segunda-feira, 13 de setembro de 2021

FEIRA DE SANTANA, O LUGAR QUE EU ESCOLHI PARA VIVER!

 



 “Quando o coração pode falar, não há necessidade de preparar o discurso.”

 A citação é de Gotthold Ephraim Lessing, poeta, dramaturgo, filósofo e crítico de arte alemão, considerado um dos maiores representantes do Iluminismo, defensor do livre pensamento e da tolerância religiosa. Não foi à toa que suas teorias influenciaram o desenvolvimento da Literatura Alemã moderna.

É nesta frase tão cheia de significados que eu me inspiro agora e é exatamente isso que vou fazer: deixar meu coração falar... Porque se eu fizesse um discurso nos moldes tradicionais, me limitaria a contar a minha trajetória profissional de quatro décadas nesta profissão que eu amo e por ela acordo todos os dias. Falaria de minha história nestes 41 anos vividos nesta cidade, com apenas três intervalos curtos, quando morei em Itabuna (duas vezes, também exercendo o jornalismo) e em Salvador, de onde voltei convocada para trabalhar no Jornal Feira Hoje.

Mas falar de mim não é tarefa fácil. Quem me conhece de perto sabe disso, porque essa habitual desenvoltura não passa de disfarce para uma timidez abrandada pelo convívio com a sala de aula, mas não eliminada. E vou deixar o coração contar a minha história de amor com as letras e com Feira de Santana por meio de algumas pessoas que contribuíram para que eu chegasse aqui.

Lembro que um dia Clériston Andrade, candidato ao governo da Bahia que morreu em um acidente de avião em 1981, interrompeu uma entrevista, se não me engano na cidade de Cafarnaum, e disse em tom solene: “Menina, você vai longe...” Eu acreditei!  Hoje entendo que realmente o lugar em que cheguei é muito longe para uma menina que nasceu na roça, estudou em escolas públicas de um pequeno município, Conceição do Jacuípe, então  Berimbau, e cursou o nível superior em universidade pública, a UEFS. Na minha cidade, sou vista como alguém que saiu em busca do sonho e deu certo. Eu confesso que isso é muito bom!

E pensar que tudo começou ainda na Fazenda Salgado, com o incentivo do meu pai, Amílcar de Jesus, homem que conheceu o mundo através dos livros, minha mãe Firmina, a sabedoria disfarçada de mulher, e minha primeira professora, mestra no mais amplo sentido da palavra, Olga Vital, lá do povoado de Picado. Aliás, esse é um momento propício para lembrar a importância de todos os professores que contribuíram para o meu aprendizado, nos livros e na vida. E eu faço isso em nome da professora Elza Santos Silva, que me ensinou muito mais do que as técnicas para elaborar um bom texto. A ela, todo o meu carinho.

Mas foi outro mestre que, durante o estágio no Jornal A Tarde do curso profissionalizante de Redator Auxiliar, do Colégio Estadual, decretou que eu seria jornalista. Tudo que eu sou na comunicação, do primeiro emprego como revisora no Jornal Folha do Norte aos cargos de diretora de jornalismo e secretária municipal de Comunicação, os prêmios que acumulei ao longo de minha vida e até esse título que recebo hoje, devo a ele. Tive grandes mestres no jornalismo, mas o mérito de meu sucesso profissional é, sem dúvida, de Zadir Marques Porto!

Como todo sábio, ele tenta se esquivar dessa responsabilidade. Mas em seu nome, Zamar, eu cumprimento e agradeço a todos os meus amigos e não somente jornalistas, colegas dessa labuta diária que é informar. Cada um de vocês que atenderam meu apelo para me aplaudir nesta noite tão especial sabe a importância que tem na minha vida. Um abraço aos meus parceiros da FTC – Faculdade de Tecnologia e Ciências – onde aprendo, a cada dia, a ser uma pessoa melhor. E, claro, meus colegas aqui da Câmara, da Prefeitura e de todos os lugares por onde passei.

