quinta-feira, 10 de outubro de 2019

CEO BRASILEIRA É CANONIZADA




Irmã Dulce, a primeira santa brasileira.

No próximo domingo, na praça do Vaticano, vou assistir à canonização de Irmã Dulce. Irmã Dulce não é apenas a primeira santa brasileira, ela é a primeira CEO brasileira a ser canonizada.

A Organização Social Irmã Dulce é o seu primeiro milagre. Franzina, saúde frágil, ela não tinha a rigor condições físicas de fazer nada nem de segurar um copo de água.

Mas seu hospital de mil leitos construído sabe Deus como é obra do seu empreendedorismo. O hospital começou num galinheiro nos fundos do convento e hoje tem 40 mil m².

Conheço bem a história da santa porque Irmã Dulce, que tinha sérios problemas pulmonares, era paciente do meu pai, médico pneumologista. Meu irmão André Guanaes, quando residente, também foi seu médico.

Ele conta algo que é típico da situação de tantos CEOs no Brasil: os problemas respiratórios de Irmã Dulce pioravam todo fim de mês. E ele sempre a escutava dizer: dia tal eu tenho 3 milhões para pagar, isso é problema de Santo Antônio, isso não é meu problema, isso é um problema dele.
O problema era de Santo Antônio, mas era ela quem ia pedir a Antônio Carlos Magalhães, a Ângelo Calmon e a outros poderosos da Bahia e do Brasil.

Ela era santa com os pobres, mas não era santa com os ricos. Com esses, ela era pragmática. Como uma boa CEO, conversava com todo o mundo. Com a direita, com a esquerda, com o que está entre as duas e além. Sua relação com o grande líder espírita da Bahia, o igualmente santo Divaldo Franco, é maravilhosa. Foi, assim, maior que a igreja que agora a canoniza.

Escrevo este artigo emocionado porque conheço a história de perto —de seu início no bairro pobre de Alagados até os atuais 2 milhões de atendimentos ambulatoriais, 18 mil internamentos e 12 mil cirurgias por ano. Como uma pessoa que dormia sentada por causa dos problemas pulmonares pode tocar uma obra desse tamanho? Milagre.

Tudo na Bahia que eu nasci e cresci era destinado a ajudar as obras assistenciais de Irmã Dulce: bingo, quermesse, show. Era tudo para ela pagar o seu fim de mês.

Nesse mesmo espírito, estou participando de uma iniciativa artística na Bahia para celebrar a nossa santa. 77 artistas da música baiana foram a estúdio gravar a música de Irmã Dulce. Ivete Sangalo, Luís Caldas (que criou a música axé), Margareth Menezes (que vai cantar no Vaticano) e dezenas de músicos talentosos gravaram com dedicação e disponibilidade que nunca vi.

Decidi me dedicar cada vez mais a causas sociais. Sou orgulhoso e odeio pedir, mas isso não combina com obra social. Dou do meu e dou de mim e fico imaginando o que a frágil Irmã Dulce passou para ampliar, modernizar e manter a cada fim de mês seu hospital de mil leitos.

Uma obra dessa não se faz só com bondade, mas com determinação, com disciplina, com empreendedorismo.

Ela era focada, cercou-se dos melhores, aplicava orçamento base zero (era uma Beto Sicupira de hábito) e tinha um modo peculiar de levantar fundos: ficava na sala de espera do futuro doador e só saía de lá quando o próprio se dignava a recebê-la. O povo da Bahia é testemunha.

Por isso, 15 mil baianos vão a Roma no dia 13 assistir à canonização. E, no dia 20, Salvador vai parar para ver a missa de sua canonização no Estádio da Fonte Nova.

Irmã Dulce não é uma santa católica. Ela é uma santa baiana. São devotos dela a mãe de santo, o ateu, o pastor e até o padre. Desafio a Harvard Business School a escrever o estudo de caso de Irmã Dulce, a primeira CEO brasileira a ser canonizada pelo Vaticano.

Nizan Guanaes

domingo, 22 de setembro de 2019

FEIRA DE SANTANA:186 ANOS DE HISTÓRIAS PARA RECORDAR




Feira de Santana me encanta. Às vezes me emudece e ainda me traz uma sensação de irrealidade. Nascida e criada nesta cidade, acompanho com atenção o seu desenvolvimento. Mesmo assim, às vezes eu a desconheço. E me pergunto: que cidade é essa? O burburinho, a movimentação do comércio, o trânsito congestionado, as sinaleiras, os viadutos. A cidade fervilha no seu cotidiano.

