quarta-feira, 17 de maio de 2017

MÚSICA NA ESCOLA, NA CÂMARA E NA VIDA









Lembro com detalhes o dia em que o então secretário de Cultura, Esporte e Lazer Jailton Batista, com brilho nos olhos e muito entusiasmo, falou sobre o projeto de criar uma orquestra infantil com estudantes da rede municipal de ensino. O mesmo brilho que a secretária de Educação Jayana Ribeiro trazia no olhar na noite de terça-feira (16), na Câmara Municipal de Feira de Santana, diante da impecável apresentação da Orquestra Sinfônica Princesa do Sertão.

Foram apenas duas músicas, mas o suficiente para emocionar o grande público que lotou o plenário e a galeria, durante a sessão solene comemorativa do Dia das Mães. Sob a regência do maestro Jailton Alves – estou substituindo Rosa Eugênia, ele fez questão de lembrar – os acordes de Fico assim sem você (Adriana Calcanhoto) e de Como é grande o meu amor por você (Roberto Carlos) ecoaram pelos quatro cantos da Casa da Cidadania e chegaram ao coração de todos. Vinte integrantes da orquestra participaram da apresentação.

“Que coisa linda!”. Foi o que Jailton conseguiu dizer, diante das fotos dos pequenos músicos, compenetrados na tarefa sublime de encantar por meio da música, juntamente com um áudio de apenas um minuto que eu lhe enviei ainda no plenário da Câmara. Uma pequena amostra do que é possível fazer quando se tem projeto, empenho e vontade. Os aplausos lá foram para a Orquestra Sinfônica Princesa do Sertão, que faz parte do Programa Música na Escola. Aqui são para a professora Jayana.

Madalena de Jesus

quarta-feira, 3 de maio de 2017

REMINISCÊNCIAS: E A TERÇA-FEIRA ERA ASSIM



Eu não sei a razão, mas a verdade é que em dias de chuva não é apenas o aconchego de uma cama quentinha que povoa os meus pensamentos. O tempo frio parece destravar um arquivo de lembranças que os afazeres da labuta diária se encarregam de deixar bem escondidas. E esse processo acelera ainda mais se o lugar for propício aos devaneios e o tempo não for demarcado pelo ponteiro do relógio.

Um feriadão daqueles que começa na sexta e vai até o domingo, família reunida na cidade natal, comida saborosa, um filme antigo visto com um novo olhar, conversa animada na copa e a chuva fina que cai sem parar. O cenário da Casa Amarela – aí a saudade aperta – é perfeito para um encontro com a minha memória, onde situações distantes parecem tão reais quanto o momento atual.

As cenas vão passando em ritmo acelerado, mas de vez em quando eu me detenho em algumas delas. Terça-feira, final da tarde, todos ansiosos pelo momento mais esperado do dia – ou melhor, da noite. Mas o tempo passava bem devagar, a noite se instalava trazendo todos os medos possíveis dentro de uma escuridão imensa. E nada. Somos nove ao todo, eu e meus irmãos, e dá muito trabalho nos convencer a ir para a cama.

Já noite alta, meu pai chegava, cansado de um dia que começara ainda na madrugada, quando arrumou as bananas que levaria para a feira de Santa Bárbara. As muletas, companheiras de toda a vida, pesavam ainda mais embaixo dos braços fortes tomados pela fadiga. A comida já na mesa, a bacia com água para lavar as mãos também. E enquanto ele comia o jantar saboroso, mesmo com o mínimo de condimento que restara da semana anterior, minha mãe tentava nos manter no quarto, para não incomodá-lo.

Em uma das saídas dela do quarto, onde eu me aconchegava na quentura do corpo de Dai, eu levantei de um salto e foi impossível me conter. Eu corri para a mesa e, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, eu já estava sobre as pernas sem movimento, saboreando os pedaços de carne de panela que ele sempre deixava para mim, com punhados de farinha que trouxera. E então, a parte mais importante da noite: sentávamos lado a lado para contar a féria do dia.

