quarta-feira, 18 de outubro de 2017

HERANÇAS AFRICANAS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO


Diálogos entre Brasil e Angola, o português d’aquém e d’além-mar é o título do livro que será lançado nesta quinta-feira (19), às 16h, no hall da reitoria da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Organizado pelas professoras Eliana Pitombo Teixeira e Silvana Silva de Farias Araujo, traz o selo da UEFS Editora e tem 268 páginas.

Os trabalhos reunidos na obra volume se propõem observar o que resultou do contato do português com línguas africanas no Brasil e em Angola. A obra é também um elogio à beleza e à força da mãe África.

Para as organizadoras, compreender o chamado português brasileiro passa necessariamente pela consideração da presença, no Brasil colonial, de povos africanos e suas línguas, particularmente dos escravos trazidos da África Central, onde se localizam os atuais países da República do Congo e Angola. É importante ressaltar que a presença desses povos foi numerosa nos anos Seiscentos, exatamente no período em que estava começando a se formar o português brasileiro.

Eliana Pitombo Teixeira é doutora em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia e mestre em Letras e Linguística pela mesma Universidade. Professora Adjunta aposentada da UEFS, tendo atuado na Graduação e Pós-Graduação. Concebeu o projeto de pesquisa Em Busca das Raízes do Português Brasileiro, cujo objetivo é comparar o português falado em Luanda-Angola com o português vernacular brasileiro.

Silvana Silva de Farias Araujo é professora Adjunta da Universidade Estadual de Feira de Santana. Atua no PPGEL-MEL/UEFS, onde coordena o Mestrado em Estudos Linguísticos, desde o ano de 2016.  Também coordena e participa de projetos de pesquisas sociolinguísticas voltados à formação do português brasileiro. Foi presidente da Associação Brasileira de Estudos Crioulos (ABECS), durante um biênio.

Socorro Pitombo, jornalista

terça-feira, 3 de outubro de 2017

MULHERES E MEMÓRIAS



Foi com surpresa que que vi o meu nome incluído no Projeto Feira de Memórias, realizado pelo Colégio Gênesis. Sou extremamente agradecida pela lembrança em tão edificante trabalho, que demonstra o compromisso da instituição com a formação de jovens e com a educação, um dos pilares básicos da sociedade. Nem é preciso dizer que fiquei muito feliz. Afinal, quem não ficaria, com um reconhecimento tão significativo?

Com o tema Mulheres: fortes na vida, silenciadas na história, o projeto traz à baila as questões que envolvem a mulher, tão pertinentes e discutidas nos dias atuais. É certo que contabilizamos muitas conquistas. A formação profissional foi o ponto de partida. Hoje em dia toda mulher cursa uma faculdade, procura uma profissão. A prova disso é que pesquisa feita pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) indica que há mais estudantes do sexo feminino.

Mas também é certo que ainda temos um longo caminho a percorrer, no que diz respeito à igualdade de condições entre homem e mulher, principalmente quanto à inserção no mercado de trabalho.  Há séculos o ser humano se pergunta por que as sociedades diferenciam a tal ponto os dois sexos, em matéria de hierarquia e funções. É uma questão que ainda precisa de respostas.

Como diz a escritora espanhola Rosa Montero, “o mais assombroso, contudo, é comprovar que sempre houve mulheres capazes de sobrepor-se às mais penosas circunstâncias, mulheres criadoras, guerreiras, políticas, aventureiras, cientistas, que tiveram a habilidade e a coragem de escapar, quem sabe como, a destinos tão estreitos como um túmulo.” Sábias palavras.

Em seu livro Histórias de Mulheres, ela traça o perfil de mulheres incríveis, como Camile Claudel, escultora genial que acabou os seus dias esquecida em um manicômio sombrio; Frida Kahlo, pintora mexicana presa a uma cama, seu altar sagrado; Agatha Christie, escritora famosa pelas tramas policiais, que perdeu, junto com a memória, a lembrança do público que a aplaudia; e Aurore, que assinava seus artigos com nome masculino, George Sand, para ser respeitada.

Ainda lembrando Rosa Montero, o fato é que quanto mais você adentra no mar remoto do feminino, mais mulheres encontra: fortes ou sutis, gloriosas ou insuportáveis, mas todas interessantes. São essas incontáveis facetas do universo feminino que justifica um projeto como Feira de Memórias. Porque é inegável a contribuição da mulher para a construção da história e a escola é, sem dúvida, o espaço ideal para mostrar isso ao mundo.

Socorro Pitombo é feirense, jornalista e uma das homenageadas do Projeto Feira de Memórias

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A BRASILIDADE DE TARSILA IMPRESSA NAS ROUPAS DA OSKLEN





 Fotos: Divulgação

A recente coleção-cápsula da marca Osklen nos inspirou a pensar sobre a roupa, a arte, a potência do estilo e a identidade nacional. Seduzido pelo corpo disforme de Abaporu (1928), pelas disposições cromáticas de Palmeiras (1925) e pela exorbitância das formas de Antropofagia (1929, que traz a junção do "Abaporu" com "A Negra), Oskar Metsavaht conseguiu imprimir, mais uma vez, o seu DNA nas peças criadas em homenagem a esta grande artista brasileira da fase modernista que inspirou o movimento antropofágico, Tarsila do Amaral.