O meu maior combustível sempre foram as palavras de incentivo e reconhecimento. Por isso peço licença para citar alguns nomes que precisam ser lembrados. Não todos, certamente, porque não há tempo para tanto. Mas não posso encerrar sem lembrar do velho Colbert Martins, um grande pai. Egberto Costa, o maior amor e melhor amigo. Socorro Pitombo, a amiga que faz tudo valer a pena. Neire Matos, parceira de vida. Jailton Batista, amizade a toda prova. Aparecida Machado, a pessoa mais generosa que eu conheci. Gilvan Brito e seu jeito peculiar de cuidar. Beatriz e Eveline, minhas meninas para sempre. Walter Xéu, meu irmão querido.  Jair Onofre, de quem eu não pretendo me separar nunca! Maura e Cristóvão, companheiros de aventura na Chapada. Tarcízio Pimenta, reconhecimento profissional. Vera Rabelo e Iara Pellegrini, alegrias em terras grapiúnas ou em qualquer lugar do universo. Reginaldo Pereira, amigo desde sempre. Dimas Oliveira, relacionamento construído em bases sólidas. Rose e Lineia, tudo em dobro: amizade, respeito, carinho. Anchieta Nery, saudade que não tem fim.

 Agora não vou citar pessoas, mas um grupo. No Whatsapp o nome é Pauta Livre. Somos todos jornalistas, trabalhamos juntos por aproximadamente dois anos e nunca mais nos deixamos. Uma vez por mês nos encontramos na casa de um, na casa de outro, em um bar ou restaurante. Às vezes falta um, faltam mais... Não importa. Estamos lá, firmes. Ninguém é obrigado, mas aniversário sem encontro? Não existe mais. Casa nova sem uma visita coletiva? Impossível. Fim de ano sem amigo secreto? Nem pensar. A essas pessoas eu devo a maior e melhor festa surpresa, em março deste, quando completei 60 anos. Cada um do seu jeito, um vai completando o outro e aproximando as famílias. Kenna, Beth, Dani, Ivanna, Bernardo, Lore, Linéia, mais Barretinho e Orisa e respectivos filhos, companheiros e companheiras. E alguns desertores. Gente, cadê Lucidalva?

Eu acho que nem deveria ter começado, porque a lista é extensa... Mas enfim, eu sou a soma de cada característica que melhor define os meus amigos. Todos. E olha que eu nem citei a família de oito irmãos, 35 sobrinhos quase filhos e 12 afilhados, todos igualmente amados, de perto ou de longe... Victor e Lílian, a vocês todo o meu carinho. E as cunhadas, aqui muito bem representadas pela minha comadre Julieta da Mata de Jesus.

Se me perguntarem se eu sou uma pessoa realizada, é claro que a resposta é sim. Mas eu ainda tenho sonhos e um deles é chegar o dia em que eu só vou divulgar boas notícias! A propósito, lá vai uma: A minha filha Hana Bárbara e meu neto Lucas são nascidos sob as bênçãos de Senhora Santana. E ano que vem chegará mais uma feirense para a família, Bruna: Vou ser vó novamente.

Aproveito este momento, que tem mais profissional de comunicação junto do que nas assembleias do sindicato, para lembrar aos companheiros de labuta jornalística, sejam iniciantes ou da velha guarda, como eu, um conselho de Machado de Assis para driblar a vaidade natural da profissão: Mais vale a crítica que constrói do que o ruído que lisonjeia.

Enfim, como costuma dizer minha amiga Socorro Pitombo, agradecer é preciso, então vamos lá.

 Obrigada a Deus, por todas as bênçãos em minha vida.

Obrigada a vocês que estão compartilhando esse momento comigo.

Obrigada a Marcos Lima, pela relação de carinho e respeito.

E agora só me resta reafirmar o meu amor por essa cidade que, segundo Jânio Rêgo, outro que chegou aqui e nunca mais arredou o pé, não há “má fama” que tire a sua essência, nem tampouco seu brilho de princesa do interior e sua grandeza de metrópole. 

 Feira de Santana, o lugar que eu escolhi para viver!


