jozailto Lima nasceu em Várzea do Poço em 11.11.1960, morou 11 anos em Feira, começou no jornalismo pelo Feira Hoje em 1983, fez Letras na UFS e desde 1990 mora em Aracaju, Sergipe, onde fez Comunicação Social e vive 100% do jornalismo, hoje comandando o Portal JLPolítica. É autor de cinco livros de poemas, entre eles "Viagem na Argila", de 2012, onde está este poema, e "Ainda os lobos", de 2016. Tem três consideráveis  prêmios de poesia.

Ilustração de Ronaldson, designer e grande poeta sergipano, autor dos livros "Questão de Íris" e "Litorâneos"

terça-feira, 20 de julho de 2021

MESSIAS GONZAGA: EXCELENTE VEREADOR E UM ÓTIMO CONTADOR DE HISTÓRIAS




Por Valdomiro Silva

"Leia e comente", ordenou-me o eterno vereador Messias Gonzaga, ao me entregar, autografado com uma generosa mensagem, o seu livro "Um Contador de Histórias". Demorei um tempo para fazer a leitura, que terminei hoje. Confesso,  a obra suplantou as minhas expectativas. Imaginava, é claro, algo divertido e boas reminiscências, mas não nesse tanto. A começar pelo prefácio (uma aula), magistral, da lavra do Doutor Clovis Ramaiana, notável pesquisador, escritor e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana.

A primeira parte deste livro rápido e gostoso de ler é simplesmente sensacional. Messias faz um passeio pelas veredas do sertão nordestino, nas bandas da Serra Talhada, interior pernambucano, fazendo rir desde o "vixe, que menino feio!" disparado pela avó dele, ao nascimento do neto na zona rural daquele município, ao beija-flor que ele, na inconsciência tão peculiar da infância, quase adolescência, liquidou a badogue, acreditando, por promessa "fake" de adulto, que engolindo o coração do pequeno pássaro, se tornaria um sniper (super-atirador de elite, imaginem). 

É um universo repleto de personagens curiosos, com seus codinomes típicos desta nossa terra de sol a pino. Somos apresentados a seu primo Zé de Tia Maria; aos tios Zé Menino, Neco Rosa e Nuca (estes últimos, marido e mulher); ao avô Zé Tomé e ao simpaticíssimo  Mané Cuia, o festeiro. Impossível conter a gargalhada diante das quedas que Messias levou da jumentinha que lhe concedia privilégios, permitindo a ele, e somente a ele, que a montasse (houvessem sido  coices, minha imaginação certamente vagaria por suspeitas outras). 

As histórias do aluguel de bicicletas - e mais quedas -, com destaque para a que "atendia" pelo nome Sayonara. O vexame no circo ao ser descoberto entre as lonas querendo assistir ao espetáculo sem pagar (por falta de grana, mesmo) e os desafios que topou para ver quem comia um cuscuz inteiro sem engasgar e sugar duas bandas de um limão sem fazer careta. São causos, reais, que além de fazer o leitor não querer parar de rir, remete a todos nós, com mais de 50 anos, a uma viagem por nossa própria infância. 

A parte política do livro não apenas remonta com riqueza de detalhes e realismo a trajetória do jovem e promissor líder estudantil, mais tarde excelente vereador de cinco mandatos na maior cidade do interior da Bahia. Messias relembra momentos da história recente do Poder Legislativo sem perder o humor dos capítulos anteriores em que conta os primórdios de sua família. 

Rememora passagens engraçadíssimas dos bastidores da Câmara, como a "ocupação" de um dos seus cômodos para que lhe servisse de gabinete, a "troca de cães" com Antônio Carlos Coelho e as "vias de fato" com  o colega José Francisco do Amaral. O relato de como ele e mais três colegas foram detidos pela PM enquanto defendiam motoristas em greve e o "ataque às formigas", que eu mesmo escrevi, já editor de política do extinto "Feira Hoje", são outras lembranças muito interessantes a fazer parte da narrativa.  

Em seu livro, o ex-vereador esmiuça a sua relação com prefeitos, de Colbert Martins da Silva a Zé Ronaldo, todos sob a sua oposição e permanente fiscalização. Justiça lhe seja feita, Messias não criou tantas encrencas para os governantes que passaram por seu "corredor polonês" na Câmara por perseguição ou problema de ordem pessoal. A origem de suas críticas sempre muito fortes era o modelo de gestão, de ideias e de ideais, do qual não compactuava. Fazia denúncias e mais denúncias. Quando não havia provas, ele se valia de suspeitas e indícios. Não passava 30 dias sem movimentar a mídia com algo impactante. 