Os espectadores e fashionistas tiveram a oportunidade de conferir as roupas no dia 28 de agosto durante a São Paulo Fashion Week (SPFW), distribuídas entre vestidos, saiais, blusas, chemises, macacões e tops ajustados como corset; além de uma camisaria e calças clochard. Na cartela de cores, o branco, areia, caqui e o vermelho, e é claro, muita estampa. Entre os tecidos, destaque para o linho, a seda, algodão reciclado e couro de pirarucu e salmão. A silhueta apresentou formas geométricas em técnicas de moulage e alfaiataria. Entre os acessórios, chamou atenção a bolsa de madeira, lembrando uma maleta de pintura.

Para a criação das peças, o designer buscou se aproximar do grafismo dos traços puros dos desenhos e esboços, feitos com lápis ou nanquim pelas mãos da artista. E segundo Oskar, o maior desafio foi não interferir na obra de Tarsila. Eu quis manter o trabalho dela puro e então "imprimi-lo" em novas formas. O resultado tinha que ser algo novo com a expressão e a alma da arte dela e o design e estilo da Osklen”.

Nessa conjunção entre arte e moda, um tema em peculiar emerge com força e vitalidade: a identidade nacional. Não só Tarsila soube retratar muito bem um período do Brasil que se modernizava e toda sua urbanidade, com máquinas e trilhos, símbolos do novo tempo; bem como trouxe à tela temas tropicais brasileiros, exaltando a nossa fauna e flora. Assim, numa segunda fase do seu trabalho, que desencadeia o movimento antropofágico, a ideia era digerir as influências europeias numa arte eminentemente brasileira. Modernismo e antropofagia numa alusão à universalidade e localidade.

Também na marca de Oskar Metsavaht vislumbramos essa característica aparentemente paradoxal que mescla técnicas e influências globais com as peculiaridades de um fazer local, que se revelam numa expressão com estilo marcadamente brasileiro. Apropriando-se do lifestyle brasileiro, a grife une urbanidade e natureza, sofisticação e despojamento, orgânico e tecnológico, global e local. O próprio designer revela: “sempre acreditei em fazer da Osklen uma representação do estilo de vida do Brasil”.

E assim, de fato, tem sido ao longo desses quase 30 anos da marca. A Osklen é uma dessas grifes que revelam a potência da moda em expressar modos de ser e de estar, costumes e estilos de vida, tanto no âmbito pessoal, quanto numa dimensão coletiva. Nesse sentido, reiteramos que a moda tem a capacidade de constituir processos identitários, uma vez que reconhecemos que a identidade se constrói e se reconstrói constantemente no interior das trocas sociais. Como observa Denys Cuche, a identidade é sempre resultante de um processo de identificação. E sabemos que, sobretudo na contemporaneidade, os laços identificatórios perpassam potencialmente pela dimensão da visualidade de si e do outro, em que a composição da aparência (escolha das roupas, dos acessórios, da maquiagem e do corte de cabelo) tem sido um elemento fundamental, numa cultura estetizada ao extremo.

Nas vestes vaporosas, elegantes e cheias de vida de Oskar Metsavaht, a moda transpira o universo modernista e repleto de brasis de Tarsila do Amaral. O estilo de dois criadores se entrelaçam na composição de formas exitosas, como diria Luigi Pareyson, revelando os traços personalíssimos de cada um dos artistas e, ao mesmo tempo, as influências culturais e plásticas de cada uma das épocas em que produziram suas obras. Respeitosamente Metsavaht conserva o estilo Tarsila, ainda que seja capaz de traduzi-lo em novas configurações formais que, agora, para além da contemplação, podem ser vestíveis. Também aqui, o modo de formar singular do diretor criativo da Osklen se revela.

Ao recorrer a vida e obra de Tarsila do Amaral, a Osklen reforça os laços entre a moda e a arte, além de homenagear a cultura brasileira. Exibe de forma expressiva e contundente que tanto o universo fashion, quanto o ambiente artístico tem a capacidade de envolver e emocionar com suas belas e instigantes formas, bem como de nos reinscrever na nossa cultura, a cada vez remodelada, e de nos devolver a nossa identidade, a cada vez transformada e enriquecida pelas dinâmicas das experiências vividas.

Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

domingo, 17 de setembro de 2017

PROJETO FLORIR VIDA: A CHAVE É SEMEAR

































Quando eu fui convidada para lançar o Tabuleiro da Maria no Festival Florir Vida, em Mundo Novo, aceitei na hora. Um evento com esse nome! Logo me interessei pela história da idealizadora, Regina Cruz. Nome de rainha, guerreira do movimento negro da Bahia, personagem que transita entre a educação e a cultura com jeito de menina e determinação de mulher. A chave é semear. O festival é o momento da colheita.