Discurso proferido na sessão solene da Câmara Municipal do dia 4 de dezembro de 2018, quando fui contemplada com o Título de Cidadã Feirense.

Madalena de Jesus, jornalista, professora, radialista e escritora 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

UM APÓLOGO

 

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Machado de Assis 

(Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59)

domingo, 22 de agosto de 2021

GALEGO DA COCADA E A PALMEIRA IMPERIAL DA PRAÇA DO LAMBE-LAMBE

 


Por Jânio Rêgo (*)

O Galego da Cocada, hoje instalado logo na entrada do Shopping Popular, me diz que foram  25 anos negociando na calçada próxima a essa palmeira imperial da praça do Lambe-Lambe no centro de Feira de Santana.

A palmeira talvez seja centenária como a praça inaugurada no início do século passado (1915) e hoje oficialmente chamada pelo nome do intendente na gestão do qual foi construída,  Bernardino Bahia.  Mas  pelo povo é  aclamada como  Praça do Lambe-lambe onde trabalhou, até ser removido para essa reforma em curso,  o meu amigo fotógrafo Zé Alves cuja saga é contada em documentário (O Retratista) produzido e dirigido pelos filhos dele.  

Nesta praça está o primeiro coreto erguido na cidade, segundo o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural  da Bahia que o tombou em 2002. Já naquela época o órgão reclamava do modelo de uso desse equipamento, o que nunca foi modificado. Ou seja, bar ou restaurante funcionando no ‘porão’ e o coreto em si ocupado como depósito. Não há informações sobre novo modelo ou se haverá um. Também não sei se os fotógrafos vão voltar.

Eram duas palmeiras imperiais. A outra foi condenada pelos botânicos e foi retirada numa operação com guinchos e caminhão, também lembra o Galego, enquanto mexe o panelão com ingredientes do doce. Eu digo que ele é sócio de Elias Tergillene e que foi o mineiro que mandou ele botar point da cocada e ele ri astutamente:

“Ele me deve é uma água mineral, passou aqui, bebeu e não pagou…! – Galego é um tipo brincalhão e comunicativo.

Há poucos dias, o Núcleo de Preservação da Memória Feirense ‘Rollie Poppino’ publicou uma foto de 1939 onde as duas palmeiras  aparecem, já adultas, mas ainda sem a companhia do edifício do INSS nem as duas falsas seringueiras que hoje a ocultam quando se fotografa do mesmo ângulo da foto antiga.

“Além do coreto, pouco se sabe sobre o mobiliário urbano, que parece ter sido bastante simples, limitando-se aos lampadários“, adverte o IPAC sobre os primórdios da praça na apresentação do bem tombado como patrimônio histórico da Bahia.

Há um busto do fundador desde 1956 na praça. Na última reforma, em 2000, a Prefeitura fixou a placa da reinauguração no pedestal  do busto com o nome do Prefeito  em letras garrafais maiores que a do nome da praça e do homenageado no bronze.

A reforma atual está privilegiando a pavimentação interna enquanto os arredores seguem o padrão do Calçadão da Sales Barbosa. Não parece haver acréscimo de verde, ou seja, plantio de novas árvores ou jardins. Mas é uma praça bem arborizada desde o início, isso também nos lembra o IPAC. Até a forçosa retirada  da outra palmeira provocou o plantio de mais três da mesma espécie.

Cronologicamente a praça da Matriz é a primeira. Mas na Bernardino Bahia é onde pulsa a Feira de Santana contemporânea. É a central, a que está no meio do quadrilátero comercial, aberta para a Sales Barbosa e a Senhor dos Passos onde se concentra o maior fluxo de consumidores.

Com um centro comercial cada vez mais desarborizado, com longas calçadas sem verde, a praça do Lambe-Lambe é um refrigério natural e imprescindível para o equilíbrio do clima e do ambiente.

E nem falei da feirinha de frutas e verduras…um privilégio urbano da Feira!


