quinta-feira, 15 de julho de 2021

O CORAÇÃO NOTURNO DE RAUL SEIXAS

 

Pode parecer lugar comum. Que seja, não importa. Mas dizer que a música de Raul Seixas é imortal nunca é demais. Um misto de poeta e profeta (um de seus álbuns tem o sugestivo título Profecias), ele conseguia falar do passado, do presente e do futuro com a mesma naturalidade. Nesta quinta-feira (15) recebi o áudio com uma dessas pérolas de Raul, enviado direto de Itabuna, minha terceira pátria, pela jornalista Vera Rabelo. E vamos combinar que nesses tempos de pandemia e isolamento social, amanhecer com toda a natureza nos desejando um bom dia e, ainda, com um leve toque de poesia, é tudo que precisamos. (Madalena de Jesus) 


Amanhece, amanhece, amanhece

Amanhece, amanhece o dia

Um leve toque de poesia

Com a certeza que a luz

Que se derrama

Nos traga um pouco

Um pouco

Um pouco de alegria

A frieza do relógio

Não compete com a quentura do meu coração

Coração que bate 4 por 4

Sem lógica

E sem

E sem nenhuma razão

Bom dia Sol

Bom dia, dia

Olha a fonte

Olha os montes

O horizonte

Olha a luz que enxovalha e guia

A Lua se oferece ao dia

E eu

E eu guardo cada pedacinho de mim

Prá mim mesmo

Rindo louco

Louco

Mais louco

Louco de euforia

Bom dia Sol

Bom dia, dia

Eu e o coração

Companheiros de absurdos no noturno

No soturno

No entanto, entretanto

E portanto...

Bom dia Sol

Bom dia Sol

Bom dia Sol


quinta-feira, 8 de julho de 2021

TESTEMUNHO DE FÉ: A FORÇA DOS PEQUENOS GRANDES MILAGRES

 


Por Bárbara Gomes

Poucas pessoas sabem, com detalhes, o histórico de minha filha, Bárbara, com a maternidade. Em maio, o mês das mães e de Maria, passamos pela barreira da pandemia para atender um convite do Padre Pedro para que ela compartilhasse, durante a missa, os pequenos grandes milagres vividos ao dar à luz os meus dois netos. Foi um testemunho de fé que emocionou todos que se encontravam na Igreja de Senhor do Bonfim, no Cruzeiro. Inclusive eu, que naquele momento, ao lado de meu genro Bruno, dividia o colo com Lucas e Bruna, imensamente agradecida a Nossa Senhora Aparecida pelas bênçãos em nossas vidas. Hoje minha filha e mais duas mães atípicas mantêm a Rede de Apoio Pequenos Grandes Milagres. (Madalena e Jesus)  

Há 8 anos engravidei do meu primeiro filho. Foi quando me tornei devota de Nossa Senhora Aparecida. Tive um pós-parto bem complicado, pois desenvolvi atonia uterina, uma hemorragia que só foi detectada quando eu já estava no quarto, o que aumentou ainda mais o meu risco de morte. Sim, eu corri esse risco e sequer sabia o que estava acontecendo! Dentro do quarto, eu estava com a minha mãe, gritando de dor, com a barriga distendendo em questão de segundos, enquanto a equipe de Enfermagem tentava localizar a obstetra que havia feito meu parto. 

No auge da dor, a porta do quarto se abriu e entrou uma jovem mulher negra, que se apresentou como Ana, vestida com um jaleco do hospital. No mesmo instante segurou a mão da minha mãe e perguntou se ela acreditava em Nossa Senhora; a minha mãe, que já não conseguia mais segurar as lágrimas, respondeu com um sinal indicando que sim e pediu àquela moça que me ajudasse. Ela colocou a mão sobre minha cicatriz e eu consegui senti sair coágulos de sangue que já estavam se acumulando dentro da minha barriga. Eu poderia, naquele momento, ter uma infecção generalizada. Ela me olhou, deu um sorriso e disse: vai ficar tudo bem!