A primeira sinaleira colocada na cidade foi um acontecimento, motivo de muito entusiasmo para os moradores. Uma novidade! Significava o primeiro passo para o desenvolvimento. Lembro, de ouvir contar, um fato interessante, envolvendo um fazendeiro muito conhecido. Reza o “folclore” que o senhor em questão, ao se deparar com o sinal vermelho explodiu:

– Quero ver quem vai me impedir de atravessar a rua. Esse sinalzinho?

Bradou enraivecido e invadiu o sinal, felizmente sem causar danos!  Essa sinaleira, a despeito da indignação do fazendeiro, se constituiu, sem dúvida, num dos marcos importantes do crescimento da Princesa do Sertão, assim denominada pelo jurista Ruy Barbosa.

A Feira de Santana de hoje, nem sequer lembra a pacata cidade dos anos de outrora. Já pertenceu a Cachoeira que, por muito tempo foi considerada a capital do Recôncavo baiano e da qual foi desmembrada. Tornou-se a segunda maior e mais importante cidade do Estado da Bahia, embora o progresso desordenado tenha contribuído para desfigurar a paisagem, com a transformação da vida urbana.

Uma promessa que se fez cumprir, o comércio trouxe para essas bandas, as gentes do Ceará, de Pernambuco, das Alagoas, e de tantos outros estados, à procura de melhores dias. Aqui se instalaram. No começo era uma bodega, depois um armazém, o Mercado Municipal onde as pessoas iam às compras semanalmente. A farinha colocada numa mala de couro e a recomendação do meu pai:

– Só me traga a farinha da mala de Joaquim. É a melhor do mercado!

Pouco a pouco, no entorno do Mercado foi surgindo uma feirinha com os produtos colhidos nas hortas das chácaras, muitas situadas na atual avenida Presidente Dutra, quando ali ainda havia residências. No início eram apenas pequenos feirantes com a mercadoria estendida sobre forros de sacos de açúcar do velho calhamaço, que impedia o contato direto com o chão. Tudo muito improvisado. Com o passar do tempo esse comércio cresceu, dando origem à famosa feira livre, que acontecia sempre às segundas-feiras.

Os carregadores de feira com o balaio na cabeça eram contratados para acompanhar principalmente as senhoras em suas compras. Não existia outro meio de transporte para as mercadorias. Mais tarde foram surgindo os carrinhos de mão. Já os carros de praça ficavam estacionados na praça da Bandeira. E só eram usados por pessoas abastadas.

Com beijinhos?

 Durante as compras, ao encontrar com as amigas trocávamos beijinhos e ficávamos conversando sobre os últimos acontecimentos, os namoricos, e outras tagarelices, esquecendo completamente o carregador com o pesado balaio na cabeça. Desse modo, com beijinhos e conversa, o carregador exigia preço diferenciado.

As varandas eram raras nas residências da rua Direita. Creio que a nossa casa era a única da rua em estilo moderno, um bangalô, como se chamava na época. Era comum ficarmos na varanda depois do jantar. Nosso local preferido para as brincadeiras. Eu, ainda uma pirralha, junto com minhas irmãs e as amigas cantávamos, dançávamos, o que chamava a atenção pela nossa alegria.

Foi durante uma Micareta que, pela primeira vez, conhecemos o Trio Elétrico de Dodô e Osmar. Ficamos literalmente fascinadas, arrepiadas com aquela música estridente e irresistível! Diante da nossa animação, o trio estacionou bem em frente à nossa casa, onde ficou por um bom tempo executando as marchinhas carnavalescas de então. Não é preciso dizer que foi a glória! 

A Micareta de Feira, a primeira do Brasil, começou nas imediações da Loja Pires, na praça da Bandeira, mas aos poucos foi tomando vulto e se estendendo pela rua Direita. Moças e rapazes munidos dos saquinhos de confetes e serpentinas, lançavam e recebiam jatos de lança-perfume, o que representava o máximo da paquera.

Enfim, era na rua Direita onde tudo acontecia. Não só a Micareta como a Festa de Santana.  Dois meses antes da festa realizava-se o Bando Anunciador, com mascarados, blocos e outras atrações, dando início à festa profana. O zabumba do Distrito de Bonfim de Feira ou de Riachão do Jacuípe animava o cortejo.