As marcas do Florir Vida vão muito além do jardim em uma pracinha em frente à casa de Regina, no alto da Floresta – sugestivo nome do bairro onde ergueu moradia há uns bons anos. Vale lembrar que a sua casa é uma espécie de espaço comunitário, aberto à comunidade que responde ao projeto que semeia não apenas flores, mas iniciativas artísticas e culturais nas mais variadas modalidades.

Nas palestras, nos shows musicais, nas apresentações de dança ou teatro, tudo é mágico, com direito até a fada! E a energia correu solta em todos os momentos, em especial na apresentação do grupo Ilê Aiyê, com seus tambores, sorrisos e movimentos corporais contagiantes. Não foi à toa que o público encarou a chuva e o frio do início da madrugada. Ninguém arredou o pé das arquibancadas da concha até o final.

Entre os artistas locais, Mazinho (você já tomou café com farinha?), que vive em Feira de Santana, mas não desgruda da terra onde nasceu, companheiro de viagem, ao lado da amiga da vida inteira Sueli. Esta, pernambucana de nascimento, fez o percurso inverso. Deixou Feira de Santana e, por quase uma década, viveu a tranquilidade da pequena cidade que encanta pela simplicidade e o aconchego.

Foi nesse clima que apresentei o Tabuleiro da Maria. Primeiro, com uma palestra sobre a importância de semear boas notícias em um momento de tantas incertezas, usar a comunicação para o bem, escrever colorido (lembram Beatriz e Eveline?). Depois, o lançamento de fato, em praça pública, com momento de autógrafo e conhecimento de novas pessoas. Por fim, um almoço especial, no dia seguinte, na casa de Tassi, responsável por minha ida à cidade.

Mais do que uma anfitriã perfeita, ela foi uma luz naquele fim de semana inesquecível. Em sua casa, aconteceu o terceiro momento de celebração, à vida e ao Tabuleiro. Cercada de amigos, alguns já de outras vivências e outros recém-adquiridos, adiei o máximo possível a hora de retornar. O suficiente para assistir a passagem da cavalgada, próximo ao mercado, onde, durante a manhã, curtimos o clima da feira que vende tudo e tem espaço para todos.

Voltando ao ponto inicial, o Festival Florir Vida, decidi não citar nomes, para não correr o risco de esquecer algum. Mas um não dá para ficar de fora: Osni. Sua ternura me comoveu. Ficamos próximos poucos minutos, o tempo suficiente para algumas fotos. Mas quando vi duas meninas encenando a peça “Ser ou Ter”, em que toda a história é contada silenciosamente, eu pude ver a sua alma. E a semente que plantou germinando.

Madalena de Jesus

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O MEU DESEJO




Eu tentei
E te contei
O meu amor eu te dei
Mas eu, lamentavelmente, fracassei.

Agora você foi
E eu estou aqui,
Pedindo para você voltar...
E ficar.

Faria qualquer coisa
Para ter a oportunidade 
De ver seu sorriso. 
Eu quero só isso
Ver seu sorriso novamente.

Gabriel Bizama tem 14 anos

domingo, 27 de agosto de 2017

ROUPA, IMAGINÁRIO E AFETO: A APARÊNCIA DA BOA MORTE



As integrantes da Irmandade da Boa Morte estão associadas ao candomblé/Reprodução

No último dia 15 de agosto, data em que se celebra a Assunção de Maria, nos festejos da Irmandade da Boa Morte, tivemos a oportunidade de, mais uma vez, apreciar a procissão pelas ruas da cidade heroica de Cachoeira, bem como assistir a missa na Igreja da Matriz. Um dos pontos altos da festividade que inicia seu calendário no dia 13 e se estende até o dia 16 de agosto, o dia 15 é reverenciado pelas irmãs, pela comunidade local e pelos turistas que colorem as ruas da cidade.

Emblemática pela dimensão religiosa que agrega, a Irmandade da Boa Morte, incorpora de forma plena e apaziguadora o respeito ao catolicismo e o culto ao candomblé, num exercício dinâmico de sincretismo. O culto mariano da Boa Morte, resquício dos arquétipos tecidos pelos jesuítas e vivenciados pela devoção portuguesa, ao migrar para Cachoeira, vai modificando-se, aos poucos, uma vez que as integrantes da Irmandade estão associadas ao culto do candomblé, sendo muitas delas Mães-de-Santo.

Além disso, é um marco de resistência que aponta para dois âmbitos importantes: a força da mulher e o orgulho da raça negra. Imersos neste cenário, gostaríamos de chamar a atenção para a dimensão imaginária e afetiva das vestimentas e do ato de vestir presentes na Irmandade da Boa Morte, uma vez que compreendemos que as evocações as esferas do sagrado, e as resistências de gênero e raça são também reforçadas pelas vestes usadas pela Boa Morte. A roupa, compreendida na sua dimensão simbólica e imaginária, é um elemento importante na constituição cultural; reforça mitos e signos, reestrutura valores e tradições.