- Figura com figura, os números do mesmo lado, as notas iguais juntas e sempre o valor do maior para o menor.

Enquanto ele ensinava como arrumar as cédulas retiradas do bolso da camisa suada e igualmente amassada, eu alisava uma por uma, para retirar as marcas do manuseio apressado e sem cuidado algum durante a feira. A essa altura, minha mãe fazia de conta que não estava nos vendo e só retornava da cozinha para trazer água limpa, na mesma bacia, para lavar quatro mãos e não duas como antes, até que a água do banho chegava à temperatura ideal para que ele se lavasse antes de dormir.

Com a inocência natural dos sete anos de idade, eu não entendia direito porque o banho era em uma bacia – não a de lavar as mãos, uma bem maior – e não de pé como nós tomávamos. Mas isso era apenas um detalhe que logo saía do meu pensamento, porque já havia terminado a tarefa e guardado o dinheiro, no mesmo bolso sujo vindo da feira livre. Além disso, o sono já chegara fazia tempo e eu só voltaria a viver tudo isso na semana seguinte. E na outra. E na outra. E na outra...

Madalena de Jesus

terça-feira, 2 de maio de 2017

ENQUANTO HOUVER ALGUM MODO DE DIZER NÃO EU CANTO








Conhecedor da minha admiração pelo cantor Belchior desde a juventude, um sobrinho querido me consolou, neste domingo pós-morte em que a sua imagem parecia ocupar todos os aparelhos de tv por onde eu passava. Merecidas homenagens. Do Brasil, do Ceará, de Sobral. Uma saudade enorme tomou conta de mim, já à noite, ouvindo as belas canções que o tornarão imortal.

Osvaldo Montenegro chorou em rede nacional. Eu também chorei, quietinha em meu canto, lágrimas de uma fã que viveu aventuras incontáveis para assistir um show. “Eu quero morar no teu céu, pode ser no teu inferno...” E as palavras saltavam do ouvido para o coração de uma menina apaixonada, por ele e pelo namoradinho com quem compartilhava momentos de ternura nos bancos da escola.

Em meio a essas lembranças e o noticiário, eu descobri que Belchior não era o seu nome, mas apenas um dos muitos sobrenomes que carregava. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, um poeta cearense que fez dos versos uma ferramenta de luta contra o que não concordava. “Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não eu canto”, dizia, em sua eterna Divina Comédia Humana.

Nem mesmo o tempo que viveu recluso o levou ao esquecimento. Suas canções continuaram ecoando, seja em sua voz ou em tantas outras vozes – e aqui abro um parêntesis para citar Vanusa, Elis Regina e Osvaldo Montenegro. Foram 10 anos sem shows ou sequer aparições em público. O filósofo que virou cantor se isolou na própria timidez saiu de cena em casa, deitado no sofá, ouvindo música. Sem alarde.

Madalena de Jesus

sexta-feira, 24 de março de 2017

TABULEIRO DA MARIA: UM LIVRO SOBRE A ALMA HUMANA



“Crônicas são sobre fatos do cotidiano, mas estas falam sobre a alma humana”. Esta é a definição do livro Tabuleiro da Maria, para o jornalista e escritor Marcondes Araújo que aceitou a irrecusável tarefa de selecionar 50 textos tecidos com o talento de quem possui histórias no olhar. O título reúne narrativas sobre pessoas e situações que integram o cotidiano de Feira de Santana e da própria vida da autora, a jornalista Madalena de Jesus. A diversidade de temas é o ponto alto da publicação, que prende a atenção pela escrita fácil e precisa. O lançamento acontece no dia 30 de março, a partir das 18h30, no Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA).

O Tabuleiro da Maria traz histórias publicadas entre 2010 e 2017 no blog do mesmo nome, também assinado pela jornalista, professora graduada em Letras com Francês pela Universidade Estadual de Feira de Santana e pós-graduada em Docência em Ensino Superior pela Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC), instituição onde também atua como assessora de comunicação.