Jânio Rêgo é jornalista

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O DIA QUE JOÃO CORAGEM CHEGOU LÁ EM CASA

 


Por Marcílio Costa (*)

Já fazia um bom tempo que a energia elétrica tinha chegado em Jaguara, mas precisei esperar ainda intermináveis dois a três anos para ter a nossa primeira TV lá em casa, uma Telefunken com uma tela de proteção na frente e que ocupava lugar de destaque na sala. Não era apenas a nossa televisão, era o segundo aparelho que chegava na localidade. Era Jaguara entrando na modernidade, mesmo com um considerável atraso. Somente aos 9 anos de idade poderia dizer que tinha uma televisão para assistir, um sonho de menino que só via TV quando estava em Feira de Santana na casa de minha avó Santinha ou de minha tia Elizabete. Mas ter uma televisão em casa não significava exatamente poder assistir tudo quando bem entendesse como faz a garotada de hoje que tem a tv na palma da mão praticamente 24 horas por dia. Nas regras de meu pai, ver televisão também tinha horário determinado, assim como ele fazia com quase tudo lá em casa. Eu precisava escolher o horário para assistir televisão durante o dia e logo montei o que seria hoje minha playlist.
Como tinha direito a escolher dois horários, eu optei por ver a TV perto do meio-dia e no final da tarde, quando passavam meus programas favoritos. No primeiro horário, eu adorava ver Guerra Sombra e Água Fresca, uma bem-humorada série americana dos anos 60 ambientada num campo de concentração da Segunda Guerra Mundial, onde os prisioneiros aprontavam o que bem queriam e invariavelmente faziam o sargento Schultz de trouxa. Como esquecer do Agente 86, o incrível Maxwell Smart, um agente trapalhão apaixonado pela colega 99 e que tinha truques inesperados como falar num telefone disfarçado de sapato. No final, ele sempre acertava, de uma forma ou de outra, e saía como herói, mesmo depois de tantas trapalhadas.. A comédia americana era uma das minhas preferidas, ao lado de Jeannie é um Gênio, a Feiticeira e Robô Gigante, uma série onde um robô enorme e muito mal forjado aparecia sempre para derrotar o inimigo com o uso da força bruta e armas escondidas no corpo. O segundo tempo da minha jornada televisiva começava às cinco da tarde, hora de ver o cowboy Durango Kid, um faroeste americano que fez tanto sucesso no Brasil que virou até música de Raul Seixas:
Eu não sou besta
Pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
O Durango Kid
Só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra história com vocês
Muita gente que assiste televisão hoje com aparelhos ultramodernos, telas finas e imagens de qualidade impressionantes não faz a menor ideia como eram os aparelhos naquele início dos anos 70. Além de caras, as tvs eram enormes, pesadas, feitas em caixa de madeira e tinham válvulas que mais pareciam funcionar a lenha. Isso significava que era preciso esperar as válvulas esquentarem até começar a aparecer as primeiras imagens, que muitas vezes vinham com chuviscos e todo tipo de interferência, além de ser preto e branco . Em Jaguara a situação era ainda mais complicada. Distrito mais distante de Feira, o sinal chegava lá através da antena repetidora instalada no alto da serra de São José, no vizinho distrito de Maria Quitéria. Quando o sinal era interrompido batia o desespero na gente, porque muitas vezes precisava esperar mais de uma semana para assistir tv novamente até que a prefeitura mandasse consertar o equipamento, uma tarefa difícil por conta do acesso ao local. Outro problema era quando a tv quebrava. Era muito complicado levar aquele trambolho para consertar na cidade por conta do tamanho e da falta de um transporte adequado, afinal a gente andava era de pau de arara no meio de animais, bules e mercadorias.
No tempo que a novela das oito começava às oito horas mesmo, a nossa TV chegou quando Irmãos Coragem era o maior sucesso no país todo. A trama de Janete Clair contava a estória dos irmãos João, Duda e Jerônimo Coragem, garimpeiros que enfrentavam o todo-poderoso Pedro Barros, um malvado que perseguia a todos, especialmente aquela família que tinha a liderança de João Coragem, o personagem vivido por Tarcísio Meira no auge de seu esplendor de galã que reinou por muito tempo nas novelas da Globo ao lado de sua mulher Glória Menezes, que fez par romântico com ele naquela trama no papel de Lara, que se multiplicava por mais dois personagens, Diana e Marcia. João Coragem junto com os irmãos chegou lá em casa no início dos anos 70 e fazia o maior sucesso pelo seu rompante de heroi montado em seu cavalo ao melhor estilo dos faroestes americanos.
Mas a nossa família não assistia televisão sozinha. Com apenas dois aparelhos em Jaguara, logo os outros moradores foram em busca da nova diversão do lugar e a gente passou a ter a companhia de muitos outros moradores do distrito que todas as noites enchiam a sala lá de casa para ver o abobado Juca Cipó, a índia Potira, o jogador de futebol Duda, sua namorada Ritinha ou o vereador Jerônimo, personagens interpretados por artistas como Emiliano Queiroz, Lúcia Alves, Cláudio Marzo, Regina Duarte e Cláudio Cavalcanti, figuras que se tornaram conhecidas no Brasil afora. Afinal, eles ficaram mais de um ano no ar, no auge da audiência da Rede Globo que era uma unanimidade nacional com suas novelas de sucesso.
Televisão era um assunto tão importante naquela época e objeto longe do alcance da maioria da população da zona rural de Feira de Santana que logo virou política de governo do então prefeito José Falcão, que espertamente descobriu o quanto o povo gostava de assistir filmes e novelas. Ele mandou colocar aparelhos de TV na sede de todos os sete distritos de Feira, incluindo - é claro - Jaguara, que ganhou um equipamento instalado dentro de uma caixa de ferro trancada a cadeado em praça pública ao lado do mercado municipal, onde a turma passou a se reunir todas as noites para ver novelas como Selva de Pedra, Carinhoso, Bandeira 2, Cavalo de Aço e tantas outras, principalmente as novelas de época, que faziam especialmente a alegria de meu pai, que já conhecia as histórias através dos livros de autores nacionais como Machado de Assis,
Eu já tinha motivos de sobra para ter a TV num lugar especial em minha vida até que quase 20 anos depois da sua chegada em Jaguara quis o destino que eu fizesse parte da equipe de implantação da primeira emissora Globo no interior da Bahia, a TV Subaé, que faz parte da minha história há mais de 30 anos. Quem diria, o menino de Jaguara chegou na Globo que tanto admirava.
Plim plim!!!

