Artigo do jornalista Evandro Matos* a abordagem sobre a Região Nordeste na novela "Cordel Encantado", publicado no Jornal A Tarde e no blog Demais.Imagem própriaEnfim, a Globo voltou a escolher um tema interessante para a novela das 18 horas. Com "Cordel Encantado" a emissora recupera preciosos pontos da audiência no horário e dá à Região Nordeste o direito de expor a sua própria imagem e costumes, diferente da visão subalterna e consumidora que impunha em outros momentos.
Mudanças na menteA impressão que temos, agora, é que, devido ao sucesso da novela e a forma como ela foi concebida pela diretora Amora Mautner, três coisas mudarão significativamente na mente das pessoas após o seu final: o conceito sobre a região nordestina, a visão sobre o cangaço e o olhar sobre rio São Francisco.
Sotaque valorizadoNo primeiro caso, finalmente o Nordeste aparece nas telas da Globo com a sua verdadeira cara, sem importação de hábitos e costumes e impondo a sua própria cultura e o jeito de ser do seu povo. A sua linguagem e o seu sotaque estão, acima de tudo, valorizados.
Temáticas rediscutidasPara mostrar a região, a trama também resgata nuances históricas das suas temáticas, como o coronelismo, o messianismo de Antonio Conselheiro, a religiosidade de Padre Cícero e o próprio cangaço de Virgulino Ferreira, o Lampião.
Identidade do NordesteÉ verdade que a autora se preocupa em mostrar os efeitos negativos da problemática social, mas é a partir disso também que ela insere novos valores, mostrando que, apesar de toda a miséria, a região também é rica em alegria e entretenimento. A Globo redescobre o Nordeste, apresentando para o país a sua gente, seus costumes, mas, acima de tudo, a sua riqueza cultural e a sua verdadeira identidade.
Visão acadêmicaPor isso, nesse momento, refletimos e discordamos da tese do professor Durval Muniz de Albuquerque Jr, que em seu livro "A Invenção do Nordeste" tenta desconstruir os discursos de escritores e artistas, que, segundo ele, como os políticos da região, tiraram proveito ao denunciarem todo o seu quadro de miséria.
Saga sertanejaTalvez se o autor vivesse cá entre nós, entenderia que quando Graciliano Ramos escreveu a saga de Fabiano e Sinhá Vitória ("Vidas Secas") quis apenas fazer uma denúncia social. Da mesma forma, quando cantou "A Volta da Asa Branca", Luiz Gonzaga apenas expressou o sentimento de alegria do povo nordestino após o fim de um ciclo de seca e miséria.
Beber nas fontesContrariando a posição de Muniz, na trama a diretora Amora Mautner reforça a tese de que hoje nada se cria, tudo se copia. Sabiamente ela bebe na obra de quase todos os escritores e artistas nordestinos, de Graciliano Ramos a João Cabral de Melo Neto, de Euclides da Cunha a Ariano Suassuna, de Luiz Gonzaga a Lirinha. Assim, ver o profeta Miguezim é rever o Antonio Conselheiro de "Os Sertões", assim como ver Herculano é reencontrar o Lampião retratado por Antônio Amauri Correia de Araújo.
Resgate de valoresPortanto, ao mostrar esses ricos personagens da literatura e do folclore nordestino, a Globo redescobre a região para as novas gerações, resgatando os seus valores culturais e as riquezas encravadas no sertão de Brogodó e Vila da Cruz, cidades imaginárias que são representadas por Canindé do São Francisco, em Sergipe, e Piranhas, em Alagoas, onde aconteceu boa parte das gravações de "Cordel Encantado".
Cangaço novoCom forte temática na novela, o cangaço também ressurge com uma nova roupagem. Por isso, não é exagero afirmar que uma nova visão paira sobre o tema, justamente a partir do viés que a Globo vem lhe dando.
Cangaço brandoEm "Cordel Encantado", o cangaço não significa apenas a velha imagem de crimes e sangue derramado no sertão. Ao contrário, há um Herculano (o rei do cangaço na trama) mais humano, que, como Lampião, penetra no meio urbano; há Cândida, mãe do cangaceiro, que não cumpriu este papel na vida real, mas surge para dá um perfil mais brando ao cangaço.
Queda de paradigmasEm Cordel, rei do cangaço conversa com o rei de Seráfia e cangaceiro namora a primeira-dama e a duquesa. Enfim, há uma mistura de valores e uma quebra de paradigmas que põe fim às diferenças entre o homem rude do sertão com o urbano.
São FranciscoA novela também traz as ricas paisagens do rio São Francisco, cujas imagens valem muito mais do que um comercial. Os cânions no trecho de Paulo Afonso a Xingó botam os nossos olhos para sonhar. Se o rio já era místico e desejado, agora ele será muito mais valorizado e procurado. Dessa forma, ao mostrar as paisagens ribeirinhas do Velho Chico, a emissora carioca ajuda a impulsionar mais ainda o turismo na região.
Trilha sonoraAliado a isso, acrescente-se outros valores que foram recuperados, como a trilha sonora escolhida para ilustrar as cenas da novela. Músicas que retratam a miséria da região, como "Carcará", de João do Vale, ou canções que embalaram romances da sua gente, como "Chão de Giz", de Zé Ramalho, e "Na Primeira Manhã", de Alceu Valença. Isso, sem esquecer o elenco recheado de atores nordestinos e baianos, escolhidos a capricho.
Ressurreição do adormecidoEnfim, o conjunto das imagens que se sucedem, dos personagens que nos representam, do rio encantado, do coronel decadente e do cangaço humanizado, coloca o Nordeste com um maior atrativo turístico e cultural, porque ressuscita algo que estava adormecido nas gerações mais velhas e agrega mais valores às gerações mais novas.
Patrimônio a ser desvendadoDoravante, conhecer o Nordeste vai ser muito mais atraente para os moradores de outras regiões, principalmente por se saber que dentro do seu território existe um vasto patrimônio cultural a ser desvendado, mas também porque se trata de uma região que, hoje, cresce acima da média nacional.
* Evandro Matos é jornalista, assessor de comunicação da CBPM e diretor do portal "Interior da Bahia"