A lavagem da igreja precedia o novenário, que atraia grande número de fiéis. Havia também a Levagem da Lenha, um desfile que remontava a uma época em que a cidade não possuía luz elétrica e era iluminada por grandes fogueiras. Na praça, depois da novena, a movimentação em torno das quermesses, o parque de diversões e as tocatas, pelas Filarmônicas 25 de Março e Vitória, como também a Euterpe Feirense que, no Coreto, executavam dobrados.

As mocinhas com seus vestidos de festa rodeavam o coreto, não só para exibir a elegância dos trajes confeccionados especialmente para o evento, como também para serem cortejadas. As famílias a tudo assistiam atentamente, instaladas em cadeiras, que traziam de casa, a fim de apreciar os festejos de modo mais confortável. Cada uma delimitando seu espaço.

O auge da Festa de Santana era, como ainda hoje, a procissão com as charolas ricamente ornamentadas, destacando-se a de Senhora Santana, a nossa santa padroeira. O cortejo no final da tarde, acompanhado por milhares de fiéis muito contritos, seguia até a igreja da Matriz, onde era celebrada a missa campal. A bênção do SS Sacramento encerrava os festejos religiosos.

Bons tempos aqueles que agora recordamos. De repente, a cidade se transforma. E aparecem a S.A João Marinho Falcão, a Loja Pires, em cuja marquise aconteciam os shows de Luiz Gonzaga, Ângela Maria e outros artistas consagrados. Também o Centro Comercial Mandacaru – o chique daquela época – foi transformando a rua Direita na rua Conselheiro Franco, totalmente invadida pelo comércio, expulsando gradativamente as casas residenciais, para dar espaço ao avanço progressivo do desenvolvimento.

Parabéns Feira de Santana pelos seus 186 anos de emancipação política. Continue crescendo para orgulho dos seus filhos e daqueles que para aqui vieram em busca de melhores oportunidades.

Socorro Pitombo, jornalista

P.S. Texto inspirado nas lembranças da minha irmã, Therezinha Pitombo

terça-feira, 13 de agosto de 2019

CANTORAS NEGRAS SÃO DESTAQUE EM FEIRA DE SANTANA



Um olhar cuidadoso sobre as expressões musicais em Feira de Santana torna obrigatório reconhecer o fundamental protagonismo das mulheres em nossa música. Para começar, Feira de Santana é uma das poucas cidades do Brasil que tem seu hino composto por uma mulher: Georgina Erismann, no início do século XX, fez o “Hino a Feira”, numa época em que a mulher sequer tinha direito a voto.

Uma das mais tradicionais expressões culturais de Feira de Santana, reconhecida internacionalmente, é capitaneada por uma mulher: Dona Chica do Pandeiro é a matriarca da Quixabeira da Matinha, exercendo um papel de liderança que remonta às origens do samba, como faziam Tia Ciata e Perciliana, as santamarenses que recebiam e protegiam as rodas de samba no Rio de Janeiro do início dos anos 1900.

A quantidade de cantoras feirenses em atividade atualmente é enorme: podemos falar de Dilma Ferreira, a madrinha do bloco Bacalhau na Vara, e de Márcia Porto, com extensa carreira e trabalhos de repercussão nacional. Mas também há Célia Zaiin, Goreti Figueiredo, Celli Noblat, Cecília Castelli, Sarah Reis, Venus Carvalho, Paulla Cavalcante, Pétala Ribeiro, Kareen Mendes, Camyla Pereira, Carol Pereyr, Juliana Greyce, Kelly Ventura, Karla Janaína, Amanda Magalhães, Lorena Porto, Dayane Sampaio e Isa Roth.

Apenas exemplos de um ambiente artístico fértil e bastante qualificado. Fora dessa lista estão quatro nomes de cantoras feirenses, negras, que estão despontando no cenário artístico local, estadual e até nacional, pela originalidade e personalidade das suas produções artísticas. São elas: Maryzélia, Paula Sanffer, Duquesa e Juli.

MARYZÉLIA

A sambista Maryzélia é uma das cantoras feirenses que já possui uma carreira no plano nacional, sendo reconhecida por grandes nomes da música brasileira. Já dividiu o palco com Roberto Mendes, Lulu Santos e Maria Rita. Recentemente chegou a se apresentar no programa Encontro, com Fátima Bernardes, na ocasião do lançamento do novo disco do compositor, cantor e arranjador Pretinho da Serrinha. A feirense participa do projeto Criolice, uma das maiores rodas de samba da capital carioca, e tem feito apresentações em espaços tradicionais da noite do Rio, como o Bar do Zeca Pagodinho e o Bigode Bar.