As roupas guardam algo de cada um de nós, pois como diria Stallybrass “[...] a mágica da roupa está no fato de que ela nos recebe: recebe nosso cheiro, nosso suor; recebe até mesmo nossa forma”, ao que acrescenta: “As roupas recebem a marca humana” E esse acolhimento faz com que elas tenham a capacidade de presentificar uma ausência, daí sua dimensão imaginária e afetiva. E também a sua relação com a memória.



Foto: Renata Pitombo | Divulgação

É nesse sentido que as vestes da Boa Morte presentificam tradições, costumes e valores, bem como atualizam os mesmos, na medida em que também elas são ressignificadas, reformuladas...

Pelas ruas cachoeiranas transitam essas mulheres paramentadas com suas vestes e adereços, as quais vão constituir espaços de identificação e pertencimento, numa relação fecunda entre a roupa e o corpo e a teatralização corporal. Assim, podemos observar a relação afetiva que as irmãs estabelecem com as vestimentas, destacando os sentidos expressos por cada veste e como o sincretismo religioso e os marcos identificatórios se costuram entre a combinatória das peças de roupas.

No dia 15, a Assunção de Maria, como já mencionamos, as irmãs usam a roupa de gala, composta de uma bata (camisu ou camisa de rapariga, sendo o tecido de richelieu branco, antes trazido da França pelos portugueses) e saia plissada preta, simbolizando a postura social das escravas alforriadas em relação às comuns. Há de se ressaltar que essa vestimenta foi introduzida na Irmandade, pois esta já fazia parte da cultura africana no país.

Neste dia também é usado um xale (pano-da-costa) característico da Irmandade, sendo dividido em dois lados, um preto de veludo e o outro de vermelho de seda pura. É também permitido às adeptas dessa Irmandade o uso de joias. Como observa Marques, as mulheres usam “muitos colares, guias, balangandãs, pulseiras e anéis prateados e dourados”, ao que acrescenta: “(...) o ouro representa a riqueza e a beleza, o vermelho do pano da costa, antes preto, um sinal do sangue (menstrual também), na vida (viva) em Oxum/Yemanjá”.

Para além da dimensão simbólica, a indumentária da Boa Morte resgata uma dimensão valorativa do eu, enquanto sujeito que luta por liberdades, dentre as quais a de culto, de crença e de pertencimento que são aspectos fundamentais à constituição dos indivíduos. Nesse sentido, a visualidade dos corpos-vestidos das irmãs, nos faz partilhar um momento singular, em que se exalta a própria existência e em que sentimos o vigor da tradição e a força das expectativas, no campo do presente. Memória, imaginação e afeto nos atingem no espetáculo visual que toma conta das ruas de Cachoeira.

Assim é a Irmandade: rica, complexa, sincrética. Uma tessitura repleta de tramas, imaginação e afetos. Potência aberta e indefinida de sentidos.

Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SUPERANDO TRANSTORNOS MENTAIS E CONQUISTANDO AUTONOMIA PARA UMA VIDA MELHOR








Ao meio-dia o banquete foi servido: feijoada, vinagrete, farofa, arroz e carne. Usando um vestido de flores e um cachecol laranja que a deixou mais elegante, Maria Damasceno Oliveira, 60 anos, se produziu especialmente para a confraternização entre ex-residentes do Hospital Especializado Lopes Rodrigues e que hoje moram em residências terapêuticas.

Foi um reencontro marcado pela emoção. Há anos não se viam. Eles, agora, estão distribuídos em três das onze residências mantidas pela Prefeitura, através da Secretaria Municipal de Saúde – duas delas estão em reforma. As casas são destinadas a pessoas que, embora sofram de transtornos mentais leves ou moderados, estão em condições de serem reinseridas na sociedade. Elas também possuem autonomia.

O almoço foi promovido em uma destas residências, que está situada no bairro Parque Getúlio Vargas, onde moram sete mulheres. No encontro provaram que nem a distância e nem o tempo foram capazes de apagar da memória a fisionomia uns dos outros. A amizade de longos anos, formada do convívio diário em um hospital psiquiátrico, estava mantida.
Sorriram e se abraçaram, numa demonstração que a ressocialização tem contribuído para torná-los não só pessoas independentes, mas afetuosas e tranquilas.

Feliz por poder usar as suas próprias roupas e simples produtos da higiene pessoal, como sabonetes e o perfume preferido, Maria Damasceno abraça e se deixa abraçar pelos amigos. Com um sorriso simpático, ela é a prova inconteste de que a ressocialização é possível e contribui para tornar estas pessoas mais independentes, afetuosas e mais integradas ao convívio social.

Se sentar à mesa e fazer uso dos talheres era uma tarefa aparentemente impossível para Terezinha Bispo de Sena. Ela veio da cidade de Coração de Maria especialmente para confraternizar com "os velhos amigos", disse, emocionada.

A enfermeira do Centro de Assistência Psicossocial Dr. João Carlos Lopes Cavalcanti – Caps III, Dailey Carvalho, responsável por três residências terapêuticas implantadas no município, afirma que “o trabalho de ressocialização devolve a dignidade e a autonomia a quem sofre de transtornos mentais”.