Para a também jornalista Socorro Pitombo, a coletânea é trama de ternura, afeto e entusiasmo. “Ao se debruçar sobre essas páginas, os leitores poderão constatar que Tabuleiro da Maria tem muitos encantos, a começar pela narrativa leve e comunicativa da autora que, a partir de agora, passa a integrar o seleto grupo dos escritores”, registra a amiga de vida escolhida pela autora para assinar o prefácio do título.

Sobre a autora

Madalena de Jesus atua no jornalismo há quase quatro décadas. Ao longo da trajetória se tornou uma referência; são muitos prêmios (Troféu Imprensa de Feira de Santana, Troféu Jornalista Arnold Silva por quatro anos consecutivos e o Prêmio Juarez Bahia de Imprensa por duas vezes, dentre outros) e experiência em vários órgãos de imprensa em Feira de Santana e outras cidades da Bahia. Destaque para o Jornal Folha do Estado, como editora de política, Revista Panorama e Jornais Folha do Norte e Feira Hoje, este já extinto há alguns anos. É, também assessora de Comunicação da Câmara Municipal de Feira de Santana.

Beatriz Ferreira
Notre Comunicação

quinta-feira, 2 de março de 2017

A MAGIA DO TRAJE: A APARÊNCIA NO CARNAVAL


Por Renata Pitombo Cidreira


Reprodução | Prefeitura de Veneza

Já é Carnaval! Momento em que as manifestações explícitas de alegria tendem a expressar, através de uma ideia quimérica de liberdade, as tensões constitutivas de nossa identidade. Mas será mesmo que o espírito da verdadeira fantasia e do jogo da imaginação ainda permanece como o alicerce dessa que é considerada a maior festa popular do mundo? Quando viajamos no tempo e nos reportamos a um dos mais antigos carnavais, o de Veneza, que data do século XII ou XIII, nos indagamos se o espírito que mobilizou essa festa ainda se faz presente nas manifestações contemporâneas?

O Carnaval de Veneza se caracteriza pelo uso intenso de máscaras e figurinos que tentam reproduzir o estilo dos nobres que viveram nos séculos XVII e XVIII, ou os modelos apresentados pelos personagens da Commedia Dell’Arte – representações teatrais muito comuns na Itália e por toda a Europa do século XVI até a metade do século XVIII, as quais celebrizaram personagens até hoje cultuados como o pierrô, a colombina e o arlequim.

O fato é que de lá pra cá muita coisa mudou. Alguns pesquisadores afirmam que, inicialmente, o carnaval de Veneza teria surgido em comemoração a uma vitória militar, outros, por sua vez, defendem que 1296, o Senado veneziano formalizou o carnaval, ao declarar que o último dia antes da quaresma fosse um período de jogos, brincadeiras e diversão pública. No século XIX, quase foi eliminado do cenário europeu e ao longo dos anos foi ganhando novos contornos, é verdade. A partir da década de 1980 a festa tem sido resgatada com maior vigor e passou a ser fruto do empreendimento pessoal de foliões e, certamente, um elemento parece ter permanecido: o apreço pela fantasia, ou seja, a prática de nos travestirmos através do uso de roupas e adereços que nos remetem a outros personagens.

Famoso pelas tradicionais máscaras, o Carnaval de Veneza conserva até hoje essa capacidade de nos imaginarmos outros, de incarnarmos e representarmos novos papéis nessa grande cena que o Teatro do Carnaval nos permite protagonizar, tendo como inspiração o Teatro propriamente dito que desenvolve uma trama, num placo, dirigido a uma plateia. E talvez o mais interessante é que podemos ser vários, adotando novos e outros personagens a cada troca de roupa, nos vários dias de festa, retomando a etimologia da palavra persona, que remetia exatamente à máscara de cada personagem.