Nós nunca mais encontramos Ana. Quando a procuramos, ela não estava mais no plantão; minha mãe procurou em todos os setores daquele hospital e aquela mulher simplesmente não foi localizada! 

Passados os anos eu engravidei novamente, dessa vez uma menina. Eu estava realizada, afinal de contas teria um casal de filhos como sempre sonhei. No segundo trimestre de gestação nós descobrimos, da pior maneira possível, que nossa filha tinha uma má formação cerebral. Inicialmente nos foi dito que ela não sobreviveria; se sobrevivesse, teria inúmeras sequelas e que além dela eu também corria risco de vida, e então nos foi dado o poder de escolha, caso quiséssemos interromper a gravidez. Assim, de forma fria e desumana, foi um verdadeiro balde de gelo para um casal que tinha acabado de fazer o enxoval da princesa da família. Nós não sabíamos absolutamente nada além do pior, então não conseguíamos esperar algo de bom de tudo isso, nossa única opção era sofrer.

Nós viemos conversar com Padre Pedro, ele abençoou nossa menina e mesmo não sendo médico, me mostrou que a medicina é feita pelo homem, que o homem é feito por Deus e para Deus nada é impossível! Depois da nossa conversa, eu consegui enxugar minhas lágrimas e ir atrás do conhecimento. Foi então que os milagres começaram a acontecer... Sim, vivi muitos milagres, não me considero uma privilegiada por isso, Deus não me escolheu, eu é que escolhi entender e aceitar os milagres da maneira em que Ele estava apresentando a mim!

Nessa caminhada, pude sentir a presença de Nossa Senhora ao meu lado em diversos momentos. Um deles, talvez o mais marcante, foi quando eu estava em outro estado, para fazer uma cirurgia intrauterina, e em meio a tantos médicos homens dentro do centro cirúrgico fechei meus olhos e pedi em silêncio que Ela passasse à frente e intercedesse por mim. Foi quando a única médica mulher, que estava distante de mim, se aproximou e me acolheu dizendo: eu estou aqui!  

Eu não poderia ter mais filhos... lembram da atonia uterina que mencionei anteriormente? Então, isso seria um impedimento para eu parir novamente, e eu dei a vida.

Minha filha não sobreviveria, e sobreviveu!

Ela teria inúmeras sequelas e TEM, mas isso não a torna inferior a ninguém, ela nos faz feliz do jeitinho que é!

Hoje tenho uma fé inabalável e estou aqui para dizer a vocês que milagres acontecem todos os dias e a todo momento, não espere algo grandioso, veja o poder de Deus nas pequenas coisas e seja grato SEMPRE.

Minha filha foi consagrada a Nossa Senhora Aparecida, porque Ana, aquela que me visitou no quarto do hospital no dia 19/07/2013 não precisava ser localizada pois ela me disse naquele momento que tudo ficaria bem! E sim, está tudo bem!

Lucas está prestes a completar 8 anos e é o melhor irmão que Bruna Aparecida, já com 2 anos e 2 meses poderia ter! 


Hana Bárbara de Jesus Gomes é Arquiteta, Engenheira de Segurança do Trabalho e Professora 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

UM MOLEQUE SESSENTÃO



Por Marcílio Costa* 

Parece um filme em velocidade aumentada quando a gente se da conta que o tempo andou depressa demais. O sentimento é meio confuso, como se não acreditasse que o ontem foi há tanto tempo. A memória ainda guarda nitidamente as imagens do moleque que subia e descia as ruas poeirentas e pedregosas de Jaguara, um lugar que me deixou muitas coisas boas da minha infância, mas que também me remete a dificuldades, principalmente financeiras. 

Ainda bem que a vida é feita de sonhos. Muitas vezes sonhos tão simples quando vistos depois em outra perspectiva. Sonhar em assistir televisão hoje parece tão prosaico, principalmente depois de passar mais de metade da minha vida trabalhando numa emissora de TV. Mas esse era um dos meus sonhos na velha Jaguara sem energia elétrica até os meus 8 anos de idade. Ah, como esquecer a cena da primeira noite que a luz se acendeu como mágica e deixou enlouquecidos os cachorros da pequena vila ao verem a noite virar dia. Não paravam de latir. Parece cena de filme que não sai da minha cabeça toda vez que me pego tratando de algo muito importante em meu trabalho de FAZER televisão.