Seguramente por conta dessa postura, de atacar as políticas, não as pessoas,  mesmo tendo realizado ferrenha e feroz divergência contra todas as administrações municipais nos 22 anos em que esteve vereador, Messias não coleciona inimigos.  No livro, aliás, ele se refere aos líderes contra os quais guerreou, com toda a elegância que lhe é peculiar,  respeito e até deferência, reconhecendo qualidades que inegavelmente possuem. Nem mesmo Clailton Mascarenhas, que herdou o Governo do falecido José Falcão da Silva e se tornou o prefeito mais combatido por Gonzaga, lhe guardou mágoas, como registra o autor em uma das suas histórias. 

Os jornais feirenses dos anos 1980 e 1990 tem um farto conteúdo, em seu noticiário político, sobre Messias Gonzaga. Não há, com certeza absoluta, nenhum prefeito ou governador que tenha sido mais mencionado que ele, nas colunas de bastidores "Etc & Tal",  "Observatório" e "Ponto & Vírgula", das mais consagradas dos impressos locais.  Isto porque, além de sua produção na Tribuna da Câmara, o homem frequentava as redações quase tanto quanto os repórteres dos veículos, levando informações e, principalmente, sua opinião sobre os fatos de maior repercussão. 

Não lhe escapava absolutamente nada, do "imperialismo americano" que tanto combate, aos pormenores do Palácio Maria Quitéria, lá estava o vereador a comentar. Radialista durante um período, chegando a trabalhar na maior emissora do Estado, a Sociedade da Bahia, ele bem sabia a importância da divulgação de suas iniciativas e explorava isto com muita competência, sendo ele mesmo o seu próprio e eficiente assessor de comunicação.

Messias ostenta o importante título de pentacampeão das eleições para o Legislativo. Tantas eleições, obtidas de forma consecutiva e em duas delas sendo o mais votado dentre todos os candidatos, não é pouca coisa, nem feito de qualquer um. Saliente-se, sem recorrer à pratica de "fisiologismo", para usar uma palavra que ele utiliza sempre ao se referir à famosa troca de favores entre político e eleitor. Muito menos, gasto de dinheiro com cabos eleitorais ou doações, quaisquer que sejam, para obter o voto. Até porque, o comunista tem fama, não tenho certeza se justificada, de "mão fechada", daqueles que  atravessam o rio a nado e conseguem manter intacto o Sonrisal sem embalagem que leva em uma das mãos.   

Tive a honra de redigir, em manchete do "Tribuna Feirense" e página inteira do primeiro caderno, a despedida de Messias do parlamento, com um resumo de sua rica passagem pela Câmara. Primeira vez, provavelmente, no jornalismo baiano, talvez do Brasil inteiro, que um diário registra com tamanho destaque o fato de um vereador  não obter a reeleição. Foi uma das reportagens das que mais me orgulho, dentre tantas que fiz. Uma justa homenagem àquele que é reconhecido, por mim e por todos os profissionais de imprensa que acompanham a política local nas últimas três a quatro décadas, como um dos melhores que passaram pela Casa em toda a sua história.

Valdomiro Silva é jornalista

quinta-feira, 15 de julho de 2021

O CORAÇÃO NOTURNO DE RAUL SEIXAS

 

Pode parecer lugar comum. Que seja, não importa. Mas dizer que a música de Raul Seixas é imortal nunca é demais. Um misto de poeta e profeta (um de seus álbuns tem o sugestivo título Profecias), ele conseguia falar do passado, do presente e do futuro com a mesma naturalidade. Nesta quinta-feira (15) recebi o áudio com uma dessas pérolas de Raul, enviado direto de Itabuna, minha terceira pátria, pela jornalista Vera Rabelo. E vamos combinar que nesses tempos de pandemia e isolamento social, amanhecer com toda a natureza nos desejando um bom dia e, ainda, com um leve toque de poesia, é tudo que precisamos. (Madalena de Jesus) 


Amanhece, amanhece, amanhece

Amanhece, amanhece o dia

Um leve toque de poesia

Com a certeza que a luz

Que se derrama

Nos traga um pouco

Um pouco

Um pouco de alegria

A frieza do relógio

Não compete com a quentura do meu coração

Coração que bate 4 por 4

Sem lógica

E sem

E sem nenhuma razão

Bom dia Sol

Bom dia, dia

Olha a fonte

Olha os montes

O horizonte

Olha a luz que enxovalha e guia

A Lua se oferece ao dia

E eu

E eu guardo cada pedacinho de mim

Prá mim mesmo

Rindo louco

Louco

Mais louco

Louco de euforia

Bom dia Sol

Bom dia, dia

Eu e o coração

Companheiros de absurdos no noturno

No soturno

No entanto, entretanto

E portanto...