“Há histórico de pacientes que não se alimentavam, não usavam roupas e andavam descalços, mas já adquiriram autonomia para sair, já aprenderam a sentar-se à mesa e o que querem”, afirmou a psicóloga Margarete Carneiro ponderando que “são situações da vida diária que eles foram privados em realizar por muitos anos”.

Residências estão vinculadas ao Caps

Nas residências terapêuticas convivem cerca de 45 pessoas, mas já chegou a contar com 80 residentes. A redução da demanda, se deve ao falecimento de alguns indivíduos ou o retorno de outros ao convívio, pondera Robervânia Cunha, coordenadora de Saúde Mental.
Estas casas, diz ela, estão concentradas nos bairros Capuchinhos e Santa Mônica. Há também na Brasília e Jomafa. As residências estão vinculadas ao Caps.

“As residências terapêuticas que a Prefeitura mantém é classificada como do tipo I. São destinadas para egressos do Hospital Especializado Lopes Rodrigues e para pacientes que tiveram longo período de internação e apresentam condições de serem reinseridos na sociedade”, afirma Robervânia.
Esses moradores têm autonomia para fazer sua higiene pessoal, cuidam do lar e até podem sair. A assistência a eles é prestada por uma equipe multiprofissional da Secretaria Municipal de Saúde, composta por enfermeiro, assistente social, psicólogo, clínico, pedagogo, técnico de enfermagem, além de cuidadores.

Texto: Renata Leite
Fotos: Jorge Magalhães
(Publicado originalmente no site oficial da Prefeitura Municipal de Feira de Santana)

terça-feira, 25 de julho de 2017

LUCAS E EU: AMOR QUE NÃO SE MEDE




Do alto (?) de seus quatro anos bem vividos, ele diz que já é adulto, na tentativa de me convencer a atender o seu pedido. O poder de convencimento se desvanece nas minhas gargalhadas e ele, compenetrado, parte para outra, imediatamente: Sabia que já vou fazer cinco anos? Como se esse argumento valesse mais que o primeiro.

E assim começa – e às vezes termina – o diálogo com Lucas, meu neto, um presente que eu ganhei sem merecer, como diz a escritora Raquel de Queiroz em seu texto sobre a avó. Tudo que vem dele é grandioso. Um beijo na hora que acorda, um abraço para retardar a minha saída para o trabalho, as brincadeiras na hora do banho, o elogio espontâneo – Vovó, você é tão linda!

Ele é tão especial que já sabe, ainda tão pequenininho, valorizar duas coisas essenciais em nossa vida, família e amigos. Tanto que não permitiu que ninguém interferisse na lista de convidados para seu aniversário. Bárbara, preocupada em cumprir as regras sociais, bem que sinalizou, uma vez ou outra, com algum nome, mas ele se manteve irredutível: Esse não, viu mãe?

A conta é mais ou menos assim, Lucas tem quatro anos de vida e eu ganhei esse mesmo período de vitalidade e capacidade de superação. O seu amor me alimenta de tal forma que no final de semana, quando eu penso que vou descansar da labuta diária, troco qualquer compromisso (até um show de Zé Ramalho, acreditem!) para levá-lo a uma festinha.

Eu não sigo nenhum manual para desempenhar meu papel de avó. Meu leme é o coração e é por meio desse órgão que nos relacionamos. Se às vezes perco a paciência? Claro que sim. Mas nada que um afago, de ambas as partes, não contorne. O nosso amor é incondicional e imensurável e agradeço a Deus todos os dias por me permitir essa bênção que é tê-lo em minha vida.

Madalena de Jesus

domingo, 16 de julho de 2017

EXPOSIÇÃO IMAGEM DE MODA: VITRINA E COTIDIANO NA EBAM


A exposição Imagem de Moda: Vitrina e Cotidiano, da professora e jornalista Renata Pitombo Cidreira, é um dos destaques da programação de aniversário da Escola Baiana de Arte e Moda (EBAM), que acontece entre 17 de julho e 17 de agosto. A abertura da mostra acontecerá nesta terça-feira (18), a partir das 19h30, com recital de música, além de autógrafos nos livros publicados pela autora.

As imagens estarão disponíveis para visitação no período de comemorações do aniversário de um ano da EBAM. A jornalista apresenta vitrines de grandes marcas de moda produzidas em Paris, Milão, Madrid e São Paulo, nos anos de 2010, 2014, 2016 e 2017. Os registros de maisons como Chanel, Dior, Prada, Armani e Lanvin buscam evidenciar a força das composições visuais, através das cores, texturas e volumetrias. A mostra já foi montada nas cidades de Cachoeira, Feira de Santana e Salvador.

Sobre a autora

Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, onde também fez Mestrado e formou-se em Jornalismo. Em 2011, fez pós-doutorado em Sociologia no Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, da Université René Descartes (Paris V – Sorbonne). Entre 2003 e 2006, coordenou o curso de graduação em Comunicação e Produção em Moda da FTC Salvador, onde liderou o grupo de pesquisa Moda Mídia.