Como esquecer a chegada dos circos mais vagabundos que já conheci em minha vida e que eram a alegria daquele menino que corria atrás do palhaço toda a tarde enquanto ele saia pela ruas anunciando o espetáculo daquela noite:

- Hoje tem espetáculo? 

E a molecada respondia gritando:

- Tem sim, senhor!

- Então arrocha, negrada, emendava o palhaço se equilibrando em cima das pernas de pau nas ruas cheias de pedra enquanto anunciava o horário da "função" naquela noite.

Era uma alegria, embora eu fosse proibido por meu pai de deixar o palhaço carimbar meu braço, o que garantiria o direito de entrar de graça no circo. "Isso é coisa moleque."

E os "moleques" foram o motivo de uma visita do delegado a minha mãe para recriminar porque ela permitia que eu brincasse com esses "moleques" depois que acertamos uma bolada na janela de uma casa. E minha mãe, com sua sabedoria, encerrou a conversa rapidamente:

- Se ele não brincar com os moleques, vai brincar com quem?

Os "moleques" na verdade eram meus companheiros dos babas, das pescarias no rio Jacuípe, na montagem do balanço na árvore. Enfim, personagens de uma infância pobre, mas cheia de histórias e alegrias num mundo que não ofereceu oportunidade para a maioria deles.

É com o espírito desse eterno moleque de Jaguara que chego aos 60 anos. Muitos daqueles sonhos de lá de trás se tornaram realidade. Muita coisa que vivi e vivo foi muito mais do que eu sonhava. Deus foi muito generoso comigo. É confiando sempre na sua generosidade que continuo aqui com meus sonhos ao lado da minha família e dos amigos. 

Obrigado, Senhor!

Marcílio Costa é jornalista

terça-feira, 29 de junho de 2021

A RENDEIRA

 



A mulher lá no fundo da praça

Sentada, deserta, terna paisagem compunha

Sobre o colo imensa almofada

Estranha barriga lhe surgia

Dançavam bilros

Bailavam alfinetes

Orquestra imensa a mulher regia

Tramas infinitas

Singelos cenários

E a mulher lá no fundo da praça 

Labirintos tecia

O tempo triste corria

O vento a canção bramia

E a mulher lá no fundo da praça

Caminhos infindos percorria

Passava boi

Passava boiada

Aboios medonhos

Badalos sinistros

Prelúdio de morte em canção sombria

E a mulher lá no fundo da praça

Impávida, inabalável

Tamborilhava bilros

Colhia à mão cheia notas musicais

Doce algaravia!

E eu de longe espiando tudo

E a rendeira castanholando

Completamente me rendia

Até hoje me indago

Como aquela mulher lá no fundo da praça

Imersa em solidão

Desenhava rios de partitura

E cobria minha infância

Com toalhas, colchas e lençóis

De singelas texturas?

Bem mais tarde tudo a mim se revelaria:

A mulher de dupla barriga

Naquele instante a vida paria.


Jailton Batista, jornalista e escritor 

domingo, 20 de junho de 2021

ELAS, ELAS E & ELAS

 


                    Sabe aquela mania de recortar jornal e guardar textos interessantes? Pois é, ainda tenho. Foi assim que reuni muitas pérolas dos meus inesquecíveis amigos Hugo Navarro e Egberto Costa.     Mas sobre esta crônica que segue eu cometi um grave erro: não anotei a data da publicação. Pela temática, deve ter sido no mês de março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher. Sei              apenas que ainda fazia parte da grande – em todos os sentidos – equipe do Jornal Folha do Estado. O autor é o cronista da cidade Jânio Rêgo (*). 