Marcílio Costa é jornalista.

domingo, 8 de agosto de 2021

DEIXA A VIDA ME LEVAR....



Antônio Carlos Garcia (*)

O poeta gaúcho Mário Quintana, que nos deixou em maio de 1994, aos 87 anos, pediu que escrevessem o seguinte epitáfio na sua tumba: “eu não estou aqui”. Essa história foi lembrada pelo professor Mário Sérgio Cortella durante uma palestra e dá margem a várias reflexões. Escolho uma que mais se identifica comigo: a de que nem ele, Mário, e nem os que foram para o outro plano terminaram toda uma história ali, reclusos num jazigo. Naquele lugar sucumbiu um corpo físico.  A alma segue aprendendo em algum lugar, afinal, “há muitas moradas na casa do meu Pai”.

Esse preâmbulo é para, neste Dia dos Pais, reverenciar a memória do meu pai, Raimundo Ferreira dos Santos, que durante sua passagem por esta orbe, pegou emprestada a música de Zeca Pagodinho, “Deixa a vida me levar”, para transformá-la em filosofia de vida. Ele, repetidamente, em algum momento de tensão, problemas e preocupações, dizia: “deixa a vida me levar”.

E como ele tinha razão quando dava esse conselho! Afinal, tudo na vida passa: a maior alegria e a tristeza mais profunda são passageiras e ao deixarmos a vida nos levar aprendemos bastante. Na medida do possível devemos levar a vida com leveza, com olhar terno e um sorriso cativante. Encarar os problemas como oportunidades de aprendizado para sermos cada dia melhores.