Atualmente, é professora associada da UFRB e líder do grupo de pesquisa Corpo e Cultura (UFRB/UFBA). Também atua na pós-graduação em Moda, Artes e Contemporaneidade da UNIFACS e no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA, além de participar do grupo Estética e existência da UFBA.

domingo, 9 de julho de 2017

HEROIS ANÔNIMOS, AMOR E CHUVA




Eu não sei o nome deles. Mas nem é preciso. A cena que presenciei no início da noite de uma sexta-feira vale mais do que um documento de identidade. Foi tudo muito rápido e as pessoas que passavam pelo local ou estavam dentro da loja certamente não entenderam o que estava acontecendo. Já estava bem escuro.

Chovia, aquela chuva fina e fria dos últimos dias. Primeiro parei o carro ocupando duas vagas, na pressa para pedir uma informação a uma das moças que trabalham nos caixas em um estabelecimento comercial, na avenida Getúlio Vargas. O segurança, devidamente fardado, me abordou e, gentilmente, me ajudou a estacionar corretamente.

Também fui gentil e agradeci, mas acho que ele nem ouviu, porque exatamente nesse momento um motociclista atropelou um ciclista, cujo corpo ficou estendido no chão. O segurança (aquele gentil, que me ajudou a estacionar o carro) correu para o meio da avenida e evitou uma tragédia maior, gesticulando para que os carros passassem pelo outro lado.

Ao mesmo tempo, um colega dele ajudava o motociclista, que também caiu com o tombo, a recolher seus pertences e retirar a moto do local. Tudo em questão de segundos. Ninguém pediu ajuda e muito menos mandou que eles fizessem isso. Um gesto que me fez acreditar que ainda é possível esperar algo de bom das pessoas.

De lá, depois de trocar umas moedas e fazer uma compra de R$ 1,87 (rsrsrs), fui visitar a princesa Alice, uma menina de 7 anos que está dando lições em muita gente grande nesses dias em que está em observação médica no hospital, sob os olhos vigilantes da mãe Kenna, familiares, amigos, tios – de verdade e de empréstimo, como eu – e das bonecas Barbie com quem divide a cama hospitalar.

E foi de Alice que eu ouvi a resposta para uma tia – igualmente emprestada – que queria saber o que ela gostaria de receber de presente: “Amor, o resto eu tenho”. Foi o que faltava para fechar a noite com chave de ouro e bem mais tarde, já em casa, driblar o frio duplamente enroscada: no cobertor quente e no corpinho acolhedor de meu neto Lucas.

Madalena de Jesus

quinta-feira, 22 de junho de 2017

MODA E TRADIÇÃO: A ARTE SECULAR DO BASHOFU


Quimono produzido com tecido bashofu (Foto: Reprodução)


Fibra de bananeira usada na produção do bashofu (Foto: Reprodução)


Tecido do tipo bashofu ganha espaço na moda  (Foto: Reprodução)

Num momento em que estamos prestes a celebrar uma grande tradição, sobretudo, no nordeste brasileiro, o nosso tão festejado São João, talvez seja interessante nos debruçarmos sobre outras formas de tradição para tomar distância e compreender melhor a dinâmica da tradição enquanto tal. Contrariando a ideia de que a moda segue apenas o fluxo que vai do presente para o futuro, reificando valores como a instantaneidade, a efemeridade e a novidade incessante, arriscamos dizer que algumas iniciativas artesanais reforçam o diálogo da moda também com a tradição. Reconhecemos que numa análise mais detalhada seja necessário considerar a distinção entre a roupa e a moda. Ainda assim, acreditamos que mesmo as vestes e as matérias-primas de que são feitas, que não se encontram, necessariamente, no registro cíclico da indústria da moda, e dos ditames das tendências, também podem ser inseridas, de certa forma, no mercado e no circuito da moda. Um desses exemplos é o tecido produzido no Japão, o bashofu, do qual originam-se belíssimos quimonos.

Em recente exposição na Japan House, intitulada Bambu: histórias de um Japão, sob a curadoria de Marcello Dantas, tivemos a oportunidade de contemplar variados objetos produzidos a partir do bambu, esse ingrediente recorrente, que se manifesta de diferentes formas no tecido cultural do país. Curiosamente, também na mesma exposição, uma outra planta nos chamou atenção: assistimos a um vídeo sobre o processo artesanal de produção do bashofu, tecido da fibra da árvore de basho, que é uma bananeira.

Existem registros deste tecido desde o século XIII, e o mesmo era utilizado não apenas por pessoas comuns como uma peça de vestuário de verão, mas pela família real e membros da família da casta samurai. Pelo que pudemos constatar pelo vídeo, o processo de tecelagem representa apenas 1% do processo inteiro, que começa com a plantação e crescimento do basho por vários anos. Depois vem os cortes das folhas, a colheita dos caules da bananeira, a fervura e a divisão das fibras. Na sequência, temos o trabalho de tingimento, tecelagem e acabamento, ressaltando que cada um desses procedimentos é feito à mão e a confecção pode durar até seis meses. Atualmente, o bashofu só é encontrado na região norte da ilha de Okinawa, na vila de Kijoka.