Você tem que escrever sobre a mulher, determina Célia Farias, assim que entro na redação aqui do Folha. Há muito capitulei diante da doce ditadura feminina e obedeço a maioria das ordens partidas delas. E no caso, como posso me negar a Célia, se é ela que, todas as manhãs, espera, pacientemente, eu parir estas linhas para serem diagramadas neste espaço?  

Mas escrever o que?, me pergunto angustiado, diante da tela em branco do computador, enquanto adentra a sala a nossa telefonista diplomata Karine, com aquele andar que só elas têm. Sobre as alegrias que algumas nos proporcionam como amantes, mãe, amigas? Sobre a tristeza de vê-las dizer adeus? Ou quem sabe, talvez sobre os filhos e filhas que já nos deram? – penso, enquanto olho Aidil, nossa ágil digitadora, caminhar lento, barrigona de quatro meses, a me lembrar o poema de bandeira sobre as grávidas. Desisto, desisto de ir por esse caminho longo demais, onde me faltariam palavras para dizer da dor da distância das filhas que vão se tornando mulheres, mas, no entanto, estão sempre perto na geografia do nosso amor. 

Quem sabe sobre a amizade, a terna e segura amizade feminina, aonde deságuam mágoas de amor nunca curadas? Não, não, é romântico demais para um rude como eu, que às vezes mal cumprimenta nossa diligente Gel, controladora de gastos e notas fiscais, no rosto de quem nunca falta um sorriso amável. Talvez sobre o trabalho? Sobre as heroínas? Sobre o bom humor com o qual elas enfrentam as vicissitudes, assim como faz nossa diretora Margareth? Que nada, é muita pretensão para minha pouca capacidade de juntar letras e raciocínios, virtude que encontro na jornalista Madalena de Jesus, não em mim, um pobre cronista diariamente desesperado à cata de assunto para preencher a lacuna do tempo e do espaço.

Melhor não escrever nada de especial sobre elas nesse dia. Quem sabe ofertar uma rosa? É, é isso mesmo, ofertar uma rosa, uma piegas rosa vermelha diante de um altar individual e imaginário onde estejam representadas a nossa origem e a nossa felicidade de viver. Uma rosa para agradecer a todas elas, mulheres.

*Jânio Rêgo é jornalista 


segunda-feira, 14 de junho de 2021

BRONCAS E INCENTIVOS

 


Por Valdomiro Silva*

Ainda guardo, em meus arquivos aquele texto de pouco mais de 15 linhas. Foi o primeiro grande estímulo para minha carreira profissional e, possivelmente, o meu “troféu” mais importante, dos poucos que ganhei nesses quase 20 anos de jornalismo. Aprendi, com aquela manifestação de uma colega que, àquela altura, em 1984, já era uma das expressões da imprensa local, o quanto é significativo uma mensagem de incentivo, para alguém que está começando.

A ainda jovem, porém competente repórter policial – a melhor que já vi atuar em Feira de Santana – era uma das pessoas que eu mais observava na redação. O Feira Hoje possuía, a propósito, um time de primeira qualidade. Figuravam no “Feirinha”, à época, além dela, jornalistas do nível de Jailton Batista, Hélder Alencar, Anchieta Nery, Reginaldo Pereira, Leda Albernaz, Jackson Soares, Jozailto Lima.

Foram esses, e mais alguns outros a exemplo de Zadir Marques Porto, Edson Borges, Raimundo Lima e Marcílio Costa, os colegas com quem dei os primeiros passos. Costumo dizer que a formação do jornalista – deve ser assim em outras profissões – depende, fundamentalmente, da qualidade da redação que ele frequenta em seus primeiros momentos de prática.

Se você está em um ambiente que não inspire respeito, onde as pessoas não exercem o jornalismo em sua plenitude, são grandes as chances de tornar-se um profissional limitado, cheio de vícios. Se, por outro lado, tem a sorte de encontrar um grupo de bom nível e solidário, o seu desenvolvimento depende apenas de seus esforços.