PAULA SANFFER

A cantora e compositora feirense Paula Sanffer encantou os jurados do programa The Voice Brasil, em 2015. De lá para cá, Paula vem conquistando espaços na sua carreira, culminando com a assunção do posto de vocalista da Timbalada, uma das mais tradicionais bandas da Axé Music baiana.
Já gravou um disco com o grupo (Timbalada Século XXI), e vem fazendo apresentações por todo o Brasil. Recentemente participou do clipe “Rei Gonzaga”, em homenagem ao Rei do Baião:

DUQUESA

A rapper feirense Duquesa é um destaque da novíssima geração de artistas feirenses. Cantora e compositora, a feirense já é reconhecida no cenário rap da Bahia e do Brasil, sendo citada por grandes nomes do rap (a exemplo de Rincon Sapiência) e pela mídia especializada.
Em suas canções, fala de racismo, desigualdade, machismo e temas correlatos. A seguir, o clipe da música “Futurista”, uma composição própria:

JULI

A mais recente aparição na música feirense é a cantora Juli, que tem surpreendido pela personalidade única, apesar da pouca idade (apenas 19 anos). Além do timbre peculiar, Juli é uma compositora com inacreditável intensidade: afirma já ter composto mais de 100 músicas. Esse talento já saiu das fronteiras de Feira de Santana. Acaba de gravar o single “Ainda Vibra”, em parceria com o cantor e compositor Pedro Pondé (ex Scambo).

Maryzélia, Paula Sanffer, Duquesa e Juli possuem talento e capacidade musical para desenvolveram carreiras artísticas de destaque, ao lado de grandes nomes da MPB. Que elas e todas as demais cantoras feirenses sigam produzindo boa música, e que a cidade tenha a capacidade de se reconhecer como um celeiro diferenciado de artistas – algo muito raro no Brasil e no mundo.

Texto extraído do site Feirenses

terça-feira, 30 de julho de 2019

INACESSÍVEL É O CÉU



Esse texto foi escrito em 2004 e publicado em 18 de setembro do mesmo ano, no Jornal Folha do Estado, como matéria especial da edição alusiva ao aniversário de Feira de Santana. Hoje, exatos 15 anos depois, Maria José é professora concursada da rede estadual de ensino, perdeu o convívio com o companheiro da vida inteira, que faleceu no ano passado, é avó, fez a tão sonhada viagem à França – ela define Paris como um grande museu a céu aberto – e aos 71 anos ainda não pensa em se aposentar. “Ah, só daqui a uns anos”, diz, cheia de vigor.


A professora Maria José de Macedo Santana ainda guarda na memória o dia em que saiu da casa onde nasceu, em um pequeno sítio na cidade de Ribeira do Amparo, no Nordeste da Bahia, para frequentar a escola, em Caldas de Cipó, com apenas oito anos de idade. Foi lá também que cursou o ginasial e tomou gosto pelos estudos, mas não pôde continuar. Naquela época, as alternativas eram Alagoinhas, Feira de Santana ou Salvador. Todas inviáveis.

Esse foi apenas um dentre os muitos empecilhos que a penúltima dos 13 filhos do agricultor Luiz Gonzaga de Macedo e Maria Dantas de Macedo enfrentou ao longo da vida. Ela voltou para casa com uma pontinha de frustração, reforçada pelos lamentos da professora Maria Odete Santana. Determinada, Zelita – como ainda hoje é chamada pelos familiares – aprendeu desde cedo a perseverar, mas também a esperar.

Hoje com 57 anos de idade, ela avalia que valeu a pena a forma como conduziu a própria vida. Sim, porque coube a ela todas as decisões que demarcaram seu destino: do casamento com o motorista Daniel Aureliano de Santana, aos 19 anos, contra a vontade dos pais, à retomada dos estudos, anos depois. “Casar, naquela época, era a alternativa para a grande maioria das mulheres, mas eu casei por amor”, disse Maria José, convincente.

Arrependimento? Em nenhum momento. Mas volta e meia a vontade de estudar despontava, para ser barrada pelo marido. Veio o primeiro filho e o sonho parecia, então, mais distante. “Eu estudava em casa, comprava dicionários, revistas, livros de bolso, romances”, contou. Mas o que ela queria mesmo era aprofundar os conhecimentos em Francês, que estudou no Ginásio e nunca mais esqueceu. “Até hoje eu tenho as anotações guardadas”, lembrou.