A mestra e artesã Toshiko Taira, reconhecida como Tesouro Nacional Vivo no Japão, é a responsável pela sobrevivência da técnica de produção do bashofu, preservando essa riqueza nacional. O tecido tem como especificidade o frescor, a resistência e o fato de não absorver muitas impurezas como gordura, por exemplo, em sua trama. Os produtores só podem fazer cerca de 250 rolos de bashofu por ano, devido ao tempo necessário para a confecção do mesmo. Um rolo de pano de quimono tem cerca de 12 metros do tecido e, consequentemente, o valor de um quimono tecido de bashofu está aumentando ano a ano, pela raridade e prestígio do feito à mão.

No mundo da moda, estamos assistindo nos últimos anos, como bem observa Ana Mery Sehbe De Carli, dois movimentos antagônicos: o fast fashion, que propõe acelerar o ciclo de vida do produto, injetando novidades no mercado a cada 20, 30 dias; e o slow fashion, um claro movimento de desaceleração, propondo valores mais atemporais para a moda, tais como: marca, tradição, qualidade, laço emocional que envolve afetivamente o consumidor e o bem adquirido.

No slow fashion, efetivamente, vemos a valorização da tradição e, consequentemente, dos processos artesanais. A tradição, comumente concebida como uma prática perpetuada de século para século, mantém relação com os elementos culturais presentes nos costumes, nas artes, nos fazeres, que são legados do passado, e continuam a ser aceitos e atuantes no presente. E esse é bem o caso do tecido bashofu: um saber artesanal que vem sendo perpetuado pelas mãos firmes e delicadas de Toshiko Taira e suas aprendizes. Na dinâmica do slow fashion, há uma valorização do artesão e os produtos têm seu ciclo de vida prolongado, associado ao apreço pelas prendas feitas à mão.

Quando a intenção é reforçar a dimensão da memória e da tradição presentes em alguns tecidos e vestes, como no caso específico do bashofu e dos quimonos produzidos com ele, não há como associá-los, à princípio, ao consumo incessante promovido pela lógica da novidade e da mudança; mas começamos a presenciar um movimento em direção a um consumo mais consciente e afetivo. Nesse sentido, podemos sustentar a ideia de que moda e tradição apenas aparecem como polos opostos quando pensamos o tempo numa curta duração, mas, de fato, elas parecem se encontrar numa longa duração. Assim, existe uma tradição na moda, na medida em que a multiplicação das mudanças solicitará, muito provavelmente, o retorno a certos padrões; bem como há uma moda na tradição, uma vez que esta necessita de formas para se materializar. Esta dinâmica também pode ser atestada na festa junina que, a cada ano, se renova, mas preserva sua ligação com a cultura da vida e dos costumes rurais. Tal perspectiva, talvez, ateste de forma mais evidente a potência dos tecidos, da roupa e da moda para expressar plasticamente certas maneiras de ser, modos de viver e formas de nos relacionarmos com o mundo.

Renata Pitombo Cidreira 
Professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CACULÉ: O VENDEDOR DE UTENSÍLIOS DOMÉSTICOS QUE SABE TUDO SOBRE FEIRA DE SANTANA




Com certeza quem anda por Feira de Santana, especialmente pelas ruas do centro comercial, alguma vez já viu ou foi parado por “Caculé”. O paraibano José Pergentino da Silva, de 66 anos, morador do bairro Queimadinha e vendedor de utensílios domésticos.

A conversa de Caculé é tanta, que por algum momento chega até a ser incompreensível. E em alguns minutos de bate-papo ele dispara informações sobre todos os assuntos. Caculé sabe sobre história, cultura e todo o noticiário de jornal. Mas, o que ele mais gosta mesmo é de falar sobre política, Feira de Santana e fazer suas adivinhações.

“Eu cheguei em Feira com dez anos. Eu gosto muito desse lugar. É uma cidade muito boa, mas a maioria do povo não vale nada. Só se preocupa em roubar e fazer mal ao próximo”, alerta Caculé.

Com tanto assunto, ele até esquece de vender os seus produtos, que leva amarrados e pendurados no próprio corpo. O carrego é pesado. Tem bacia, vasilhas plásticas de todos os tamanhos, peneiras de todas as cores, além de colher de pau. Sobre os preços, ele conta que é tudo baratinho e o valor é único. “Custa cinco conto cada uma”, completa.

Apesar de conhecer muita gente, Caculé diz que vender fiado é mais difícil. Tudo depende de quem é o cliente.

Adivinhações e o “pó de tabaco”

Entre tantas histórias, Caculé tira da capanga de couro um vasinho pequeno com um pó preto e começa a cheirar e a espirrar. Eu pergunto: O que é isto Caculé? Ele logo responde: “É ‘tabaco’, vou mandar um desse pra Dilton Coutinho”, diz.

Para quem não conhece, o ‘tabaco’ ou rapé é um produto medicinal muito utilizado pelas pessoas mais antigas que acreditam que ele é bom pra doenças das vias respiratórias. É feito de tabaco e uma mistura de outras plantas, ervas e ingredientes medicinais.