Embora já com algumas manifestações desde o século XVII, influenciado pelo entrudo português, em terras soteropolitanas, o Carnaval como conhecemos hoje tem início na década de 1950, com foliões dançando atrás de carros de som, as velhas fobicas, posteriormente conhecidos como trios elétricos. Em 2005, o evento foi eleito pelo Guinness Book o maior carnaval de rua do mundo, com 2 milhões de foliões nas ruas que, pouco a pouco, foram se organizando em blocos, com suas camisetas de identificação (os abadás) e uma corda de proteção desse grupo dos demais foliões. Nesta grande festa, o destaque tem sido para os ritmos musicais e as danças e, durante algum tempo, observamos que as fantasias e as máscaras ficaram num segundo plano. Para além das mortalhas e dos abadás que passaram a fazer parte do Carnaval brasileiro, sobretudo, a partir da influência baiana, muitos de nós sentimos falta do uso de trajes mais imaginativos e fantasiosos que essa grande festa nos proporciona. Como ressalta Milton Moura, a indumentária é um elemento extremamente importante para a visibilização das referências de mundos fantásticos que constituem o Carnaval.

Se tentamos recuperar a etimologia da palavra Carnaval, encontraremos mais de uma vertente interpretativa. Ela se origina do latim carne vale, que significa adeus à carne, numa alusão aos dias em que se podia comer carne antes da quaresma; ou ainda, numa outra leitura, significaria despedida do próprio corpo como emblema da identidade, na medida em que nesse período as pessoas são estimuladas a se soltarem e expressarem seus sentimentos. E sabemos, sem dúvida, que assumir a pele do outro nos ajuda a fazer e a sentir algo que habitualmente não faríamos ou não sentiríamos. Como destaca Georg Simmel, o adorno e as roupas ampliam nosso eu, antecipando a disposição performativa do ser humano. Aqui identificamos o papel da roupa e dos acessórios, sobretudo da máscara e da fantasia, como elementos mediadores, dispositivos de passagem entre personagens possíveis.

A máscara e a fantasia, retomam o espírito do Carnaval em deixar correr livre os sentidos e experimentar novas situações. Assim, nos tornamos suscetíveis e receptivos à atuação de novos e outros personagens, na medida em que talvez precisemos buscar a nós mesmos em outros “seres” virtuais, latentes. É a verdadeira magia do outro, através do traje, que invade o Carnaval e a cada um de nós nessa festa!

Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

Texto publicado originalmente no Portal A Tarde, Coluna Pensando Moda.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

COMO OS GIRASSOIS DE VALDIRENE BORGES





É sempre assim... A suposta facilidade de escrever desaparece diante da mistura de sentimentos e pensamentos que a perda do convívio com alguém que amamos provoca. E aqui estou, tentando vencer essa dificuldade, desde a tarde de domingo (12), quando recebi um incontável número de mensagens com a mesma notícia: Adervan cumpriu a sua trajetória entre nós. Novamente o domingo perdeu a cor e a graça – foi assim com outros grandes amores, incluindo meu pai, Amílcar de Jesus, Egberto Costa, Elis Regina e Conceição Lôbo, só para citar alguns.

Mas deixando de lado a coincidência do dia. Será? Sou meio descrente disso. Mas vamos lá. Se final da tarde de domingo já é meio sombrio, pelo menos para mim, a noite não foi melhor em nada. Imagens iam e vinham o tempo inteiro. Lembrei de quando eu conheci Adervan, ainda meio desconfiada pelo seu jeito aparentemente (só aparentemente, descobri logo) sisudo. Foi pouco tempo depois que cheguei a Itabuna, no final de 1992, para integrar a assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal.

Nos conhecemos, mas não nos aproximamos de pronto. Não sei exatamente porque. Acho que o senhor do tempo decidiu que quanto mais demorasse para nos tornarmos amigos, mais intensa seria a nossa relação. E foi isso que aconteceu. Nos meus últimos tempos nas terras grapiúnas e depois, quando retornei e fui trabalhar no Jornal Agora, aí sim, conheci a fundo o verdadeiro José Adervan de Oliveira, que aprendi a amar e admirar. Como pai, amigo, patrão. Uma pessoa que descobriu o melhor de mim e me deu o que tinha de melhor.