Bom dia Sol

Bom dia Sol

Bom dia Sol


quinta-feira, 8 de julho de 2021

TESTEMUNHO DE FÉ: A FORÇA DOS PEQUENOS GRANDES MILAGRES

 


Por Bárbara Gomes

Poucas pessoas sabem, com detalhes, o histórico de minha filha, Bárbara, com a maternidade. Em maio, o mês das mães e de Maria, passamos pela barreira da pandemia para atender um convite do Padre Pedro para que ela compartilhasse, durante a missa, os pequenos grandes milagres vividos ao dar à luz os meus dois netos. Foi um testemunho de fé que emocionou todos que se encontravam na Igreja de Senhor do Bonfim, no Cruzeiro. Inclusive eu, que naquele momento, ao lado de meu genro Bruno, dividia o colo com Lucas e Bruna, imensamente agradecida a Nossa Senhora Aparecida pelas bênçãos em nossas vidas. Hoje minha filha e mais duas mães atípicas mantêm a Rede de Apoio Pequenos Grandes Milagres. (Madalena e Jesus)  

Há 8 anos engravidei do meu primeiro filho. Foi quando me tornei devota de Nossa Senhora Aparecida. Tive um pós-parto bem complicado, pois desenvolvi atonia uterina, uma hemorragia que só foi detectada quando eu já estava no quarto, o que aumentou ainda mais o meu risco de morte. Sim, eu corri esse risco e sequer sabia o que estava acontecendo! Dentro do quarto, eu estava com a minha mãe, gritando de dor, com a barriga distendendo em questão de segundos, enquanto a equipe de Enfermagem tentava localizar a obstetra que havia feito meu parto. 

No auge da dor, a porta do quarto se abriu e entrou uma jovem mulher negra, que se apresentou como Ana, vestida com um jaleco do hospital. No mesmo instante segurou a mão da minha mãe e perguntou se ela acreditava em Nossa Senhora; a minha mãe, que já não conseguia mais segurar as lágrimas, respondeu com um sinal indicando que sim e pediu àquela moça que me ajudasse. Ela colocou a mão sobre minha cicatriz e eu consegui senti sair coágulos de sangue que já estavam se acumulando dentro da minha barriga. Eu poderia, naquele momento, ter uma infecção generalizada. Ela me olhou, deu um sorriso e disse: vai ficar tudo bem!

Nós nunca mais encontramos Ana. Quando a procuramos, ela não estava mais no plantão; minha mãe procurou em todos os setores daquele hospital e aquela mulher simplesmente não foi localizada! 

Passados os anos eu engravidei novamente, dessa vez uma menina. Eu estava realizada, afinal de contas teria um casal de filhos como sempre sonhei. No segundo trimestre de gestação nós descobrimos, da pior maneira possível, que nossa filha tinha uma má formação cerebral. Inicialmente nos foi dito que ela não sobreviveria; se sobrevivesse, teria inúmeras sequelas e que além dela eu também corria risco de vida, e então nos foi dado o poder de escolha, caso quiséssemos interromper a gravidez. Assim, de forma fria e desumana, foi um verdadeiro balde de gelo para um casal que tinha acabado de fazer o enxoval da princesa da família. Nós não sabíamos absolutamente nada além do pior, então não conseguíamos esperar algo de bom de tudo isso, nossa única opção era sofrer.

Nós viemos conversar com Padre Pedro, ele abençoou nossa menina e mesmo não sendo médico, me mostrou que a medicina é feita pelo homem, que o homem é feito por Deus e para Deus nada é impossível! Depois da nossa conversa, eu consegui enxugar minhas lágrimas e ir atrás do conhecimento. Foi então que os milagres começaram a acontecer... Sim, vivi muitos milagres, não me considero uma privilegiada por isso, Deus não me escolheu, eu é que escolhi entender e aceitar os milagres da maneira em que Ele estava apresentando a mim!

Nessa caminhada, pude sentir a presença de Nossa Senhora ao meu lado em diversos momentos. Um deles, talvez o mais marcante, foi quando eu estava em outro estado, para fazer uma cirurgia intrauterina, e em meio a tantos médicos homens dentro do centro cirúrgico fechei meus olhos e pedi em silêncio que Ela passasse à frente e intercedesse por mim. Foi quando a única médica mulher, que estava distante de mim, se aproximou e me acolheu dizendo: eu estou aqui!  

Eu não poderia ter mais filhos... lembram da atonia uterina que mencionei anteriormente? Então, isso seria um impedimento para eu parir novamente, e eu dei a vida.

Minha filha não sobreviveria, e sobreviveu!

Ela teria inúmeras sequelas e TEM, mas isso não a torna inferior a ninguém, ela nos faz feliz do jeitinho que é!

Hoje tenho uma fé inabalável e estou aqui para dizer a vocês que milagres acontecem todos os dias e a todo momento, não espere algo grandioso, veja o poder de Deus nas pequenas coisas e seja grato SEMPRE.

Minha filha foi consagrada a Nossa Senhora Aparecida, porque Ana, aquela que me visitou no quarto do hospital no dia 19/07/2013 não precisava ser localizada pois ela me disse naquele momento que tudo ficaria bem! E sim, está tudo bem!

Lucas está prestes a completar 8 anos e é o melhor irmão que Bruna Aparecida, já com 2 anos e 2 meses poderia ter! 


Hana Bárbara de Jesus Gomes é Arquiteta, Engenheira de Segurança do Trabalho e Professora