Médium de nascença

Sobre as adivinhações que faz sobre a vida das pessoas, Caculé explica que são orientações dos espíritos e que ele é médium de nascença. Há quem diga que ele diz sempre a mesma coisa de todo mundo, principalmente que a sua bisavó era índia e que você é uma pessoa muito desconfiada.

No entanto, no meu caso, foi um pouco diferente: “Sua bisavó era índia e o primeiro homem que sua mãe namorou e casou foi seu pai. Você não tem maldade em nada, mas seu mal é confiar nas amigas. Na sua casa a pessoa mais inteligente é você”, e ele emenda e me pergunta:” Você acredita?”. Eu repondo:” Sim, acredito Caculé”. Então assim é dado por encerrado o assunto adivinhação e vamos para o próximo tópico da nossa entrevista.

Política

Falamos então sobre política, o assunto preferido de Caculé, e ele novamente dispara de informações sobre corrupção, operações da Polícia Federal e as eleições 2018.

Sobre o cenário político municipal, Caculé avalia a gestão do prefeito José Ronaldo. Para ele, o prefeito tem feito uma boa gestão. No entanto, ele não acredita que José Ronaldo irá para o senado e aposta em Colbert Martins para ser o próximo prefeito de Feira.

“A política, Zé Ronaldo quer sair pro Senado, mas eu não sei se ele vai não. Porque eu acho que aqui ele não tem voto para Senado não. Agora pra deputado ele ganha. “Colbertzinho”, futuramente, vai ser o prefeito da Feira, agora ele não é como o pai”, opina.

Ainda sobre política, Caculé também aposta em Lula para presidente em 2018. Na opinião dele, Lula fez muita coisa para o povo. “Eu voto nele e talvez ele vá ganhar de novo. O povo quer ele de volta”, afirma.

Patrimônio de Feira

Nos últimos tempos, o visual de Caculé também está um pouco diferente. Debaixo do seu tradicional chapéu de couro estão os cabelos grisalhos bem maiores do que o habitual. Eu procuro logo saber: “Tá criando cabelo é Caculé?” E ele responde sem cerimônia: “ Estou, vou deixar crescer para vender”, salienta.

Entre tantas curiosidades e relatos engraçados, a simplicidade de Caculé e suas marcas da idade e da vida deixam transparecer a sua identidade de trabalhador, de gente que acorda cedo todos os dias e que caminha pela cidade, levando Feira de Santana no coração, bons sentimentos e muito bom humor.

Caculé é gente que escolheu Feira de Santana para viver, trabalhar e é também parte do nosso patrimônio histórico e cultural.

O texto e a foto são  de Rachel Pinto
Publicação original no Acorda Cidade

quarta-feira, 14 de junho de 2017

AS VOLTAS DO MUNDO






Foi em uma noite de terça-feira, dia de poucos compromissos para a maioria das pessoas. Não para nós, jornalistas e mortais que somos, sempre com uma agenda maior do que a nossa capacidade de cumpri-la. No belíssimo cenário do Casarão Fróes da Motta, o lançamento do livro “As voltas do Mundo”, do jornalista e ex-secretário de Cultura, Esporte e Lazer de Feira de Santana Jailton Batista, foi uma grande festa.

O convite era para as 19h, mas às 18h31 já havia uma mensagem inquieta do autor: “Cadê você?” Eu ainda estava no trabalho, igualmente ansiosa. Só consegui chegar por volta de 20h30, depois de cobrir parte de uma sessão solene na Câmara de Vereadores. Mas encontrei o melhor da festa. Gente bonita, começando pelas herdeiras dele, Tina e Jana, que eu vi tão pequenas e hoje são belíssimas mulheres!

Profissionais de comunicação, produtores culturais, autoridades e, principalmente, amigos do autor estavam lá, dividindo com ele a alegria do momento e muitas histórias. Porque Jailton é um contador de histórias – e estórias também. E faz isso com um talento raro. Foi assim com a primeira obra (Duas mulheres, quatro amores e uma guerra civil), resultado de suas andanças pela África. E não é diferente agora.

Jailton consegue reunir em torno de si pessoas dos mais variados perfis e dá conta de todas. A conversa com os mais sérios intelectuais, a troca de informações sobre empreendedorismo com grandes empresários, o bate papo informal com os colegas de comunicação, o riso solto com os amigos de infância, os casos de viagem que viram piada fácil, fácil. Tudo isso em um só lugar e quase ao mesmo tempo.

Bom, e na noite do lançamento o clima foi de descontração. Jailton se dividiu entre autógrafos, entrevistas e voltas pelos salões do casarão, já anunciando uma terceira publicação no gênero romance. Nascido em Andaraí e formado cidadão em terras feirenses, ele vive atualmente em Goiânia (GO), mas volta e meia circula por Feira de Santana, onde deixou marcas indeléveis como jornalista, escritor e gestor da Secretaria de Cultura. Quem vai esquecer projetos como Natal Encantado, Música na Escola e Samba de Roda, Samba de Todos?

Madalena de Jesus