Me encantei, sobretudo, com o seu jeito de fazer jornal. Primeiro, por destinar um caderno inteiro, que tinha o sugestivo nome de Banda B, para notícias sobre cultura. Um espaço para os artistas de Itabuna e região, uma grande vitrine, sem dúvida. Segundo, pela postura cordial, mas firme com as fontes, especialmente políticos. Entrevista fora do jornal? Nem pensar. Podia ser prefeito, deputado, vereador, secretário... E por último, o tratamento dispensado à equipe. Não importava o que acontecesse na rua, o repórter ou fotógrafo tinha o seu apoio.

Do Agora eu carrego grandes amizades. Começando por Roberta (minha amiga mais que especial), Fernanda e Dona Ivone. Da redação vieram para a minha vida Verinha, Walmir, Waldir, Ulisses... Impossível relacionar todos. Por isso acho mais prudente me concentrar naquele que sempre foi e – quer saber?  - acho que continuará sendo, a grande razão de ser desse projeto grandioso, que ultrapassa a fronteira do jornalismo. Porque eu acredito que, onde quer que esteja, Adervan continuará brilhando, como os girassois do belíssimo quadro de Valdirene Borges, que ele me deu de presente há mais de 15 anos.

Madalena de Jesus, jornalista, radialista, professora e amiga de José Adervan de Oliveira , para sempre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O SEQUESTRO DE SÃO JOSÉ



Na infância, fé, esperança e fantasia são sentimentos que parecem brincar com a criança. Se aqueles dependem da crença, a fantasia é o que torna a vida mais bela de forma descomprometida. No sertão, fantasia seria viver num inverno constante. Assim aprende-se desde pequeno com os mais velhos.

Em algum canto dos Sertões do Tocós, há algumas décadas, todos sabiam que imagem encarnada ou até mesmo quadro de São José não costumavam habitar os nichos ou paredes de apenas um lar durante todo um ano. Elas eram comumente furtadas! Isso! Delito legítimo e chancelado pela fé de quem comete tal crime e de todos que acobertaram o “roubo” do santo em nome do bem comum. Em tempo de seca hostil, somente esse santo poderia acalmar os homens e seus bichos sedentos.

Olhar o oratório vazio ou a marca escura da tinta deixada pelo quadro levado deixava seu dono na falta do santo protetor, mas ele, esposa e seus filhos acolhiam aquela ausência como uma honra e proclamavam a todos o sequestro. Mais um motivo para ter-se fé! Santo “roubado” significava a esperança correndo na bica.

Até São João fica refém de São José. Se até o dia deste santo não chovesse, não haveria milho para festejar nas ladainhas do São João. O milho não cresceria a tempo! Então, as rezas se tornavam constantes e as promessas paralelas ao sequestro do São José. Todas as gerações curvadas suplicando clemência dos céus. E qualquer tom mais escuro no horizonte trazia todos à varanda da casa. Não seria daquela vez... Mas o santo saberia quando, dizia a matriarca. Não muito distante, todos veriam as rachaduras dos tanques cicatrizadas.

Enfim, a chuva cairia! Todos entenderiam que era importante acreditar. O andor finalmente começava a ser adornado pelos bambus que restaram no fundo da casa com as flores que resistiram à seca. Precisava avisar ao dono do santo! O sequestro fora pago pelo próprio sequestrado. Do lar de São José, via-se à noite o movimento harmonioso de tantas velas acesas. Toda ladainha cantada no rojão daqueles pés rachados como os tanques de ainda ontem.

São José voltara para sua casa e com ele, a esperança daquele lar. As crianças poderiam achar aquele ritual estranho, pois seus pais lhes ensinaram que “quem rouba não vai para o céu”, mas começavam a entender que a fé tem razões que a própria razão julgava desconhecer! Fantasia, esperança e fé, depois daquela noite, confundiam-se na cabeça das crianças que dormiam com o cheiro da parafina, do incenso, mas, sobretudo, da terra molhada.

(Jadione Almeida, esperando as trovoadas de 2017)