Raimundo procurou ser um bom aluno nessa escola chamada Terra, onde o nosso mentor maior – Deus, o Grande Arquiteto do Universo – nos dá liberdade para crescermos. Essa liberdade é o livre arbítrio.  É uma liberdade tão grande que alguns metem os pés pelas mãos e se atrapalham de vez quando. Outros se atrapalham o tempo todo. Mas como a bondade do Pai é infinita, a todos é dada a oportunidade de voltar aqui quantas vezes forem necessárias para aprender o que significa o livre arbítrio. E ao aprender, todos crescem. Essa é a regra. Por mais que demore milênios, um dia todos seremos prefeitos.

Acredito que Raimundo esteja em uma das “moradas” se aperfeiçoando, crescendo, tornando-se melhor, porque, insisto, esse é o caminho de todos. Quando ele desencarnou, lembro-me de dois momentos marcantes. Um vivido por mim e outro pela amiga Márcia Pitão, que tinha [e tem] adoração por Raimundo. 

No início de uma manhã de novembro de 2015, um domingo, ao sair de Aracaju, onde resido, com destino a Feira de Santana para o sepultamento de meu pai, tive a forte impressão dele estar comigo, minha mulher, Rose, e meu filho João Pedro, dentro do carro viajando conosco, nos fazendo companhia. Acredito que ele estava ali.

Passados alguns meses, eu estava no Dispensário de Santana, participando de uma missa festiva com a amiga Márcia Pitão e no final ela me disse: “Galinho estava aqui na missa”.  Galo ou Galinho era o apelido de meu pai.

Portanto, o que está num jazigo perpétuo no Cemitério Piedade são os restos mortais de Raimundo. Ele, de fato, não está ali no túmulo como bem escreveu Mário Quintana. E para deixar uma reflexão, recordo-me da mensagem ditada pelo espírito Leocádio José Correia ao médium Maury Rodrigues da Cruz, da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas: “a vida não começa no berço e nem termina no túmulo”.

Feliz Dia dos Pais, Raimundo. Feliz dia aos pais encarnados e desencarnados.


(*) Antonio Carlos Garcia é jornalista feirense radicado em Aracaju.

A foto é de Reginaldo Pereira Tracajá

terça-feira, 3 de agosto de 2021

LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA


Por Socorro Pitombo

Todos os dias eu ia para a escola com as amigas, conversando, contando casos. No pátio, antes das aulas, cantávamos o Hino Nacional, e ai de quem esquecesse uma estrofe! Era palmatória na certa.  No retorno era a tagarelice de sempre, uma alegria.  As pesquisas escolares eram feitas na Biblioteca Pública, consultando enciclopédias. Não existia o google e outras facilidades.

Na escola a gente costumava colocar apelidos nos colegas, eu era a perna seca, mas tinha o balofo, o palito e por aí vai. Ninguém reclamava de bullyng. Nosso refrigerante era o Sukita ou suco de uva, um saquinho dava uma boa quantidade. De volta da escola, era a hora da merenda; vovó Belinha, mãe do meu pai, era quem nos servia: pão com manteiga e açúcar por cima, com suco de uva.

A gente sabia quando o pão estava saindo do forno por causa do cheirinho que subia da padaria do seu Zé, que fazia esquina com a nossa casa, na rua Direita. Era só botar manteiga que derretia no pão. Hummmm.... e as queijadas eram maravilhosas. Na padaria de seu Zé tinha um pão de sal e uns biscoitos deliciosos, além de sorvete de coco com doce de leite e sorvete de ameixa também. Vendia uma bala de nome café com leite.

A noite caía e era hora da brincadeira. Cabra cega, chicotinho queimado. Também brincávamos de roda, tirando versos e outras brincadeiras com a criançada da vizinhança, até que chegava a hora de nos recolher, o que fazíamos a contragosto. Nos fins de semana, era a vez de brincar de teatro ou de cantoras do rádio. As músicas eram inventadas por nós. Imaginem as letras rsrsrsrs.

Tinha também a brincadeira de panelinha. Eu, minhas irmãs e as amigas fazíamos cozidos de folhas nos frondosos quintais de nossas casas. As panelinhas de barro eram compradas nas barracas da feira livre, que acontecia às segundas-feiras e se estendia desde a praça da Bandeira até as proximidades do Hospital EMEC.