Assim como as anotações, ela mantém guardados os presentes dos amigos, conhecedores de seu gosto “pelas coisas da França”, dentre os quais o volume completo da publicação “C’est Facile”, que traz os primeiros passos para a aprendizagem da Língua Francesa. Foi em Feira de Santana – ela veio para a cidade em 1972 – que aconteceu o passo definitivo. A primeira tentativa foi um curso de Francês, mas era caro.

“Quando eu disse que o preço não era acessível, o professor Jean Marie disse; ‘inacessível é o céu’”, recordou Maria José, que passou a fazer da frase uma filosofia de vida. Até o marido mudou de opinião. Os colegas sugeriram que ela fosse para a Universidade, mas era preciso concluir o segundo grau. O caminho foi o CPA (antigo Supletivo), com a ajuda dos filhos Itaniel, Flávia, Lívia, Valéria e Débora.

Aos 49 anos, em 1977, ela cruzou os portões da Uefs para frequentar o curso de Letras com Francês. “Um sobrinho disse, quando comemorávamos o resultado do vestibular, que passar era fácil, difícil era cursar”, lembrou Maria José. A resposta veio com o histórico escolar: o curso em tempo mínimo e nenhuma prova final. “No início eu temi que houvesse rejeição, pela idade”, disse. Mas foi só no início.

Dentro do Espírito de não desistir nunca, ela acabou se tornando o exemplo da turma. No dia da formatura, fez o juramento – em francês, é claro – e emocionou a todos. Hoje, Maria José é Especialista em Gramática da Língua Portuguesa, pós-graduação feita também na Uefs, dá aulas particulares de francês e se prepara para a seleção de Mestrado em Literatura. Depois? Como diria Jean Marie, inacessível é o céu.

Madalena de Jesus, jornalista


quarta-feira, 24 de julho de 2019

SANTUÁRIO DE SANTA LUZIA, SÍMBOLO DE FÉ E DEVOÇÃO






Antonio Carlos da Cunha

 Edenilde Pinto da Cunha

Num percurso de 6,5 quilômetros de estrada de chão, em meio ao verde do pasto, da palma e do mandacaru, chega-se a uma igrejinha, que está no alto, sentido à BR 116 – Sul, no distrito Governador João Durval Carneiro, antigo Ipuaçu. É um local muito pouco conhecido pelos feirenses.

Uma placa informa que o Santuário de Santa Luzia foi fundado em 2 de julho de 1656 e guarda por trás das suas largas paredes que chegam a quase um metro, uma história de fé e devoção nesses três séculos. Para os católicos, a santa é a protetora da visão. Cinco casas parecem proteger o templo.
Todos os anos, em dezembro, romeiros de vários municípios da região vão a Ipuaçu para reverenciar a santa – 13 de dezembro é o seu dia. Vão agradecer as graças alcançadas, renovar a fé, pagar promessas e pedir um milagre.

Romeiros vêm de várias cidades 

“Chegam ônibus de Cachoeira, Muritiba, Anguera, São Gonçalo dos Campos, Conceição da Feira e São Felix. E vem gente também daqui de Feira, dos distritos de Bonfim de Feira e Jaguara”, conta seu Antônio Carlos da Cunha, 65 anos, um dos moradores do pequeno povoado.

Segurando em uma das mãos a rédea do cavalo e com a outra uma ponta de cigarro de palha, seu Antônio diz que em três casas daquelas “mora gente da família: irmãos e sobrinhos. Nas outras duas são outros moradores”. Todos eles têm um carinho especial por Santa Luzia.

Uma de suas irmãs, Edenilde Pinto da Cunha, 56, é quem está sempre à frente da manutenção do santuário. Ajuda na limpeza, participa da liturgia, organiza leilões e a tradicional quermesse no período festivo, quando conseguem arrecadar contribuições dos fieis visitantes. Esse dinheiro é aplicado na própria igreja.