Hoje, sou eternamente grato a Hélder Alencar, que franzia a testa, piscava os dois olhos ao mesmo tempo, tirava e botava o indefectível cigarro na boca e recomendava: “meu filho, escreve de novo”, quando observava que eu havia lhe entregue um texto ruim. Nunca vou esquecer, também, dos telefonemas de Raimundinho, quando trabalhamos juntos na Assessoria de Imprensa da Câmara. Ele ligava, às vezes bem tarde, para reclamar de uma informação incompleta, de uma pontuação errada. Lembro-me bem dos protestos de Anchieta Nery, gaguejando muito mais do que hoje em dia, e aos berros: “Serrinha, escreve essa droga direito”.

Todos eles tiveram um papel definitivo em minha vida. Perderam seu precioso tempo e usaram seu poder de avaliação para me dedicar uma atenção que poucos dispõem, hoje em dia, nas redações da vida. Digo sempre aos mais jovens que agradeçam cada bronca que venham a receber. Quando alguém mais experiente lhe corrige, isto significa que há quem esteja preocupado em que você aprenda.

Retornando ao tema central desse emaranhado, tenha certeza, caro leitor, seja por escrito, falado ou de qualquer outra forma, o incentivo, realmente, é algo decisivo. Não basta o indivíduo estar convicto de que tem potencial para ir longe. É necessário contar com companheiros que, além de orientar corretamente, dêem o bom exemplo profissional, acompanhem seu trabalho com interesse, opinem e, quando for o caso, elogiem.

Obrigado, amiga Madalena de Jesus, pelas 15 linhas de incentivo.

Em tempo: Esse texto foi escrito em 2004.

*Jornalista, radialista e servidor efetivo da Câmara Municipal, lotado na Assessoria de Comunicação (Ascom), foi secretário municipal de Comunicação Social e tem uma trajetória profissional com passagens nos jornais Feira Hoje, Diário da Feira e Tribuna Feirense, onde um dos fundadores deste último. Também atuou nas emissoras de rádio Sociedade, Povo e Subaé.



quarta-feira, 10 de março de 2021

MINHA CASA, MEU LUGAR

 


Em meio a toda agonia provocada pela pandemia, leia-se o isolamento social, a tensão diante da necessidade de ir a algum lugar público, a saudade das pessoas queridas, o desejo de voltar à vida normal – ninguém sabe se ou quando acontecerá – eu descobri como é maravilhoso estar/ficar em casa. Eu costumo dizer que essa é a melhor parte de tudo que estamos vivendo nos últimos 12 meses. 

Os grupos de whatsapp, alguns antes bem chatos, passaram a ser parceiros da labuta diária. Nem sempre para trabalhar, é bem verdade. Os telefonemas ganharam uma importância imensurável nesse período. Por mais incrível que pareça, o distanciamento aproximou os amigos geograficamente distantes e até trouxe de volta velhos companheiros dessas mais de 40 décadas de jornalismo.

Mas de todas as vivências a mais prazerosa, sem dúvida, foi a mudança de minha relação com a minha casa. Cuidar do lugar onde eu vivo deixou de ser uma obrigação diária, ou o quarto turno de trabalho, como eu definia. Sabe aquela história de compensação? Acho que é isso. Pelo fato de estar em casa mais tempo, ou melhor, todo o tempo, consigo manter tudo em ordem. Pelo menos até Lucas e Bruna chegarem...

E foi pensando no quanto me sinto feliz em fazer da minha morada um espaço sempre coberto de energias boas, não exatamente um primor de decoração e beleza, mas de conforto e bem-estar, que eu lembrei de um texto de Carlos Drumond de Andrade, com o sugestivo título “Casa Arrumada”. E eu quero arrumar a minha casa todos os dias, do meu jeito, com a minha marca. Afinal, é o meu lugar.

“Casa arrumada é assim:

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.

Sofá sem mancha?

Tapete sem fio puxado?

Mesa sem marca de copo?

Tá na cara que é casa sem festa.

E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.

Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,

passaporte e vela de aniversário, tudo junto…

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.

A que está sempre pronta pros amigos, filhos…

Netos, pros vizinhos…

E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia. Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias…

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…

E reconhecer nela o seu lugar.” 

(Carlos Drumond de Andrade)