Nossos pais sempre presentes, educação começava em casa. E na rua, se fizéssemos alguma bobagem, era beliscão, cascudo, ou o infalível “a gente conversa em casa”. Tínhamos hora para tudo, chegar em casa, tomar banho e sentar à mesa. E ai de quem dissesse alguma coisa. A hora do jantar era sagrada. Era sopa, café com pão e biscoito, que chamávamos de “enche boca”, porque era um biscoito fofo e bem grande. Essa bolacha, melhor dizendo, ainda hoje rende conversas entre nós, os irmãos.

Essas lembranças da infância me acompanham pela vida a fora e hoje senti vontade de escrever sobre elas. Lembro que uma das minhas irmãs, já adulta, resolveu aprender a andar de bicicleta. Na primeira tentativa levou uma bela queda e esfolou os joelhos. Mas essa é uma outra história...

Socorro Pitombo é jornalista

Feira de Santana, 17 de julho de 2021

terça-feira, 27 de julho de 2021

BALADA DO DESGARRADO PARA ALAÚDE ROUCO

 

Jozailto Lima

                                                                        Ronaldson 


“quando me percebi já era alheio”

ezio déda


te apartaste e te perdeste

[boi na cordilheira,

cavalo no teto de zinco,

gato no fundo do mar]

dos caminhos mais elementares.

 

quede o orvalho

das madrugadas

 

quede as vias

de pó e poeira

fumegando a vontades

gerando gerânios ranchos rancharias

encontros e tropas de alegrias


quede o laço do abraço

distendido no vento

aberto na brisa do nada

- no nada que vale um tudo.

 

de pouco te valeram

óculos novos

enciclopédia universal

os bolsos topados de sonrisal

cartilagem de tubarão

mandingas de fulô preto

mantos de nuvens e manacás

se caducos

são os teus gestos,

                    caducos e crespos

 

se te apartaste

de toda a flora

da mínima areia e teogonia

que te remeteriam

ao reconforto

de mãos antigas          

[desprovidas de pretensões

de pedras]

e dos cheiros amigos

 

se te impermeabiliza

em casacos difíceis

em bílis de granito

 

se te esteriliza

e infundes distâncias

ao que de tão perto

e próximo

clama cócegas

                  e apalpos

e sal e luz

e poderia estar

aí contigo

mineral latente e seminal

sem jamais torar

na cepa.

no dentro-âmago.

[tanto que teu pai

e aqueles passarinhos roucos,

óputo,

te pediam pra prestares

a atenção na direção das brisas

e no bailado lutrido das samambaias]

 

apartado de tudo,

bezerro sem teta

nem consolo de úbere postiço,

nu, desamparado de solo e útero,

não escalas mais montanhas,

não trepas mais os topos altos

e básicos de ti mesmo.

 

te descolaste da terra

dos galhos dos ramos

das flores das sementes

da palharia que se fazem húmus

e voltam em copa grande

de arvoredos imprescindíveis

- em lutrido bailado de samambaias.


boi na cordilheira

gato no fundo do mar,

foste ali com teus pés

de zinco - sem o auxílio

do teu burro preto –

acessar ninguém

e não sabes quando voltarás.

 

possivelmente não voltarás,

de tão apartado

dos caminhos em que estás.


Jozailto Lima nasceu em Várzea do Poço em 11.11.1960, morou 11 anos em Feira, começou no jornalismo pelo Feira Hoje em 1983, fez Letras na UFS e desde 1990 mora em Aracaju, Sergipe, onde fez Comunicação Social e vive 100% do jornalismo, hoje comandando o Portal JLPolítica. É autor de cinco livros de poemas, entre eles "Viagem na Argila", de 2012, onde está este poema, e "Ainda os lobos", de 2016. Tem três consideráveis  prêmios de poesia.

Ilustração de Ronaldson, designer e grande poeta sergipano, autor dos livros "Questão de Íris" e "Litorâneos"