Falecido há onze anos, aos 94 anos de idade, o pai de seu Antônio e dona Edenilde foi um dos primeiros moradores do povoado. “Ele contava que os mais antigos diziam que a igreja foi construída depois que uma imagem de Santa Luzia apareceu naquele trecho do Rio Jacuípe”, relata do quintal da sua casa apontando para o rio que corta Ipuaçu.
Edenilde lamenta substituição do piso em blocos de argila

Dona Edenilde diz que a igrejinha mantém desde sua construção os três altares – um central com as imagens da padroeira, de São José e São Caetano, e dois laterais, onde estão expostas as imagens de São Roque e Nossa Senhora da Guia. Ela lamenta que o piso em blocos de argila foi substituído por cerâmica. “A igreja não é tombada”, observa acrescentando que as portas e suas largas fechaduras ainda são originais.

Em um dos lados do templo está a sacristia e do outro é a Sala de Promessas, onde estão penduradas nas paredes fotografias, mensagens em agradecimento pelas graças alcançadas, pedidos de intercessão a Santa Luzia e imagens dos olhos e de vários santos. Neste local, o piso foi preservado.

“Em 2003, padre Rosivaldo teve a ideia de criar essa sala e impulsionar as homenagens a Santa Luzia com a realização da festa que acontece em dezembro. Desde aquele ano, que o número de visitantes aumentou e vem tomando uma proporção maior a cada ano”, conta dona Edenilde acrescentando que São Roque também é homenageado, no mês de agosto, entre os moradores.

No Santuário de Santa Luzia, as missas são celebradas sempre no segundo domingo do mês, às 16h, reunindo somente o povo da localidade. A igreja pertencente à Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, situada na sede do distrito.

Valor histórico e cultural

Diretora de Turismo da Secretaria Municipal do Trabalho, Turismo e Desenvolvimento Econômico, Graça Cordeiro, ressalta a importância da festa de Santa Luzia e o seu alcance entre os católicos das cidades circunvizinhas e até aquelas mais distantes. No entanto, reconhece que essa festa deveria ter uma maior visibilidade entre os feirenses.

“Embora o santuário esteja situado em nosso município e com mais de três séculos de existência, entre os católicos de Feira ele ainda é pouco conhecido. Ao contrário da festas em homenagens a Santo Antônio, na Igreja dos Capuchinhos, e da padroeira Senhora Sant’Ana”, afirma.

De acordo com ela, as igrejas têm grande valor cultural e histórico, sobretudo no contexto de formação da cidade, a exemplo da Catedral Metropolitana de Santana. “Estamos de portas abertas para contribuir com o turismo religioso em nossa cidade, assim como já acontece em Salvador, Candeias, Bom Jesus da Lapa e nas cidades do Recôncavo Baiano, a exemplo de Cachoeira", destaca pontuando que Prefeitura, por meio do Departamento de Turismo, já se colocou à disposição da Arquidiocese de Feira de Santana para contribuir na implantação da Pastoral do Turismo.

Texto: Renata Leite
Fotos: Luis Troina 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

UM LIVRO ESCRITO COM A ALMA




A relação de Madalena de Jesus com os livros sempre foi muito próxima.  Ela conta que desde menina lia tudo que chegava em suas mãos. Com o passar do tempo, essa ligação aliada à escrita foi se estreitando cada vez mais, com o incentivo dos professores e da família.

Com essa vocação ela só poderia ser jornalista, profissão em que foi longe, como já vaticinavam os mestres. É também professora graduada em Letras com Francês pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e pós-graduada em Docência em Ensino Superior pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), formação que lhe permite transitar com desenvoltura na educação, com experiência sobretudo nas áreas de Língua Portuguesa e Literatura.

No Brasil da atualidade a literatura está bem representada sobretudo pelas mulheres com histórias de vida fascinantes e trabalhos tanto em prosa quanto em verso.  Em Feira de Santana não é diferente. A jornalista Madalena de Jesus nos presenteia com seu livro “Tabuleiro da Maria”, uma coletânea de textos extraídos do blog do mesmo nome.

Escrito com a alma, como bem define a também jornalista Beatriz Ferreira, o livro traz uma diversidade de temas que vão desde o simples relato sobre pessoas de sua convivência; colegas, amigos, parentes, passando por situações que demonstram o seu amor pela cidade que a acolheu como filha e sobre sua própria história.

Como boas amigas que somos, amigas quase irmãs, é possível que alguns acreditem que esse texto não passa de um comentário elogioso. Mas creiam, justamente por essa razão, procurei me cercar de um certo distanciamento ao falar sobre “Tabuleiro da Maria”, uma publicação cheia de encantos, que vão sendo descobertos a partir da leitura fácil e comunicativa da autora.

Nem choro nem vela

Um dos textos mais interessantes é sem dúvida aquele em que ela discorre sobra a sensação de estar morta e assistindo ao próprio velório. Não, não é um relato macabro, nem tão pouco bizarro como se poderia imaginar á primeira vista. Muito pelo contrário, é até certo ponto hilário

O suposto velório é divertido, engraçado, bem ao estilo Madalena de Jesus, que tem na alegria a sua marca registrada. Mas quando morrer de verdade, ela quer mesmo os amigos em volta, com muita música, poesia e literatura.  Podem até distribuir livros, concorda. Mas no final o que prevalece mesmo é a máxima: melhor ficar velho, que morrer.

Lindamente escrito, o que me emociona mesmo é o que Madalena relata sobre o pai, Amílcar de Jesus, seo Zinho, como era mais conhecido. Impossibilitado de andar por conta de limitação física, viajou por outras culturas através dos livros. “Ler é ver o mundo com a alma”, dizia.

Madalena fala sobre o pai de maneira quase poética, lembrando seus braços fortes, uma espécie de compensação pela sua condição de paralítico. Ela recorda seo Zinho “pegando no pesado”, até porque as coisas nunca foram leves em sua vida.

E arremata de maneira magistral ao afirmar que as pernas sem movimento, quietas sobre a cadeira de rodas ou sobre o cavalo, seu condutor de toda a vida, são as marcas visíveis da perda infantil e da dor adulta. Os seus pés não vão a lugar algum, são as raízes do corpo. Confesso que choro toda vez que leio.

Agraciada com o Título de Cidadã Feirense, concedido pela Câmara Municipal, não conheço homenagem mais justa a essa profissional que sempre serviu à cidade e continua a fazê-lo. A honraria vem se juntar a tantas outras que já lhe foram conferidas, o que a envaidece, é claro, mas sem deslumbramento.

Madalena sempre diz que deve tudo a Feira de Santana. Foi aqui que iniciou a sua trajetória profissional orientada pelo jornalista Zadir Marques Porto, a quem se refere com carinho e gratidão. Com ele aprendeu toda a essência do jornalismo, principalmente os valores que devem nortear o exercício da profissão.

Na imprensa local passou pelo jornal Folha do Estado, revista Panorama, jornais Folha do Norte e Feira Hoje, este já extinto há alguns anos. Atualmente, divide seu tempo entre a Câmara Municipal, como servidora pública e a FTC. Também é radialista, e atua no site Bahia na política e na Associação Comercial.

Socorro Pitombo, jornalista)

(Texto escrito em 14.09.2018)

domingo, 7 de julho de 2019

SOBRE JOÃO GILBERTO, MÚSICA E SILÊNCIO

José Carlos Teixeira



  

João Gilberto


Foi em 1987. A Feira do Interior reunia milhares de pessoas no Parque de Exposições, em Salvador. Naquele dia, a grande atração musical era ele: João Gilberto. Uma enorme ousadia. Afinal, todos sabiam das exigências de Joãozinho com o silêncio da plateia e a qualidade do som em seus shows. Mas ele topou.

Desde o início da noite a polêmica se estabeleceu: João vem. João não vem. Deu 23h, horário do show e nada de João. Deu meia-noite e nada. Por volta de 1h soube-se que ele havia chegado ao Hotel da Bahia. Às 2h circulava a notícia: Joãozinho estava a caminho. Chegou quase 4h. Entrou no palco uma meia hora depois, para alegria da plateia formada por fiéis e renitentes fãs, que, embalados por muitas cervejas bebidas na prolongada espera, o acompanharam logo na primeira música. João gostou e os incentivou. Pediu desculpa pelo atraso, falou de sua alegria em estar na Bahia, elogiou a afinação da plateia e emendou uma nova música.

Em meio ao público, circulavam vendedores de cerveja e amendoim e até um vendedor de sorvete que - suprema heresia - de vez em quando tocava o sino do carrinho sem se deixar intimidar por um ou outro olhar de desaprovação. Amanheceu, o sol mostrou a cara e João lá, desfiando seus clássicos. Tocou Desafinado, Chega de Saudade, A Felicidade, Eu Vim da Bahia, Garota de Ipanema e muito mais. Sempre acompanhado pelo público.

Joãozinho estava feliz. Eu, todos nós, na frente do palco, ainda mais felizes. Salve João. Obrigado por tudo.

José Carlos Teixeira, jornalista